Foto: Marcio Santos Ferreira (CC BY) via GBIF
Tarumã
Vitex polygama Cham.
- até 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: tarumã-açu, maria-preta, azeitona-do-mato, cinco-folhas, velame-do-campo, tarumão, mama-cachorro, grataúba, tarumã-do-cerrado
Botânica
Seguindo a classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, ao clado Euasterídeas I, à ordem Lamiales e à família Lamiaceae — em sistemas mais antigos, como o de Cronquist, era enquadrada na ordem Tubiflorae e na família Verbenaceae. Faz parte do gênero Vitex, sendo o binômio Vitex polygama Cham., descrito originalmente em Linnaea 7: 371, no ano de 1832. O nome do gênero deriva do latim viere, que remete às ideias de juntar e tecer, em referência ao uso dos ramos de algumas espécies na confecção de cestos. Já o epíteto polygama alude ao fato de a planta produzir tanto flores hermafroditas quanto unissexuais.
Árvore perenifólia (sempre-verde), cujos exemplares de maior porte alcançam por volta de 10 m de altura e 30 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco varia de reto a um pouco tortuoso e, em geral, possui fuste curto. A ramificação é dicotômica, com ramos cobertos por um indumento denso de tom dourado-pardacento. A casca atinge até 10 mm de espessura, com a porção externa (ritidoma) descamante. As folhas são opostas, compostas e digitadas; os folíolos têm forma oboval-elíptica, com 8 a 17 cm de comprimento por 4,5 a 7,5 cm de largura, e ambas as faces (adaxial e abaxial) são velutinas, sustentados por pecíolo de 0,5 a 1,1 cm. A inflorescência é uma cimeira axilar, com pedúnculo de 3 a 6 cm. As flores são violáceas e perfumadas. O fruto é uma drupa preta, de formato elíptico e superfície pubescente, medindo cerca de 1,6 cm de comprimento por 1,0 cm de largura. A semente, de coloração castanha e formato alongado, possui endosperma ovoide e mede entre 0,7 e 1 cm.
Uso e ecologia
Trata-se de uma planta de grande potencial melífero, fornecedora de néctar e de pólen. Sua madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,70 a 0,77 g/cm³), com alburno e cerne pouco distintos e de coloração acastanhada, grã direita e textura fina; é resistente, fácil de rachar e moderadamente durável quando protegida da umidade e do contato com o solo. Por essa resistência, é aproveitada em obras internas e externas — como cepos, dormentes, esteios, fundações, mourões e postes —, em obras hidráulicas, além de carrocerias, móveis, bengalas e tonéis de cachaça. Rende lenha de boa qualidade, mas não serve para celulose e papel. Na medicina popular do interior do Ceará e de Minas Gerais, o decocto e o chá da entrecasca são empregados, por suas propriedades diuréticas e anti-inflamatórias, contra reumatismo, retenção urinária e inflamação renal (registro etnobotânico, sem valor de prescrição médica). Os frutos ainda servem de isca na pesca de lambaris (Astyanax spp.) e tabaranas (Salminus hilarii).
Em termos de sucessão, comporta-se como espécie secundária inicial ou clímax exigente em luz. No Sul do Brasil, restringe-se às florestas das planícies quaternárias, onde é bastante rara. Ocorre na Mata Atlântica em Floresta Estacional Semidecidual — nas formações de Terras Baixas (Pernambuco), Submontana (Goiás, Minas Gerais e São Paulo, com até 12 indivíduos por hectare) e Montana (Minas Gerais e São Paulo, com até 29 indivíduos por hectare) —, em Floresta Ombrófila Densa (Terras Baixas, Submontana, Montana e Alto-Montana, em Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, com até oito indivíduos por hectare) e em Floresta Ombrófila Mista, na formação Montana do sul de Minas Gerais. No Cerrado, aparece em savana (cerrado stricto sensu) no Paraná. No Pantanal, associa-se a babaçual, cerradão e mata inundável de Mato Grosso. É encontrada também em mata ciliar (Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Sergipe), em Floresta Estacional Decidual no nordeste de Goiás, em mosaico de floresta supermontana no Planalto de Poços de Caldas, em vegetação sobre afloramento rochoso no sudoeste paulista, em restinga (Rio de Janeiro e São Paulo) e em vegetação savânica no Ceará.
A floração ocorre em setembro, no Piauí, e de outubro a dezembro, em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de janeiro a abril, em Minas Gerais, e ao longo de todo o ano (de janeiro a dezembro) no Rio de Janeiro.
A espécie é polígama e tem na melitofilia — a polinização realizada por abelhas — seu principal mecanismo reprodutivo. A dispersão dos frutos e sementes é predominantemente zoocórica, ou seja, feita por animais.
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos diretamente da árvore quando maduros, momento em que assumem tonalidade roxo-escura, quase preta; podem ser derrubados sacudindo-se a planta ou cortando-se galhos, ou ainda recolhidos do chão após a queda natural. A polpa é retirada por maceração seguida de lavagem em água corrente. Cada quilograma reúne cerca de 2.200 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante, o que dificulta o armazenamento prolongado.
A semeadura pode ser feita em canteiros — para mudas de raiz nua ou para repicagem — ou diretamente em recipientes individuais, como sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando se opta pela repicagem, ela deve ocorrer de 2 a 4 semanas após a germinação. A germinação é do tipo epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência começa entre 27 e 43 dias após a semeadura. O poder germinativo é bastante variável, ficando entre 10% e 67%.
Espécie heliófila e medianamente tolerante a baixas temperaturas. Não realiza derrama natural, exigindo poda. Por suas características autoecológicas, é indicada para plantios mistos ou sob cobertura com abertura de faixas, e também para plantio em linhas ou em grupos; brota vigorosamente da touça ou cepa. Em Minas Gerais, é recomendada para sombreamento de pastagens, pois apresenta copa regular e sombra densa, com diâmetro de 6 a 8 m. A variedade Vitex polygama var. kakeri Moldenke consta na lista vermelha de plantas ameaçadas de extinção do Paraná, na categoria rara.
Há poucos registros sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas o crescimento conhecido é lento.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 800 mm, no Piauí, a 3.200 mm, no litoral paulista, com chuvas uniformes no Paraná e periódicas no restante. A deficiência hídrica varia de nula, no Paraná, a moderada nas demais regiões. A temperatura média anual oscila entre 17,6 °C (Jaguariaíva, PR) e 29,4 °C (Picos, PI); a média do mês mais frio fica entre 13,2 °C (Aiuruoca, MG, e Jaguariaíva, PR) e 26 °C (Picos, PI), e a do mês mais quente entre 21,3 °C (Jaguariaíva, PR, e Passa Quatro, MG) e 30,9 °C (Picos, PI). A temperatura mínima absoluta registrada foi de -3 °C, em Jaguariaíva (PR). As geadas vão de frequentes, na região de Jaguariaíva, a ausentes no restante da área. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af (litoral do Paraná e de São Paulo), As (Pernambuco e Sergipe), Aw (Ceará, nordeste de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo), Cfa (Maciço do Itatiaia no sul mineiro, Serra do Japi em SP e Paraná), Cfb (sudoeste paulista), Cwa (Minas Gerais e São Paulo) e Cwb (sul e sudeste de Minas Gerais e Planalto de Franca, em SP).
Cresce em vários tipos de solo, mas tem preferência por terrenos profundos e frescos, ocupando planícies, várzeas e encostas suaves de áreas florestais. Sua ocorrência natural está sempre ligada a solos úmidos, tolerando inundações prolongadas e sendo rara em terrenos bem drenados. O pH desses solos situa-se entre 3,9 e 5,6.