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Foto de Varoveira

Foto: JG (CC BY) via GBIF

Varoveira

Prunus brasiliensis

Rosaceae Mata AtlânticaCerrado
  • 5 a 15 m (até 25 m)Altura
  • Médio portePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: alma-de-serra, amendoeira-brava, cerejeira-brava, coração-negro, coração-de-negro, marmeleiro-bravo, pessegueiro, sabiaeiro, viraru, cerejeira, varova, cerejeira-do-brasil, coração-de-bugre, gingeira-brava, marmeleiro, marmelo-bravo, marmelo-do-mato, pêssego-bravo, pêssego-do-mato, pessegueiro-d’água, saduva, pessegueiro-brabo, pessegueiro-bravo, pessegueiro-do-mato

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Rosales, dentro da família Rosaceae. Seu nome aceito é Prunus brasiliensis (Chamisso & Schlechtendal) D. Dietrich, registrando-se como sinônimos botânicos Cerasus brasiliensis Cham. & Schl., Laurocerasus brasiliensis M. Roem. e Prunus sphaerocarpa Hook. Quanto à origem do nome, Prunus é a denominação latina para a ameixeira e a cerejeira, enquanto brasiliensis faz referência ao Brasil, país onde foi coletado o material-tipo.

Descrição botânica

Trata-se de uma árvore perenifólia que normalmente atinge de 5 a 15 m de altura e de 20 a 50 cm de DAP, podendo, em exemplares adultos, chegar a 25 m e 80 cm de DAP. O tronco é cilíndrico, de reto a um pouco tortuoso, com fuste de até 12 m. A ramificação é cimosa, em forquilha, formando uma copa ampla, irregular e pouco densa, com lenticelas nos galhos. A casca chega a 16 mm de espessura; externamente é cinza, áspera, solta um pó ao toque e pode aparecer manchada por liquens, enquanto a casca interna tem cor alaranjada que oxida rapidamente. As folhas são simples, alternas ou alterno-espiraladas, glabras, de margem lisa, com limbo de 5 a 13 cm de comprimento por 2 a 4,5 cm de largura, geralmente brilhante, cartáceo, de contorno elíptico a ovado, base arredondada ou aguda e ápice acuminado; eventuais glândulas aparecem afastadas da base, na face inferior, uma de cada lado. As nervuras são salientes em ambas as faces e o pecíolo, arroxeado, mede de 7 a 20 mm. Maceradas, as folhas liberam um odor próprio devido ao glicosídeo cianogênico. As flores são brancas, de 3 a 4 mm, agrupadas em racemos axilares solitários e laxos de 2 a 10 cm, que reúnem até 20 flores. O fruto é uma drupa globosa, quase esférica, lisa, indeiscente, carnosa, de 6 a 10 mm de comprimento por 7 mm de largura, que ao amadurecer fica roxo-escura e lembra uma cereja pequena. Cada fruto contém uma única semente, de endocarpo globoso a largamente elipsoide, com ápice mucronado e uma sutura lateral que vai do mucron até o hilo, uma cicatriz circular de cerca de 1 mm na base. A semente é bege-clara, creme-esverdeada ou amarelo-escura, mede de 5 a 7 mm de diâmetro, tem consistência córnea e superfície áspera, com nervuras reticuladas partindo da sutura lateral.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

