Foto: André Ribeiro Cardoso (CC BY) via GBIF
Tarumã-branco
Citharexylum myrianthum
- 6 a 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: baga-de-tucano, jacareúba, jacataúva, pau-de-gaiola, pau-de-pomba, pau-de-tamanco, pau-de-tucano, pau-de-viola, pau-viola, pimenteira, pombeira, pombeiro, tarumã, torumã, tucaneiro, tucaneira
Botânica
Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Tubiflorae e família Verbenaceae. O binômio Citharexylum myrianthum foi descrito por Chamisso (Linnaea, 7: 117, 1832). O nome do gênero deriva do grego xylon, em alusão à "madeira de cítara", instrumento musical; já o epíteto myrianthum significa plurifloro, ou seja, com miríades de flores.
Árvore caducifólia que costuma medir de 6 a 15 m de altura e apresentar DAP de 20 a 40 cm, podendo chegar a 25 m e 70 cm de DAP quando adulta. O tronco é reto ou ligeiramente curvo, em geral curto, com fuste de até 5 m. A ramificação é cimosa, ascendente e pouco densa, formando copa ampla, porém pouco enfolhada. A casca alcança até 10 mm de espessura, sendo a parte externa marrom-escura, um tanto áspera e descamante, e a interna branco-amarelada. As folhas são opostas, simples, inteiras, sub-coriáceas e bastante variáveis na forma, atingindo até 20 cm de comprimento e 7 cm de largura, com faces de cores distintas; o pecíolo é canaliculado e exibe uma ou duas glândulas no ápice. As flores são brancas, por vezes levemente rosadas, pequenas, tubulosas e de odor adocicado, agrupadas em inflorescências multifloras dispostas em cachos axilares e terminais de 6,5 a 20 cm. São flores monóclinas, mas funcionalmente díclinas: as femininas medem cerca de 18 mm e as masculinas, 16 mm. O fruto é uma drupa oblonga, coberta em 40% pelo cálice persistente, com cerca de 1,5 cm de comprimento por 0,9 cm de largura, de cor que varia do alaranjado ao vermelho, polpa carnosa e mole e dois caroços, cada um com duas sementes. A semente é oblonga, branca, pequena e achatada, com amêndoa bipartida.
Uso e ecologia
A madeira é leve a moderadamente densa (0,50 a 0,70 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno e cerne não diferenciados, de tom bege-claro a róseo-claro, e eventualmente um falso cerne amarelo-vivo com manchas irregulares. Sua superfície é levemente áspera, com brilho irregular, textura média e grã irregular, sem cheiro ou gosto marcantes. De pouca aplicação industrial, presta-se a usos locais como caixotaria, tábuas em geral, embalagens leves, forros, contraplacados e compensados; por ter boa ressonância, é apropriada para instrumentos de corda, sobretudo guitarras. Como lenha, tem qualidade apenas regular, e não serve para celulose e papel. A forragem contém de 11% a 12,5% de proteína bruta e de 4,5% a 7,8% de tanino. As flores são melíferas, fornecendo pólen e néctar, e as folhas apresentam propriedades antivirais e antifúngicas.
Trata-se de espécie pioneira a secundária inicial, comum na vegetação secundária, em especial nos capoeirões de várzeas úmidas e planícies que, durante as chuvas de verão, se tornam charcos temporários, onde pode ser abundante; chega a invadir tabocais. É característica da Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações Aluvial e Baixo-Montana. No Rio Grande do Sul, distribui-se ao longo do litoral até Pelotas, sendo uma das espécies da Floresta Atlântica que mais avançam para o sul. Também aparece em matas ciliares da Floresta Estacional Semidecidual e na Floresta Estacional Decidual Baixo-Montana. No litoral catarinense, registrou-se densidade de 7 a 15 árvores por hectare.
A floração ocorre de outubro a dezembro no Paraná e em São Paulo, e de novembro a dezembro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Os frutos amadurecem de janeiro a março em Minas Gerais, no Paraná e em São Paulo; de janeiro a abril no Rio Grande do Sul; e de fevereiro a março em Santa Catarina. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 2 anos de idade.
