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Foto de Tatajuba

Foto: Guillaume Delaitre (CC BY) via GBIF

Tatajuba

Bagassa guianensis

Moraceae Amazônia
  • até 50 mAltura
  • Muito grandePorte
FrutíferasMadeireiras

Também conhecida como: amapá-rana, bagaceira, garrote, amarelão, cachaceiro

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a tatajuba pertence à divisão Angiospermae, clado Eurosídeas I e ordem Rosales (em Cronquist, a espécie figurava em Urticales). Está na família Moraceae, tribo Artocarpeae, gênero Bagassa, sendo a espécie Bagassa guianensis Aubl., descrita pela primeira vez em 1775. Tem como sinonímia botânica Laurea tiliifolia Gaudich. (1826). O nome do gênero, Bagassa, deriva do nome popular empregado na Guiana, enquanto o epíteto guianensis remete ao fato de o material-tipo ter sido coletado na Guiana Francesa. No exterior, é chamada de bagasse e bois bagasse na Guiana Francesa e gale bagasse no Suriname, sendo bagasse também seu nome comercial internacional.

Descrição botânica

Árvore semidecídua que pode alcançar cerca de 50 m de altura e 200 cm de DAP na fase adulta; entre 121 exemplares medidos na Floresta Nacional do Tapajós (PA), o maior diâmetro registrado foi de 193 cm. O tronco costuma ser cilíndrico, reto ou um pouco tortuoso, com base que pode ser digitada — apresentando sapopemas superficiais e longas de até 80 cm — ou simplesmente reta; o fuste chega a 15 m. A ramificação é dicotômica e a copa varia de estreita e leve a ampla ou em forma de guarda-chuva. A casca tem até 10 mm de espessura: nos exemplares jovens, o ritidoma exibe lenticelas grandes, salientes e marrons, mais escuras que o restante; nas árvores velhas, fica espessa, fibrosa, porém mole, e furada por insetos, às vezes soltando-se em pequenas placas com aspecto de cortiça. Uma característica marcante é que, ao ser cortada, a casca libera abundante látex branco, potável e leitoso, que coagula rapidamente e atrai certos besouros. A entrecasca é fibrosa e resistente. As folhas são opostas — sendo esta a única Moraceae das Américas com essa disposição —, simples, lobadas, em formato de concha, medindo de 10 a 25 cm de comprimento por 7 a 13 cm de largura; nos indivíduos velhos predominam folhas inteiras, enquanto nos jovens são sempre trilobadas, com pecíolo de até 6 cm. Possuem estípulas cônicas cobrindo os botões apicais, como em outras Moraceae. As inflorescências femininas formam capítulos globosos com milhares de flores; as masculinas têm forma de espigas de cerca de 10 cm. As flores são minúsculas e adensadas, cada uma com um estigma que dura aproximadamente uma semana antes de escurecer. O fruto é grande, oval-oblongo e arredondado, levemente carnoso e comestível, ainda que adstringente, medindo cerca de 43,1 mm por 44,7 mm; é composto, de cor quase alaranjada, com aroma de ameixa-roxa e sabor agradável e levemente adocicado. As sementes são numerosas, com 4 mm de comprimento por 2,2 mm de largura.

Uso e ecologia
madeireiroalimentícioenergético
Produtos e utilizações

A madeira da tatajuba é amplamente explorada pelas serrarias amazônicas e tem boa aceitação tanto no mercado nacional quanto no exterior. Na construção civil, é empregada em estruturas internas (vigas, caibros, ripas, batentes de portas e janelas, esquadrias, forros, lambris e rodapés) e externas (postes, mourões, estacas, dormentes e cruzetas), além de servir à marcenaria na fabricação de móveis comuns, tacos e tábuas de assoalho; é considerada excelente para canoas escavadas em troncos inteiros. Trata-se de uma madeira moderadamente densa (0,70 a 0,85 g/cm³ entre 12% e 15% de umidade), com densidade básica de 0,62 a 0,68 g/cm³; em árvores plantadas de 16 anos, a densidade caiu para 0,54 a 0,59 g/cm³ conforme o espaçamento. O cerne é amarelo logo após o corte, muitas vezes com faixas escuras, tornando-se amarelo-oliva após a secagem e marrom-dourado ou pardo-queimado quando exposto à luz; o alburno é estreito e bem distinto, variando de amarelo-pálido a branco-amarelado. A madeira tem textura média, desenho em estrias nas faces radiais, brilho intenso nas faces longitudinais e grã regular a entrecruzada, sem cheiro ou sabor quando seca ao ar. O cerne é muito durável, resistindo bem ao ataque de fungos de podridão branca e parda, mas é difícil de impregnar com preservativos mesmo sob pressão. Seca lentamente ao ar sem grandes defeitos, embora a secagem artificial possa provocar empenamentos torcidos e encanoados, exigindo controle cuidadoso. Apesar de dura, é fácil de trabalhar com ferramentas manuais ou mecânicas, resultando em superfície uniforme, ainda que não aceite pregos com facilidade; lembra o white oak (Quercus alba) e o hickory (Carya ovata) norte-americanos. A madeira também serve para produção de pasta celulósica e fornece lenha de boa qualidade. O fruto é comestível, adstringente, mas de sabor agradável, e a casca produz material fibroso aproveitado como tecido.

