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Foto de Uvaia

Foto: Abril Bastons (CC BY) via GBIF

Uvaia

Eugenia pyriformis

Myrtaceae Mata AtlânticaCerradoPantanal
  • até 15 mAltura
  • Médio portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: uvaieira, uvalha, uvaia-do-mato, uvalha-do-campo, uvalheira, ovaia, ubaia, azedinha, orvalha, pitanga, jaboticaba-do-campo, eucaliptinho, cerejeira

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

A uvaieira pertence à família Myrtaceae, dentro da ordem Myrtales e do clado das rosídeas, segundo a classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II). Seu nome científico é Eugenia pyriformis, descrita por Cambessèdes e publicada pela primeira vez em 1829 (Fl. Bras. 2:241). A espécie reúne diversos sinônimos botânicos, entre eles Eugenia turbinata Berg, Stenocalyx lanceolatus Berg, Eugenia phlebotomoides, Luma turbinata e Eugenia pyriformis var. riograndensis Mattos. O gênero Eugenia homenageia Francisco Eugênio de Saboia, o Príncipe de Saboia, militar de destaque e protetor das artes; já o epíteto pyriformis remete ao formato de pera dos frutos. Em tupi, os nomes indígenas iwa 'ya e ybá-aí significam fruto ácido.

Descrição botânica

Trata-se de uma árvore perenifólia (sempre-verde), de troca foliar contínua, que na fase adulta pode alcançar cerca de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco varia de praticamente reto a ligeiramente tortuoso, com fuste curto que não passa de 5 m; sua coloração lembra a do arrayán (Luma apiculata) dos bosques andino-patagônicos. A ramificação é cimosa, com ramos delgados, subachatados ou subquadrangulares, recobertos por pelos sedosos ou aveludados, e a copa mede de 6 m a 7 m de diâmetro. A casca é bastante delgada (até 4,5 mm), com superfície externa lisa, de tom cinza-amarelado, salpicada de pontos mais claros e bastante descamante, deixando cicatrizes. As folhas são simples, opostas, sem estípulas, de formato oblongo-lanceolado e consistência cartácea, medindo de 2,5 cm a 6 cm de comprimento por 0,8 cm a 2 cm de largura, verde-claras na face superior e com pelos finos na inferior; os pecíolos têm de 2,5 mm a 4,5 mm. As inflorescências surgem em dicásios axilares, e as flores são hermafroditas, brancas e vistosas, isoladas ou em cachos parcialmente escondidos pelas folhas; os botões florais são minúsculos, verdes e globosos, com cerca de 1 mm, podendo aparecer até três por pedicelo nas axilas dos ramos jovens. Os frutos são bagas globosas e grandes, de 2 cm a 4 cm de diâmetro, amarelas ou alaranjadas e muito atraentes, contendo de 1 a 4 sementes. As sementes são globosas, brancas, chegam a 1 cm de diâmetro e não possuem endosperma (exalbuminosas); o embrião é eugenioide, com cotilédones carnosos, radícula pouco aparente e, como nas demais espécies brasileiras de Eugenia, aparentemente indiviso.

Uso e ecologia
alimentíciopaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícolamadeireiro
Produtos e utilizações

Os frutos da uvaieira são bastante saborosos, ácidos e pubescentes, com polpa abundante e rica em vitamina C. Podem ser consumidos frescos ou transformados em sucos e refrescos, sorvetes, geleias, compotas, doces, pudins e mousses, além de render um vinagre de qualidade superior. No Sudeste, eram tradicionalmente usados para suavizar o sabor da cachaça. A fragilidade da casca (epicarpo) a lesões durante a colheita e o transporte limita seu uso comercial, mas o excelente sabor e a polpa farta indicam potencial industrial, que poderia ser aproveitado com trabalho de melhoramento e seleção. Os frutos também servem de alimento na engorda de animais domésticos. Na medicina popular, a casca é empregada como adstringente contra diarreias e disenterias, ajuda a evitar a retenção de líquidos no organismo e serve de refrigerante a pessoas com febre tifoide; mulheres indígenas de várias etnias do Paraná e de Santa Catarina preparam chá da casca do caule, tomado três vezes ao dia por 3 a 4 dias, para aliviar cólicas menstruais. A madeira é densa (0,90 g/cm³ a 0,98 g/cm³), de cor branco-pardacenta, compacta, elástica, muito resistente e durável, embora seu uso seja restrito às regiões de ocorrência, como mourões, cercas de tábuas lascadas e, na região metropolitana de Curitiba (PR), cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Fornece lenha de qualidade aceitável, mas não serve para celulose e papel.

Aspectos ecológicos

É uma espécie secundária, do estágio inicial ao tardio da sucessão. Característica da Zona dos pinhais e da chamada mata branca do rio Uruguai e seus afluentes, é comum nas submatas abertas dos pinhais, onde apresenta ampla e expressiva ocorrência. Aparece na Mata Atlântica em Floresta Estacional Decidual (formações Submontana e Montana, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, com até dois indivíduos por hectare), em Floresta Estacional Semidecidual (formações Submontana e Montana, em Minas Gerais, no Paraná e em São Paulo, com até dez indivíduos por hectare) e, sobretudo, em Floresta Ombrófila Mista, com araucária (formação Montana, no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, alcançando até 75 indivíduos por hectare). No Cerrado, ocorre em savana (cerrado stricto sensu) no Paraná e em São Paulo, com até 20 indivíduos por hectare, em savana florestada em São Paulo e em campo cerrado no Paraná. No Pantanal, está presente no Pantanal Mato-Grossense, em Mato Grosso do Sul. Também é encontrada em mata ciliar no Paraná e no Rio Grande do Sul (cerca de um indivíduo por hectare) e em floresta higrófila no Paraná.

