Foto: Nico Yak (CC BY) via GBIF
Timbaúva
Enterolobium contortisiliquum
- 10 a 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: tamboril, orelha-de-negro, orelha-de-macaco, orelha-de-onça, orelha-de-preto, timbó, timbóuba, timbuva, timbaúba, timbaúra, ximbuva, pau-de-sabão, pau-sabão, tambor, tamboril-do-campo, pacará, timboril, araribá, flor-de-algodão, morango, árvore-das-patacas
Botânica
Pertencente à família Mimosaceae (Leguminosae Mimosoideae) e à ordem Fabales, a espécie é classificada, segundo o sistema de Cronquist, na divisão Magnoliophyta (Angiospermae) e na classe Magnoliopsida (Dicotiledonae). Seu nome científico é Enterolobium contortisiliquum (Vellozo) Morong, descrito em 1892. Já foi designada pelos sinônimos Enterolobium timboüva Martius e Mimosa contortisiliqua Vellozo. O gênero Enterolobium deriva do grego, da junção de énteron (intestino) com lobion (diminutivo de lobos, que significa bainha ou vagem), referência à vagem retorcida que lembra as voltas do intestino; o epíteto contortisiliquum traz a ideia de "síliqua retorcida". O nome popular timbaúba vem do tupi timbó-yba, ou "árvore de espuma", em alusão à espuma produzida por seu fruto. No Brasil recebe inúmeras denominações regionais, como tamboril (Bahia, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Piauí, Paraná e São Paulo), orelha-de-negro (espalhada por vários estados), orelha-de-macaco (Bahia e Rio Grande do Sul), timbaúba (Ceará) e ximbuva (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo), entre muitas outras.
Árvore caducifólia que normalmente alcança de 10 a 20 m de altura e DAP de 40 a 80 cm, podendo chegar a 20 m de altura e 95 cm de DAP no Nordeste e até 40 m de altura com 300 cm de DAP no Centro-Sul. Em ambiente de floresta o tronco tende a ser reto ou levemente tortuoso, cilíndrico e desimpedido de ramos, com fuste de até 15 m; já em árvores isoladas costuma ser curto, grosso e tortuoso. A ramificação é cimosa e, quando isolada, a árvore forma copa ampla em forma de guarda-chuva, com até 25 m de diâmetro e folhagem densa de tom verde-claro. A casca chega a 20 mm de espessura: a parte externa é lisa e cheia de grandes lenticelas (cerca de 1 cm) dispostas transversalmente nos exemplares jovens, tornando-se levemente fissurada, cinza-clara a pardo-acinzentada e com protuberâncias peridérmicas nas árvores velhas; a casca interna é fibrosa e rosada. As folhas são compostas, bipinadas e alternas, com até 30 cm de comprimento e de 3 a 7 pares de folíolos, verde-claros na face superior e verde-acinzentados na inferior, com glândulas entre os folíolos e no pecíolo. As flores são hermafroditas, brancas, de 6 a 8 mm, reunidas em capítulos globosos de 1 a 4 cm que abrigam de 10 a 20 flores, dispostos em racemos axilares mais curtos que as folhas. O fruto é um legume bacóide indeiscente, recurvado, carnoso e semilenhoso, preto quando maduro (permanecendo na árvore desfolhada durante o inverno), com formato que lembra uma orelha humana; mede de 3 a 9 cm de comprimento por 2 a 7 cm de largura, pesa de 8 a 15 g e contém de 2 a 12 sementes no Brasil (16 a 22 na Argentina). As sementes são glabras, elipsóides a ovaladas, com tegumento liso, duro e brilhante, de cor marrom a castanha, exalbuminosas, com pleurograma marcado e lóbulo radicular saliente; medem de 10 a 15 mm de comprimento por 6 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira é leve (massa específica aparente de 0,37 a 0,60 g/cm³ a 15% de umidade e massa específica básica de 0,30 g/cm³), com alburno branco-amarelado e cerne pardo-claro-rosado a róseo-pardacento, às vezes com veios mais escuros. Apresenta superfície ligeiramente áspera e bastante lustrosa, textura grosseira e uniforme, grã direita a irregular e cheiro e gosto imperceptíveis. Tem resistência natural moderada ao ataque de organismos xilófagos e é moderadamente permeável a preservantes sob pressão; ao ser serrada, o pó causa irritação. Em obras internas pode substituir o cedro (Cedrela fissilis). Entre seus muitos empregos estão brinquedos, colmeias, construção naval e civil (esquadrias, tabuado, ripado), portões corrediços, portas, venezianas, carpintaria em geral, modelos de fundição, pranchetas, embalagens e caixotaria leve, palitos de fósforo, lápis, urnas funerárias, canoas de tronco inteiro e embarcações, entalhes, esculturas, gamelas, cochos, compensados e painéis; as raízes longas e grossas servem para fazer jangadas. A lenha é de má qualidade, embora no Pantanal Mato-Grossense seja usada como carvão, e a espécie é adequada para celulose e papel. As sementes contêm a enterolobina, proteína de ação citolítica e inflamatória que também é tóxica a larvas de Callosobruchus maculatus. A casca e os frutos têm alto teor de saponina, aproveitada para sabão caseiro, e a casca contém 6,2% de tanino. Como forrageira, apresenta 24% de proteína bruta e 3% de tanino, com folhas e frutos secos de boa palatabilidade, embora a fava — sobretudo imatura e em grande quantidade — seja tóxica ao gado, podendo causar morte em horas ou dias, além de fotossensibilização hepatógena, sinais digestivos e abortos.
