voltar ao catálogo
Foto de Ucuúba-do-cerrado

Foto: Donald Davesne (CC BY) via GBIF

Ucuúba-do-cerrado

Virola sebifera

Myristicaceae AmazôniaCerradoMata Atlântica
  • até 35 mAltura
  • Muito grandePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: ucuúba, bicuíba, ucuúba-vermelha, virola, pindaíba-roxa, árvore-de-sebo, café-do-mato, pau-de-sebo, pindaibão, sebosa, vermelhão, pindaíba, lacre, ucuúba-preta, ucuubinha

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Myristicaceae, a ucuúba-do-cerrado tem como nome científico válido Virola sebifera Aublet, do gênero Virola, dentro da ordem Magnoliales e do clado das Magnoliídeas (classificação APG II). A espécie foi descrita pela primeira vez em 1755. Reúne uma sinonímia botânica extensa, na qual figuram nomes como Myristica sebifera Swartz, Myristica mocoa A. De Candolle, Virola boliviensis Warb. e Virola warburgii Pittier. O nome do gênero foi cunhado por Aublet a partir da designação que os índios Sinerami, da Guiana Francesa, davam à planta; já o epíteto sebifera faz referência ao óleo presente nas sementes, indicando aquilo que produz sebo ou cera.

Descrição botânica

Espécie de porte variável, vai do arbusto à árvore, com folhagem sempre-verde a semidecídua e brotação que se mantém ao longo de todo o ano. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 35 m de altura e 130 cm de diâmetro à altura do peito na fase adulta, embora também ocorra na forma de arbusto de apenas 1 m. O tronco é tortuoso, com fuste acanalado na base e, por vezes, sapopemas pouco desenvolvidas. A ramificação é dicotômica e a copa, irregular, formada por ramos horizontais largos e dispostos em verticilos; os raminhos jovens são rugosos e revestidos de tricomas estrelados, tornando-se glabros com a idade. A casca atinge até 20 mm de espessura: a externa é marrom a parda-escura, finamente fissurada e descama em fragmentos irregulares, enquanto a interna é rosada, escurecendo para tons roxos ao contato com o ar, de sabor amargo e exsudato roxo. As folhas são simples, alternas e dispostas num único plano; o limbo é coriáceo, de aspecto aveludado e ferrugíneo, com formato oblongo, ovado, elíptico ou deltoide-oblongo, medindo de 15 a 30 cm de comprimento por 4 a 10 cm de largura, glabro na face superior e densamente tomentoso na inferior, com 12 a 20 nervuras secundárias de cada lado. As flores se reúnem em panículas: as masculinas formam inflorescências mais ramificadas e densas, de 6 a 23 cm, e as femininas são mais curtas, de 3 a 7 cm. As flores são pequenas, com 3 a 4 mm. O fruto é uma cápsula deiscente que se abre em duas valvas, de formato elipsoide, com 1,5 a 2,0 cm de comprimento e cerca de 2 cm de diâmetro, superfície ferrugínea e densamente pubescente; cada infrutescência reúne de 10 a 30 frutos maduros, e cada fruto contém uma única semente ovoide-elipsoide, de 1,4 a 1,8 cm, envolvida por um arilo avermelhado e laciniado.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (0,50 a 0,76 g/cm³), de grã reta, textura média e brilho moderado, com alburno bege-pálido pouco diferenciado do cerne amarelo-pálido. É empregada em construção civil e naval, pontes, estruturas externas, mancais, cabos de ferramenta, carroças e tacos, e na Colômbia é bastante comercializada para a produção de caixas, lâminas e chapas de interior. Suas fibras, abundantes e com cerca de 1,51 mm de comprimento, também a tornam apta à fabricação de papel. As sementes são ricas em óleo, com teor de até 65% de azeite, usado na Colômbia para fazer velas e sabão e como combustível para iluminação. Na medicina popular, diversas partes da planta têm uso atribuído: o fruto contra hemorroidas, a semente contra tumores, e a folha e a casca como vermífugo e no combate a problemas estomacais, cólicas, erisipela, inflamações, reumatismo e ferimentos. A resina vermelha que escorre da casca é aplicada contra aftas, dor de dente, gripes e anginas, sendo também relatado seu uso para perda de memória e faringite. Da casca, povos da Amazônia colombiana e brasileira preparam um alucinógeno conhecido como yakeé na Colômbia e paricá no Brasil. Quanto à fitoquímica, a espécie contém N,N-dimetil-triptamina e 2-metiltetrahidro-β-carbolina como princípios ativos básicos, além de hidrocarbonetos alifáticos, triglicerídeos, lignanas lactônicas e β-sitosterol.