Floração e frutificação

A floração vai de agosto a outubro em São Paulo, de setembro a novembro em Mato Grosso do Sul, de setembro a janeiro no Paraná e de setembro a fevereiro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de outubro a fevereiro no Rio Grande do Sul, de novembro a janeiro em Mato Grosso do Sul e de janeiro a fevereiro no Paraná. Em plantas cultivadas em solo fértil, a frutificação começa entre o quarto e o quinto ano.

Fauna associada

A polinização é feita principalmente por abelhas, com destaque para a abelha-europeia (Apis mellifera) e a mamangava (Bombus morio); estudos também registram visitantes florais da família Apidae (Meliponinae). A dispersão das sementes ocorre por gravidade ou por animais, como certas aves e mamíferos, entre eles os macacos.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde para o amarelo e, em seguida, beneficiados por lavagem manual em água corrente com auxílio de peneira, para separar as sementes. Cada árvore produz, em média, 5 kg de frutos por ano, podendo chegar a 10 kg quando bem adubada. Há de 530 a 1.170 sementes por quilo. Não é necessário tratamento pré-germinativo, embora alguns autores recomendem cortar a semente longitudinalmente, no seu maior eixo, para multiplicar a produção de mudas a partir de um mesmo lote. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante: são grandes, de tegumento delgado e cartáceo, e perdem a viabilidade rapidamente quando secam, deteriorando-se quando a umidade cai abaixo de 14%. O poder germinativo começa a se reduzir de 15 a 20 dias após a colheita; já em câmara fria, mantendo a umidade acima de 20%, conservam-se por 60 dias com perda de emergência inferior a 50% da inicial.

Produção de mudas

As sementeiras precisam ser sombreadas e mantidas úmidas; quando a semeadura é feita direto em recipientes, a repicagem deve ocorrer logo após a germinação. O melhor resultado é obtido semeando diretamente em embalagens individuais, o que ainda facilita o plantio definitivo, já que o pegamento de raiz nua nem sempre é satisfatório. A germinação é hipógea (criptocotiledonar), com emergência entre 20 e 45 dias após a semeadura e, em geral, alto desempenho germinativo. A espécie apresenta baixa incidência de micorriza arbuscular. A propagação é feita por semente, mas, pela semelhança com a pitangueira (Eugenia uniflora), é provável que a enxertia por garfagem funcione bem, permitindo multiplicar genótipos superiores para pomares de sementes clonais. Em sacos de polietileno, recomenda-se adubação orgânica (25% do volume de solo) ou química (4 kg/m³ de NPK 4:14:8); em tubetes de polipropileno, aplicam-se 100 g de adubo de liberação lenta para cada saco de 25 kg de substrato.

Características silviculturais

A uvaieira é uma espécie esciófila e tolerante a baixas temperaturas. Tem ramificação simpodial, irregular e variável, tronco curto, copa bastante ramificada e sem dominância apical definida, além de derrama natural deficiente. Por isso, requer podas periódicas de condução e de galhos, regulares e anuais, entre junho e julho, o que resulta em árvore de porte menor. Deve ser plantada a pleno sol, em sistema puro ou misto. No Sul do Brasil, é tradicionalmente cultivada no sistema de faxinal. A espécie é conservada no Banco Ativo de Germoplasma de fruteiras nativas da Embrapa Clima Temperado, onde é estudada com vistas a desenvolver um sistema de produção comercial e, eventualmente, um programa de melhoramento genético.

Crescimento e produção

Existem poucas informações sobre o desempenho da uvaieira em plantios, mas seu crescimento é considerado lento.

Clima

A precipitação média anual varia de 1.100 mm, em São Paulo, a 2.300 mm, no Paraná, com chuvas bem distribuídas na região Sul (exceto no norte do Paraná) e chuvas periódicas no restante da área. A deficiência hídrica é nula na região Sul (com a mesma exceção), de pequena a moderada no inverno do planalto central e leste paulista, e de moderada a forte no inverno de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 24,5 ºC (Coxim, MS); a média do mês mais frio varia de 9,4 ºC a 20,6 ºC e a do mês mais quente, de 17,2 ºC a 26,4 ºC, nas mesmas localidades. A temperatura mínima absoluta registrada foi de -10,4 ºC, em Caçador (SC), em 1963, podendo chegar a -17 ºC em pontos do Planalto Sul-Brasileiro. As geadas são frequentes no inverno desse planalto e ausentes em Mato Grosso, variando em média de 0 a 30, com máximo absoluto de 57 em Santa Catarina. Segundo Köppen, ocorre nos climas Aw (tropical com inverno seco), Cfa (subtropical com verão quente), Cfb (temperado com verão ameno), Cwa (subtropical com inverno seco e verão quente) e Cwb (subtropical de altitude com inverno seco e verão ameno).

Solos

Em condições naturais, a uvaieira aparece em solos de fertilidade regular a boa, úmidos, bem drenados e de textura areno-argilosa. Desenvolve-se bem em solos de origem granítica, eruptiva, sedimentar e aluvional.