Há divergências quanto ao seu grupo sucessional, sendo classificada por diferentes autores como pioneira, secundária inicial ou secundária com tendência a clímax. É comum na vegetação secundária — clareiras, capoeirões e matas degradadas, onde sua regeneração é intensa, chegando às vezes a formar povoamentos quase puros — e pouco frequente na floresta primária, na qual aparecem apenas alguns exemplares adultos no dossel superior, com regeneração rara. É planta de longevidade média e grande plasticidade ecológica, presente em diversas regiões fitoecológicas: Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), na formação Baixo-Montana; Floresta Estacional Semidecidual Submontana; Floresta Estacional Decidual (formações Montana e Baixo-Montana), onde ocupa o estrato emergente; Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), onde é rara; além do domínio da Caatinga/Mata-Seca, do Chaco Sul-Mato-Grossense, da restinga arbustiva e do cerradão. Fora do Brasil, ocorre na Selva Tucumano-Boliviana e na Selva Misioneira.
A floração acontece de junho a setembro em Goiás, de agosto a setembro em Mato Grosso do Sul e Pernambuco, de setembro a outubro em São Paulo, de setembro a novembro no Distrito Federal, de outubro a novembro na Bahia e em Minas Gerais, de outubro a dezembro no Ceará, de outubro a fevereiro no Rio Grande do Sul, de outubro a março no Paraná e de novembro a fevereiro em Santa Catarina. Os frutos amadurecem de maio a julho em Minas Gerais, de maio a setembro no Rio Grande do Sul, de maio a outubro em São Paulo, em junho no Distrito Federal e de junho a setembro no Paraná e em Santa Catarina, permanecendo por bastante tempo na árvore. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 8 anos de idade, mas a espécie não produz sementes todos os anos.
A polinização é feita principalmente por abelhas e por diversos pequenos insetos. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, por gravidade, e zoocórica, provavelmente realizada por mamíferos terrestres — na natureza a semente atravessa o trato digestivo dos animais, o que ajuda a superar a dormência. Animais silvestres como a paca (Agouti paca) e a cutia (Dasyprocta azarae) procuram os frutos e atuam como principais dispersores. As sementes podem integrar o banco de sementes do solo.