Aspectos ecológicos

Espécie pioneira que costuma ocupar o dossel superior ou a posição de emergente em florestas secundárias em estágio avançado. No norte de Mato Grosso, é frequente em florestas perturbadas. Está associada ao bioma Amazônia, ocorrendo em Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Pluvial Amazônica) e em florestas de terra firme, na formação das Terras Baixas, no Mato Grosso e no Pará, onde aparece com frequência de cerca de um indivíduo por hectare.

Floração e frutificação

No Pará, a floração ocorre de julho a outubro, e os frutos amadurecem entre novembro e fevereiro.

Fauna associada

A espécie é dioica, com indivíduos que produzem apenas flores masculinas e outros apenas femininas. Estudos recentes no Pará indicam que a polinização provavelmente é feita por pequenos insetos (tisanópteros), e não apenas pelo vento, como antes se supunha. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, realizada sobretudo por diversas espécies de mamíferos. O látex da casca é bastante atrativo para certos besouros.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser recolhidos no chão, sob a árvore, logo após a maturação e a queda natural. Em seguida, são reunidos em sacos plásticos até a polpa apodrecer, o que facilita a retirada das sementes, lavadas em água corrente sobre peneira fina. Depois de secar à sombra por 24 horas, ficam prontas para a semeadura. Cada quilo reúne cerca de 400 mil sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo, mas perdem a viabilidade rapidamente. Em laboratório, a temperatura de 20 ºC proporcionou os melhores índices de germinação (51%), e os substratos mais indicados foram rolo de papel e vermiculita.

Produção de mudas

Recomenda-se semear em sementeiras e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 25 cm de altura por 17 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. A repicagem deve ser feita de 45 a 60 dias após a germinação, sem podar as raízes, pois a poda retarda o crescimento em altura. A germinação é criptocotiledonar, com emergência em poucas semanas e taxa inferior a 50%; aos 4 meses, as mudas alcançam cerca de 20 cm. Quanto ao substrato, Yared e colaboradores apontam como ideal a mistura de Latossolo Amarelo de textura muito argilosa com matéria orgânica na proporção 4:1, mais adubo NPK (15-30-15) a 3 g (peso seco) por litro; já Marques e Brienza Júnior sugerem encher os recipientes com terra argilosa e areia na proporção 1:1.

Características silviculturais

Espécie heliófila, que não suporta temperaturas baixas. As árvores têm fuste reto ou levemente inclinado, com boa dominância apical, porém desrama natural deficiente e ramos um tanto grossos. A tatajuba se comporta melhor quando plantada a pleno sol do que sob vegetação matricial (floresta primária ou capoeira); em plantios de 3 anos, a uniformidade de crescimento variou de satisfatória a irregular e o fechamento do maciço foi parcial. Como a madeira atende a usos variados, da construção civil e naval a móveis finos, recomenda-se ajustar o espaçamento ao objetivo: para madeira de construção, espaçamentos maiores como 4 m x 4 m; para lâminas ou móveis finos, espaçamentos menores como 2 m x 3 m ou 3 m x 3 m. Em sistemas agroflorestais, em Paragominas (sul do PA), foi plantada em consórcio com milho (Zea mays) e capim-marandu (Brachiaria brizantha), com o consórcio favorecendo o crescimento em altura e em DAP.

Crescimento e produção

É uma espécie florestal promissora para plantios na Amazônia e no norte de Mato Grosso. Os incrementos médios anuais em altura e em diâmetro superam 2,0 m e 2,0 cm, respectivamente, mas o crescimento é bastante variável, de lento a rápido. A produção volumétrica pode chegar a 8 m³/ha/ano aos 15 anos, no Pará; 15,80 m³/ha/ano aos 11 anos, em Mato Grosso; e 23,10 m³/ha/ano aos 9 anos, em Roraima. Entre 1976 e 1996, em projetos de reposição florestal registrados no Ibama no Pará, a tatajuba foi utilizada por 4% das empresas.

Clima

A precipitação média anual varia de 1.700 mm, no Acre, a 2.900 mm, no Pará, com chuvas periódicas e deficiência hídrica de pequena a moderada no Amazonas, Amapá, norte de Mato Grosso, Pará e oeste de Roraima. A temperatura média anual fica entre 24,8 ºC (Belterra, PA) e 27,1 ºC (Parintins, AM); a média do mês mais frio varia de 24,2 ºC a 26,3 ºC e a do mês mais quente de 26,7 ºC (Belém, PA) a 28,4 ºC (Parintins, AM). A mínima absoluta registrada foi de 13,6 ºC, em Belterra, PA, em junho de 1977. Não ocorrem geadas. Pela classificação de Köppen, predominam os climas Af (tropical úmido a superúmido), nos arredores de Belém; Am (tropical úmido a subúmido), no Amapá, nordeste do Pará e Roraima; e Aw (tropical com inverno seco), no Maranhão e no Pará.

Solos

Ocorre naturalmente em terrenos de fertilidade baixa a média, com solos de textura que vai de arenosa a argilosa. Quando plantada nesses mesmos solos, no entanto, as folhas tendem a apresentar clorose acentuada.