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Foto de Tingui

Foto: Nicola Crockford (CC BY) via GBIF

Tingui

Magonia pubescens A. St.-Hil.

Sapindaceae CerradoMata AtlânticaCaatingaPantanal
  • até 16 mAltura
  • Médio portePorte
Raras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentais

Também conhecida como: tingui-capeta, tingui-de-lavar, tingui-de-árvore, tingui-de-bola, tingui-açu, tingui-de-cola, tingui-do-cerrado, timbó, timbó-de-árvore, timbopeba, timbó-do-cerrado, tangui, lombrigueiro, cuitê, mata-peixe, pau-de-tingui

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação adotada pelo APG II (The Angiosperm Phylogeny Group), a espécie pertence à ordem Sapindales e à família Sapindaceae, dentro do clado das Eurosídeas II. Seu gênero é Magonia, e o nome científico válido é Magonia pubescens A. St.-Hil., descrito pela primeira vez em 1824. São considerados sinônimos botânicos Phaeocarpus campestris Mart. e Magonia glabrata St. Hil. O nome do gênero tem origem na própria designação brasileira da planta, enquanto o epíteto pubescens faz alusão aos folíolos cobertos de pelos. Quanto ao nome popular tingui, não há acordo sobre sua procedência: algumas interpretações o ligam ao tupi tingyia (que embriaga peixes), outras a corruptelas de termos que remetem ao sumo ou à espuma, ou ainda a expressões associando a cor branca e a água espumosa, e há quem o relacione ao mau cheiro do líquido extraído da planta.

Descrição botânica

Espécie que vai do porte arbustivo ao arbóreo, é tipicamente caducifólia: perde as folhas antes de florescer. Os exemplares de maior porte chegam por volta de 16 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco é tortuoso e costuma ter fuste curto, com ramificação dicotômica e ramos de tom acinzentado. A casca atinge até 10 mm de espessura, sendo a parte externa (ritidoma) de superfície lisa a rugosa e coloração cinzenta. As folhas são compostas e pecioladas, com 3 a 6 pares de folíolos subcoriáceos de 6 a 12 cm de comprimento por 2,5 a 5 cm de largura; os folíolos são oblongos, emarginados, curto-peciolulados, discolores, glabros na face de cima e pubescentes na de baixo. As flores se agrupam em panículas tirsoides multifloras de 20 cm (raramente até 40 cm), formadas por cincínios paucifloros e bracteados que reúnem até 50 flores, em sua maioria masculinas e poucas femininas. As flores são unissexuais, pediceladas, amarelo-esverdeadas, de perfume bastante agradável e até 3 cm de comprimento; o cálice tem cinco sépalas ovadas e geralmente pubescentes, e a corola, cinco pétalas obtusas ou levemente agudas, puberulentas e marrons por dentro. O fruto é uma cápsula globosa e loculicida, formada por três valvas lenhosas e côncavas que se soltam do eixo, persistindo presa ao pedúnculo. De cor castanho-avermelhada, opaca e de textura áspera, vista de lado é largamente ovoide e, de cima, levemente triangular de bordos arredondados; mede de 5,5 a 10 cm de comprimento por 7,2 a 11 cm de largura e contém de 8 a 25 sementes. As sementes ficam dispostas na horizontal e têm testa corticosa que se estende em uma ala ao redor do núcleo seminífero; sua cor varia de marrom-clara a marrom-avermelhada (cor-de-telha), com 31 a 90 mm de comprimento, 53,5 a 91,6 mm de largura e 2,5 a 6,2 mm de espessura.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismomedicinalapícolaenergiaartesanato
Produtos e utilizações

A madeira do tingui é densa (0,84 g/cm³ com 15% de umidade), de cor escura e cerne pouco distinto do alburno, textura média e superfície polida sem brilho. Apresenta boa resistência a organismos xilófagos e é fácil de trabalhar. É empregada na construção civil em caibros, ripas, esquadrias, batentes de portas e janelas, e como mourões. Em termos energéticos, é considerada excelente para a produção de carvão siderúrgico em Minas Gerais e também serve como lenha: o alto teor de carbono fixo (57,68%), a elevada densidade da madeira e do carvão (0,54) e o alto poder calorífico (4.987,21 kcal/kg) a tornam apta para uso energético, havendo ainda potencial para a produção de álcool a partir da madeira. Não é adequada, porém, para celulose e papel. As sementes contêm um óleo fino e incolor, comestível e usado para fabricar sabão caseiro na zona rural cearense, sobretudo no Cariri e nas encostas da serra de Ibiapaba; pela presença de saponina, as sementes são também muito utilizadas no preparo de sabão artesanal. Frutos e sementes entram na confecção de arranjos ornamentais e outras peças de artesanato. Na medicina popular, as sementes servem como antissépticas e, por conterem saponina, são usadas na limpeza de úlceras; a infusão da casca trata ulcerações em cavalos causadas por picadas de insetos, e seu decocto é empregado na lavagem de feridas, enquanto a raiz é usada para acalmar os nervos. O extrato etanólico e os taninos isolados da planta mostraram atividade larvicida contra o mosquito da dengue (Aedes aegypti). Vale lembrar que sementes e folhas contêm saponina e, se consumidas pelo gado, provocam intoxicação com cólicas, ânsias, vômitos, sonolência e depressão acentuada; por isso a espécie raramente é usada como pastagem.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie pioneira, presente tanto em formações primárias quanto secundárias. É muito frequente no Cerrado mato-grossense, onde pode formar populações densas. No Cerrado em sentido estrito ocorre com frequência na Bahia, no Distrito Federal, no nordeste de Goiás, no Maranhão, em Mato Grosso, em Minas Gerais, no Piauí e em São Paulo, chegando a 56 indivíduos por hectare, e aparece também em cerradão (savana florestada) nessas e em outras unidades. Na Mata Atlântica está em floresta estacional decidual submontana, no norte de Minas Gerais; na Caatinga, na savana-estépica do sertão árido da Bahia; e no Pantanal mato-grossense, com até sete indivíduos por hectare. É encontrada ainda em matas ciliares no Distrito Federal, Mato Grosso e Minas Gerais, e em floresta decidual sobre afloramento calcário em Goiás.