A polinização é feita principalmente por mariposas da família Sphingidae (Aelopus titan e Agrius singulata), além de diversos insetos pequenos, borboletas e várias espécies de beija-flores. A dispersão é zoocórica: os frutos são levados por aves, com destaque para o tucano (Ramphastos toco), e por mamíferos, sobretudo o macaco-bugio (Alouatta fusca).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que as aves começam a procurá-los. Para extrair as sementes, os frutos são macerados e lavados, retirando-se a polpa que envolve os caroços; em seguida, vão para peneiras e secam em local ventilado. Cada fruto, do tipo pirênio, separa-se em duas metades após o beneficiamento, e cada parte contém 1 ou 2 sementes, raramente 3. A unidade prática de manuseio passa a ser a metade do pirênio (semipirênio), e não a semente em si, que fica firmemente aderida a ele. A relação semente/fruto varia de 15% a 25%. Há de 16.920 a 19.000 sementes por quilo. Não é preciso tratar a dormência, pois a semente não a apresenta. Em temperatura ambiente as sementes perdem a viabilidade após 6 meses; por terem comportamento ortodoxo, recomenda-se armazená-las em câmara seca (13ºC a 17ºC e 40% de UR) e saco de papel, o que mantém 50% da viabilidade inicial aos 360 dias. Em laboratório, observou-se que a temperatura constante de 25ºC e a alternada de 20ºC a 30ºC resultaram em taxas de germinação estatisticamente equivalentes e superiores à temperatura constante de 35ºC, que gerou maior proporção de pirênios com duas plântulas; recomendam-se os substratos vermiculita, papel mata-borrão e areia, a 25ºC.
Recomenda-se semear preferencialmente em sementeiras, com posterior repicagem, ou colocar duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes grandes de polipropileno. A repicagem deve ocorrer de 2 a 3 semanas após a germinação, e as mudas formam raízes superficiais. A germinação é epígea e tem início entre 15 e 75 dias após a semeadura, com alto poder germinativo (cerca de 80% em média). As mudas alcançam porte adequado para plantio por volta de 6 meses após a semeadura. A espécie também se propaga com facilidade por brotação de raízes.
É uma espécie heliófila e intolerante a baixas temperaturas, embora mudas altas plantadas na arborização urbana de Curitiba (PR) tenham demonstrado aclimatação ao frio. O hábito é irregular, com emissão de brotos desde a base e formação de multitroncos, exigindo desrama artificial periódica, sobretudo poda de condução. Indica-se o plantio a pleno sol, podendo a espécie integrar plantios mistos como tutora de espécies secundárias-clímax. Rebrota da touça após o corte.
O crescimento é moderado. A maior produtividade volumétrica já registrada em plantios foi de cerca de 6,55 m³/ha/ano.
A precipitação média anual vai de 1.100 mm em São Paulo a 2.100 mm na Bahia. As chuvas são uniformemente distribuídas no Sul e no sul da Bahia, e periódicas, concentradas no verão, nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula, sem estação seca definida, no Sul do Brasil, e moderada, com estação seca de até 3 meses, no norte do Espírito Santo. A temperatura média anual fica entre 17,5ºC (Pelotas, RS) e 24,3ºC (Ilhéus, BA); a média do mês mais frio varia de 11,9ºC (Pelotas) a 22,1ºC (Ilhéus), e a do mês mais quente, de 23ºC (Pelotas) a 26,2ºC (Linhares, ES). A mínima absoluta registrada é de -5ºC (Pelotas). Ocorrem em média de 0 a 2 geadas por ano, com máximo de 5 na Região Sul, predominando ausência de geadas ou geadas pouco frequentes. Pela classificação de Köppen, os tipos climáticos são tropical (Af e Aw), subtropical de altitude (Cwa) e subtropical úmido (Cfa).
Na natureza, ocorre sobretudo em várzeas, em solos periodicamente inundados, hidromórficos e Gleissolos (Glei pouco húmico), de drenagem regular e textura arenosa a franco-argilosa. Também aparece, embora com menor frequência, em solos bem drenados. Tem exigências edáficas restritas e não tolera solos de Cerrado, ácidos e com alumínio, nos quais apresentou 100% de mortalidade em plantios experimentais.