A madeira da varoveira é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,69 a 0,76 g/cm³ a 12% de umidade e de 0,76 a 0,92 g/cm³ a 15%. Alburno e cerne são pouco distintos, de tom róseo-amarelado-claro, levemente rosado, com estrias longitudinais avermelhadas, em geral curtas. A superfície é lisa e lustrosa, a textura é fina e a grã varia de direita a irregular, sem cheiro ou gosto perceptíveis. A durabilidade natural diante de organismos xilófagos é moderada e a madeira é pouco ou nada permeável às soluções preservantes, mesmo sob pressão. O desdobro é fácil e ela aceita bem o aplainamento e o lixamento, resultando em desenhos bonitos, embora seja afetada por orifícios de insetos e por rachaduras durante a secagem; possui óleo-resina abundante nos canais secretores longitudinais, alta anisotropia de inchamento e forte contração tangencial. Entre seus produtos, a madeira serrada e roliça presta-se à construção civil, móveis de qualidade inferior, tacos e tábuas de assoalho, artigos esportivos, acabamentos internos, cabos de ferramentas, vigamentos, lambris, laminados, dormentes de segunda categoria, folhas faqueadas decorativas e peças torneadas. Tem poder energético razoável, mas é inadequada para celulose e papel. Quimicamente, a casca contém pequena quantidade de saponina. A infusão de folhas e casca atua como calmante para tosse e crises de asma, e povos indígenas do Paraná e de Santa Catarina empregam folhas e casca contra dor de dente, dor de cabeça, febre e tosse; as sementes, porém, são venenosas. No paisagismo, é indicada sobretudo para arborização de margens de rodovias. É importante alertar que a espécie é altamente cianogênica: a ingestão de folhas e galhos provoca morte rápida em bovinos e caprinos, de modo que seu uso como forrageira deve ser evitado, ainda que a forragem apresente 12,5% de proteína bruta e de 7% a 9% de tanino.

Aspectos ecológicos

A varoveira é classificada como secundária inicial ou clímax exigente de luz. É comum na vegetação secundária e apresenta boa regeneração natural, superior a 50%. Ocorre principalmente na Floresta Ombrófila Mista Montana (floresta com araucária), onde ocupa o estrato intermediário e pode ser bastante frequente, além da Floresta Estacional Semidecidual Submontana e da Floresta Estacional Decidual, nas formações baixo-montana e montana. Em menor proporção, aparece na Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica), nos remanescentes de cerrado do Paraná, nos campos rupestres e de altitude de Minas Gerais e na restinga. Embora seja típica de mata mesófila, sua estrutura foliar lhe permite ocupar também ambientes mais secos. Em densidade, foram registrados de 6 a 22 indivíduos por hectare na Selva Misionera (Misiones, Argentina), de 2 a 4 árvores por hectare em florestas estacionais semideciduais de Minas Gerais e São Paulo, e 14 indivíduos por hectare em floresta estacional decidual no noroeste do Rio Grande do Sul.

Floração e frutificação

A floração ocorre de agosto a fevereiro em São Paulo, de setembro a outubro no Rio Grande do Sul, de novembro a março no Paraná e de janeiro a fevereiro no Rio de Janeiro. Os frutos amadurecem de janeiro a abril no Rio Grande do Sul, de março a julho no Paraná, de março a outubro em São Paulo, de maio a agosto no Rio de Janeiro e de setembro a outubro em Minas Gerais. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 2 anos de idade.