Aspectos ecológicos

Trata-se de espécie pioneira ou clímax exigente em luz, que se distribui de forma esparsa ou em agrupamentos e costuma ocupar o estrato emergente. É uma das mais abundantes na floresta secundária, onde chega a representar 7,7% da área basal, mas escassa na floresta primária, com apenas 0,8%. No Peru, mostra alta capacidade de regeneração natural a partir das sementes. Ocorre em formações variadas: na Amazônia, em Floresta Ombrófila Densa de terras baixas, no Amapá; na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Decidual e Semidecidual de Minas Gerais e São Paulo; e no Cerrado, em campo sujo, cerrado stricto sensu e cerradão, com densidades que vão de poucos indivíduos a dezenas por hectare. É também frequente em matas ciliares e de galeria, tendo sido encontrada em 16 das 21 matas de galeria amostradas no Distrito Federal, e ocorre ainda em florestas inundáveis, em Tocantins.

Floração e frutificação

A floração é anual, intensa e prolongada, do tipo cornucópia, com os indivíduos masculinos florescendo mais cedo e por mais tempo que os femininos. Foram registradas flores praticamente o ano todo, conforme a região: de setembro a abril no Distrito Federal; de dezembro a maio em Minas Gerais; de janeiro a abril em Goiás; de janeiro a novembro no Pará; de fevereiro a abril no Mato Grosso; de fevereiro a julho no Maranhão; em março em Tocantins; de março a agosto no Acre; em abril no Amapá; de abril a maio no Amazonas; e de julho a agosto em Roraima. Os frutos amadurecem de fevereiro a março no Distrito Federal, de maio a outubro em Minas Gerais e São Paulo, e em julho em Rondônia.

Fauna associada

A espécie é dioica, com reprodução parcialmente apomítica. Os polinizadores efetivos não foram definidos, mas há registro da visita da mosca Ornidia obesa, e supõe-se que a polinização seja realizada por insetos muito pequenos, como besouros noturnos ou diminutos tisanópteros e homópteros capazes de alcançar o pólen no interior da corola. A dispersão dos frutos e sementes é feita por animais, sobretudo aves silvestres como tucanos (Ramphastus spp.) e jacus (Penelope sp.), e também pela água, especialmente na Amazônia.

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita deve ser feita na árvore apenas quando os frutos começam a se abrir, pois antes disso a semente ainda se mostra imatura. Após a coleta, as sementes ficam de molho para retirada do arilo e, em seguida, são postas a secar. Cada quilo reúne de 1.600 a 1.700 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. São sementes recalcitrantes, isto é, perdem rapidamente a viabilidade quando guardadas em ambiente sem controle, o que dificulta seu armazenamento.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno; quando necessária, a repicagem é feita de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea e fanerocotiledonar, com emergência iniciando entre 21 e 56 dias e poder germinativo de 50% a 82%. As plântulas costumam ter dificuldade para erguer os cotilédones, deixando o epicótilo torto ou enrolado. As mudas alcançam tamanho adequado ao plantio cerca de quatro meses após a semeadura.

Características silviculturais

Espécie heliófila e sensível ao frio, apresenta crescimento monopodial, com galhos emitidos em ângulos próximos de 90º e boa desrama natural. Pode ser cultivada em plantios puros a pleno sol ou em consórcios com espécies pioneiras e secundárias. Em sistemas agroflorestais, é indicada para a arborização de culturas perenes e de pastagens.

Crescimento e produção

São escassas as informações disponíveis sobre o desenvolvimento da espécie em plantios.

Clima

A precipitação média anual varia de 900 mm, em Minas Gerais, a 2.300 mm, no Amapá e em Rondônia, com chuvas de regime periódico. A deficiência hídrica vai de pequena a forte conforme a região e a estação. A temperatura média anual fica entre 20,4 ºC (Araxá, MG) e 26,6 ºC (Óbidos, PA), com mínima absoluta registrada de -2,2 ºC, em Uberaba, MG, em julho de 1981. As geadas são raras no sul do Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais e em São Paulo, e ausentes no restante da área. Os climas predominantes, na classificação de Köppen, são Am, Aw, Cwa e Cwb.

Solos

Adapta-se a diferentes tipos de solo, com preferência pelos de natureza argilo-silicosa.