Floração e frutificação

A floração varia bastante conforme a região: ocorre em março no Piauí; de abril a maio em Minas Gerais; de abril a agosto em Goiás; de junho a outubro em São Paulo; de julho a setembro no Distrito Federal; e de agosto a setembro em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os frutos amadurecem de julho a agosto em Tocantins; em agosto em Goiás e Minas Gerais; de agosto a setembro em Mato Grosso e São Paulo; e em setembro no Distrito Federal. O fruto permanece pendurado por meses e só abre no fim da estação seca.

Fauna associada

A espécie é monoica e tem como principais polinizadores as abelhas. As sementes são dispersas pelo vento, mas, por serem pesadas, acabam caindo a curta distância da árvore-mãe.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos na árvore assim que começam a se abrir e a soltar sementes, podendo também ser apanhados no chão. A secagem é feita a pleno sol, o que estimula a abertura espontânea das cápsulas, provocada pela combinação entre a hidratação dos frutos e a alta temperatura ambiente. Cada quilo reúne de 447 a 560 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo, embora se recomende deixar as sementes de molho por 12 horas; a pré-germinação em rolo de papel pode aumentar a produção de plântulas, reduzir o tempo de formação das mudas, ocupar menos espaço no viveiro e evitar o acúmulo de mudas em sacos plásticos. As sementes mantêm a viabilidade por no máximo 90 dias, ainda que haja registro de comportamento fisiológico ortodoxo.

Produção de mudas

Na semeadura em recipientes, a semente não deve ser enterrada: como outras sementes aladas, ela não tem força para emergir se for posta muito fundo. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 20 e 35 dias após a semeadura e taxa bastante irregular, de 5,5% a 92%. Em contato com a água, a semente libera uma substância gelatinosa formada por seu envoltório, que inibe o desenvolvimento de certos fungos. Sementes provenientes da Caatinga e do Cerrado apresentaram 3% de poliembrionia. A propagação vegetativa pode ser feita por estacas de raízes grossas.

Características silviculturais

Espécie heliófila, o tingui não suporta baixas temperaturas. Seu crescimento é simpodial, de forma variável e irregular, com derrama natural deficiente, o que exige podas de condução e de galhos; rebrota da touça ou cepa. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, prática não recomendada, sendo preferível o plantio misto.

Crescimento e produção

Há poucos dados sobre o desempenho da espécie em plantios, mas seu crescimento é tido como moderado.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 800 mm, na Chapada Diamantina (BA), a 1.800 mm, em Goiás, sempre com regime de chuvas periódicas. A deficiência hídrica no inverno varia de pequena a moderada no sul de Goiás e de moderada a forte no oeste de Minas Gerais, norte de Goiás e centro de Mato Grosso, ocorrendo de moderada a forte também no Maranhão, oeste da Bahia, Tocantins e sudoeste de Mato Grosso. A temperatura média anual fica entre 20,9 ºC (Sete Lagoas, MG) e 27 ºC (Floriano, PI), e já se registrou mínima absoluta de -3,7 ºC em Coxim (MS), em julho de 1975. As geadas vão de raras, no sul de Mato Grosso do Sul e em São Paulo, a ausentes no restante. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre nos tipos Aw (tropical com inverno seco), BSh (semiárido quente) e Cwa (subtropical com inverno seco e verão quente).

Solos

A espécie cresce naturalmente em solos secos e de fertilidade variável, de baixa a alta, mas sempre bem drenados. Em estudos de relação planta-solo mostrou-se exigente em fertilidade, especialmente quanto a potássio, cálcio e magnésio, sendo considerada indicadora de solos mais férteis em áreas de cerradão de Minas Gerais.