Fauna associada

É uma planta hermafrodita, polinizada sobretudo por abelhas. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, realizada por mamíferos, com destaque para o macaco-bugio ou guariba (Alouatta fusca), e por aves, principalmente o sabiá-laranjeira (Turdus sp.). As flores são melíferas e, em São Paulo, florescem em agosto, mês de poucas floradas, sendo muito visitadas pelas abelhas em busca do néctar abundante.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos quando começam a atrair as aves e passam do verde ao preto. Depois da colheita, ficam de 12 a 24 horas imersos em água para amolecer a polpa e, em seguida, são macerados em peneira sob água corrente para separar a parte carnosa; as sementes limpas são então secas em peneiras, em local ventilado. Muitas sementes são encontradas já livres da polpa sob as árvores, em um beneficiamento natural feito por formigas e aves. Cada quilo reúne de 3.679 a 5.020 sementes. A espécie não tem dormência, mas a imersão em água fria por 24 a 48 horas favorece a embebição e acelera a germinação. Trata-se de semente de comportamento recalcitrante: o poder germinativo cai com a redução do teor de umidade. Em ensaios, sementes com 65% de germinação e 35% de umidade iniciais, guardadas em saco plástico a 4ºC e em ambiente, germinaram, aos 90 dias, 27% e 0%, respectivamente; outro lote, com 74% de germinação inicial, mantido em vidro fechado em laboratório e em câmara fria, apresentou aos 12 meses germinação de 34% e 46%. Em laboratório, as melhores temperaturas situam-se entre 20ºC e 26ºC, nos substratos areia, vermiculita nº 3, papel-toalha e papel mata-borrão verde e branco.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sacos de polietileno de no mínimo 14 cm de altura por 6 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio; quando se usam sementeiras, a repicagem deve ocorrer de uma semana a um mês após a germinação. A germinação é hipógea, com cotilédones laterais ao eixo do epicótilo, iniciando-se entre 15 e 75 dias após a semeadura. O poder germinativo é alto, chegando a 95% e ficando em média em 80%, e as mudas atingem tamanho adequado para o plantio cerca de quatro meses depois da semeadura. No viveiro da Embrapa Florestas, em Colombo (PR), substrato com 5,1 m.eq./100 cm³ de alumínio resultou em plântulas desuniformes, crescimento atrasado e alta mortalidade no campo, ao passo que substrato com 1,5 m.eq. de alumínio, em terra de mato, gerou plântulas homogêneas, maior crescimento em altura e elevada sobrevivência. Aconselha-se cobrir os canteiros com palha de arroz e dispensar o uso de sombrite. As raízes estabelecem associação simbiótica com fungos micorrízicos arbusculares, dos gêneros Acaulospora e Glomus, sendo recomendável inocular o solo do viveiro com terra coletada sob pessegueiros adultos, prática que melhorou crescimento e sobrevivência das mudas no campo.

Características silviculturais

A varoveira é heliófila, suporta sombreamento leve na fase juvenil e tolera baixas temperaturas. Seu hábito é variável, indo do crescimento monopodial a bifurcações em diferentes alturas, com possibilidade de brotos ladrões, galhos grossos e ramificação pesada. Como não faz desrama natural, exige podas periódicas de condução e de galhos para que renda madeira aproveitável comercialmente. Pode ser plantada a pleno sol em povoamento puro, no qual cresce de forma satisfatória, mas com heterogeneidade de altura e de forma dentro e entre locais, ou em plantio misto com espécies pioneiras, o que ajuda a corrigir problemas de forma. Rebrota da touça e do colo, em várias alturas, após o corte, podendo ser conduzida em sistema de talhadia. Deve-se evitar empregá-la como árvore de sombra em sistemas silvipastoris, por ser tóxica ao gado. Há recomendação de uso da espécie em conservação genética in situ, conforme estudos sobre regeneração natural na Reserva Genética de Caçador (SC).

Crescimento e produção

O crescimento varia de moderado a rápido, com produção volumétrica que pode chegar a 14,45 m³/ha/ano. Um fator limitante para o cultivo são os índices de sobrevivência abaixo de 50%, observados em diversos locais da rede experimental da Embrapa Florestas.

Clima

A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul, exceto no norte do Paraná, e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul, pequena no inverno do Planalto Norte do Paraná e moderada no inverno do norte do Espírito Santo, onde a estação seca chega a três meses. A temperatura média anual varia de 13,4ºC (Campos do Jordão, SP) a 23,6ºC (Linhares, ES); a média do mês mais frio vai de 8,2ºC (Campos do Jordão) a 21,1ºC (Porto Seguro, BA) e a do mês mais quente de 19,9ºC (Curitiba, PR) a 26,5ºC (Rio de Janeiro, RJ). A mínima absoluta registrada foi de -10,4ºC, em Caçador (SC), podendo chegar a -15ºC na relva, e ocorrem até 57 geadas por ano nas Regiões Sul e Sudeste. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Aw e Af).

Solos

A espécie não tolera solos rasos, pedregosos, hidromórficos ou de baixa fertilidade química. Em plantios experimentais, desenvolveu-se melhor em solos bem drenados, de boas propriedades físicas, textura de franca a argilosa e alta fertilidade química.