Plantio e silvicultura
A colheita deve ocorrer quando o fruto passa do verde para o preto. As sementes podem ser extraídas por trilha manual ou mecânica (com debulhadora de milho adaptada ou trilhadeira de parcela, método que rende até 94,5% de sementes limpas após decantação em água e limpeza manual) e representam de 10% a 20% do peso bruto do fruto, com cerca de 178 g de sementes por quilo de frutos. Há de 3.600 a 7.500 sementes por quilo. A semente é dura, com dormência causada pela impermeabilidade do tegumento e, por vezes, somada à dormência embrionária; durante a maturação, porém, germina sem tratamento, pois o tegumento ainda é permeável e a umidade é alta (22%). Já madura, exige tratamentos pré-germinativos como desponte ou escarificação manual, escarificação mecânica com lixa fina, escarificação com ácido sulfúrico concentrado por 5 a 20 minutos (ou a 75% por 15 a 90 minutos), imersão em água a 80ºC fora do aquecimento com repouso de 12 horas ou imersão em água à temperatura ambiente por 24 a 72 horas. O comportamento de armazenamento é ortodoxo: sementes com 90% de germinação inicial, guardadas em câmara fria (3ºC a 5ºC e 92% de UR), mantiveram 50% de germinação após 9 anos. Em laboratório, a faixa térmica favorável é ampla (mínima de 10,9ºC e máxima de 41,9ºC), com ótimo entre 25,3ºC e 32,5ºC.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno, tubetes de polipropileno ou em sementeira para posterior repicagem, que, quando necessária, deve ser feita 1 a 2 semanas após a germinação; a poda das raízes é aconselhável. A germinação é epígea e começa entre 4 e 60 dias após a semeadura, com poder germinativo que pode chegar perto de 100% quando o tratamento de dormência é eficaz — sem ele, fica em até 22%. As mudas atingem porte ideal para plantio cerca de 4 meses após a semeadura, e mudas maiores transplantam-se bem. Como a espécie tem sistema radicial muito desenvolvido, exige cova grande no plantio. As raízes apresentam micorrizas arbusculares e associam-se a Rhizobium, formando nódulos grandes e coralóides; a espécie responde à inoculação com estirpes selecionadas, com destaque para Bradyrhizobium spp. A propagação vegetativa é fácil, por estacas de galhos e brotações de raízes.
Considerada semi-heliófila por alguns autores e francamente heliófila por outros, a timbaúva é favorecida por sombreamento em torno de 30% na fase inicial de crescimento, ainda que cresça também a pleno sol. É medianamente tolerante ao frio em todas as fases, e árvores adultas em florestas naturais suportam mínimas de até -5ºC. Seu hábito é irregular, sem dominância apical, com tronco curto, bifurcado quase desde a base e ramificação intensa; não faz desrama natural, exigindo podas periódicas de condução e de galhos, preferencialmente em julho e agosto, cicatrizando bem mesmo em ramos grossos. Não deve ser plantada em plantio puro a pleno sol, pois isso não corrige a forma, favorece pragas e reduz o crescimento; o ideal é o plantio misto a pleno sol com espécies de crescimento semelhante, ou em vegetação matricial, em faixas abertas na vegetação secundária, onde tolera sombreamento leve quando jovem e melhora bastante a forma. Há bons resultados em povoamentos densos de leucena (Leucaena leucocephala). Brota vigorosamente da touça e das raízes após o corte e aceita manejo por talhadia. É recomendada para arborização de culturas e pastagens (graças à copa ampla), barreiras vivas e cercas vivas com mourões vivos. A espécie consta da lista de ameaçadas de extinção, com conservação genética por populações-base ex situ em São Paulo.
Em plantio, o comportamento da timbaúva é bastante irregular, tanto em crescimento quanto em sobrevivência, mas seu crescimento é rápido, sobretudo em diâmetro. A produção volumétrica máxima registrada foi de 30 m³/ha/ano aos 11 anos de idade. O baixo desempenho observado em Chapecó (SC) deveu-se a geadas fortes ao longo de dois anos do experimento.
A precipitação pluvial média anual em sua área de ocorrência vai de 800 mm, em Minas Gerais, a 2.300 mm, em Santa Catarina. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto o norte e o noroeste do Paraná) e periódicas, concentradas no verão ou no inverno, nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul, de pequena a moderada na faixa costeira de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e parte do Rio Grande do Norte, e forte, com estação seca de até 6 meses, no sudeste de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila entre 18,7ºC (Laranjeiras do Sul, PR, e São Miguel do Oeste, SC) e 26,6ºC (Fortaleza, CE); a média do mês mais frio fica entre 14ºC e 25,7ºC, e a do mês mais quente entre 22ºC (Assis, SP) e 27,3ºC (Fortaleza, CE, e Natal, RN), com mínima absoluta de -5,4ºC em Laranjeiras do Sul. As geadas variam de 0 a 10 por ano em média (máximo de 23 no Sul), sendo predominantemente ausentes ou pouco frequentes. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Af, Am, As e Aw), o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o semiárido (Bsh).
A espécie ocorre naturalmente em vários tipos de solo, tanto de baixa quanto de alta fertilidade química, evitando os rasos e os encharcados. Em plantio, desenvolve-se melhor em solos férteis, de textura franco-argilosa a argilosa e com boa disponibilidade de água durante o crescimento. Em solo raso ocorre morte gradativa do ponteiro e, em seguida, da árvore.