Foto: Ezequiel Racker (CC BY) via GBIF
Timbó-miúdo
Lonchocarpus nitidus
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: timbozinho, árvore-de-chuva, árvore-da-chuva, canela-branca, farinha-seca, rabo-de-bugio, rabo-de-mico, catarina, grapiapunha-do-banhado
Botânica
Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das eurosídeas, ordem Fabales (Rosales no sistema de Cronquist) e família Fabaceae (Leguminosae em Cronquist), na subfamília Faboideae (Papilionoideae). É designada cientificamente como Lonchocarpus nitidus (Vog.) Benth., descrita pela primeira vez em 1860 (Journ. Linn. Soc. 4 Suppl. 92). Entre os sinônimos botânicos estão Sphinctolobium nitidum Vog. e Lonchocarpus nitidus var. genuina Hassl. O nome do gênero, Lonchocarpus, alude ao formato do fruto, que lembra a ponta de uma lança (lonchos = lança, carpo = fruto), enquanto o epíteto nitidus faz referência ao brilho encerado da face superior dos folíolos.
Árvore semidecídua que, na fase adulta, costuma alcançar cerca de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco é cilíndrico, por vezes cônico, podendo ser reto ou tortuoso, com fuste de até 5 m. A ramificação é dicotômica, com ramos glabrescentes e estriados, providos de muitas lenticelas ovais a fusiformes esbranquiçadas que, com a idade, tornam-se rugosos e portam estípulas. A casca atinge até 10 mm de espessura: externamente (ritidoma) é quase lisa, de cor cinza-clara a grisácea e com abundantes lenticelas horizontais, enquanto a casca interna é amarelada. As folhas são compostas, reunindo de 5 a 11 folíolos, sem estipelas; o pecíolo filiforme mede de 2 cm a 3,5 cm e a ráquis, de 3 cm a 8 cm. Os folíolos são opostos, predominantemente elípticos (às vezes lanceolados, ovais ou espatulados), de margem revoluta e textura cartácea a coriácea, com a face superior brilhante e a inferior opaca; medem de 2,5 cm a 7,5 cm de comprimento por 1 cm a 2,6 cm de largura, sendo os terminais maiores (4,5 cm a 8,5 cm por 1,8 cm a 3,2 cm). A inflorescência é uma pseudo-racemo axilar, subterminal e ereto, multiflora, de 10 cm a 15 cm. As flores têm corola azul a lilás, de até 1 cm. O fruto é um legume comprimido, levemente globoso na zona das sementes, estipitado e reto, elíptico a obovado, com pericarpo amarelado, medindo de 4,5 cm a 10 cm por 1 cm a 1,5 cm e contendo de 1 a 6 sementes. As sementes são reniformes a globosas, de testa lisa e cor castanho-avermelhada, com cerca de 1 cm de comprimento por 0,5 cm de largura.
Uso e ecologia
Boa árvore melífera, com reconhecido potencial apícola. A madeira é moderadamente densa (0,70 a 0,82 g/cm³ a 15% de umidade), de cor branco-amarelada, textura média a grossa, grã direita e brilho moderado. É empregada em cabos de ferramenta, carpintaria leve (onde não se exige grande resistência), desdobro, tabuado em geral e caixotaria, além de servir como lenha e carvão. A espécie também é considerada adequada para a produção de celulose e papel. As raízes das árvores do gênero acumulam alto teor de rotenona. No paisagismo, é bastante ornamental, sobretudo na floração.
Trata-se de uma espécie secundária inicial. Na floresta secundária aparece de forma aparentemente isolada, sem constituir populações densas. Ocorre na Floresta Estacional Decidual (formação Submontana), no Rio Grande do Sul, onde chega a até dois indivíduos por hectare, e na Floresta Ombrófila Mista, com araucária (formação Montana), no Paraná, com até cinco indivíduos por hectare. Também habita ambientes fluviais ou ripários (mata ciliar) no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Fora do Brasil, integra a Selva Misionera argentina.
Espécie hermafrodita. A floração vai de dezembro a fevereiro no Paraná e no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de janeiro a agosto no Rio Grande do Sul e de março a julho no Paraná.
A polinização é feita por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão de frutos e sementes é autocórica, ocorrendo tanto por gravidade (barocórica) quanto pelo vento (anemocórica).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos na própria árvore quando passam do verde para o marrom-claro e começam a cair espontaneamente, ou recolhidos do chão após a queda. Em seguida, são expostos ao sol para secar e facilitar a abertura manual, permitindo retirar as sementes. Cada quilo reúne cerca de 5.100 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo, mas recomenda-se imergir as sementes em água fria por 2 horas para acelerar e uniformizar a germinação. As sementes têm comportamento recalcitrante e viabilidade curta, devendo ser conservadas sob frio para prolongar sua longevidade.
Recomenda-se semear uma semente por saco de polietileno ou por tubete grande de polipropileno; quando preciso, a repicagem deve ocorrer 1 a 2 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência iniciando de 15 a 60 dias após a semeadura e taxas entre 44% e 76%. As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 6 meses após a semeadura. As raízes associam-se a bactérias do gênero Rhizobium, formando nódulos fixadores de nitrogênio.
É uma espécie heliófila que tolera baixas temperaturas. Apresenta hábito tortuoso, sem dominância apical definida, com ramificação pesada e bifurcações, e desrama natural fraca, exigindo podas frequentes de condução e dos galhos. É indicada para plantio misto, a pleno sol, em conjunto com espécies secundárias e clímax. Por ser rústica, tem grande valor na recuperação de áreas degradadas, na restauração de ambientes fluviais e ripários, na recomposição de ecossistemas e em áreas de preservação permanente.
As informações sobre seu desempenho em plantios ainda são escassas, mas o crescimento da espécie é considerado lento.
A precipitação média anual varia de 1.300 mm a 2.300 mm no Rio Grande do Sul, com chuvas distribuídas de forma uniforme e sem deficiência hídrica. A temperatura média anual fica entre 14,5 ºC (São Francisco de Paula, RS) e 19,5 ºC (Porto Alegre, RS); a média do mês mais frio vai de 10,6 ºC a 14,3 ºC e a do mês mais quente, de 18,8 ºC a 24,7 ºC. A mínima absoluta registrada foi de -8 ºC, em São Francisco de Paula (RS). As geadas são frequentes no inverno, com média de 0 a 10,4 e máximo de até 40 por ano no Rio Grande do Sul. Pela classificação de Köppen, ocorre em clima Cfa (subtropical de verão quente), no nordeste do Rio Grande do Sul, e Cfb (temperado de verão ameno), no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
Não apresenta exigências quanto ao tipo de solo, sendo encontrada naturalmente em substratos variados, como Cambissolo Húmico Alumínico e Latossolos profundos de alta fertilidade e de textura argilosa ou arenosa.