Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Tapiá
Alchornea triplinervia
- até 35 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: tapiá-guaçu, tapiá-mirim, tapiá-açu, tapiazeiro, tanheiro, caixeta, tamanqueira, canela-samambaia, folha-de-bolo, pau-de-tamanco, sete-cascas, alcórnea, boleira, lava-pratos, sangue-de-drago, pau-viola
Botânica
Pertencente à família Euphorbiaceae e à ordem Euphorbiales, o tapiá tem como nome científico aceito Alchornea triplinervia (Sprengel) Mueller Argoviensis. A espécie acumula diversos sinônimos botânicos, entre eles Antidesma triplinervium Sprengel, Alchornea janeirensis Casar., Alchornea nemoralis Martius e Alchornea triplinervia var. janeirensis (Casar.) Muell. Arg. O nome do gênero homenageia o boticário inglês Stanesby Alchorne, enquanto o epíteto específico faz referência às três nervuras que partem da base da folha.
Trata-se de uma árvore semicaducifólia que costuma medir de 2 a 20 m de altura, com diâmetro de tronco (DAP) entre 30 e 60 cm; em indivíduos adultos, os maiores exemplares podem chegar perto de 35 m de altura e 110 cm de DAP. O tronco em geral é tortuoso e o fuste tende a ser curto, embora possa alcançar até 15 m no interior da floresta. A ramificação é dicotômica e cimosa, grossa e retorcida, formando uma copa alta, ampla, densa e de contorno irregular; na base do tronco há vestígios de raízes tabulares. A casca chega a 19 mm de espessura: por fora é áspera, de cor cinzenta a cinza-rosada, com pequenas fissuras pouco profundas que às vezes aparecem só de um lado do tronco; por dentro é fibrosa e de tom marrom-rosado. As folhas são simples, alternas e bastante variáveis na forma, em geral elípticas ou arredondadas, de consistência coriácea ou cartácea e coloração discolor, com estípulas verde-claras. A lâmina mede de 2,5 a 15 cm de comprimento por 3 a 8 cm de largura, tem margem denteada e nervação palminérvea, com três nervuras principais saindo da base obtusa e de 2 a 4 glândulas avermelhadas na face inferior; o pecíolo varia de 2 a 4,5 cm. No sub-bosque de florestas naturais as folhas podem ficar maiores, atingindo até 20 cm de comprimento, 10 cm de largura e pecíolo de até 9 cm. Análises anatômicas registraram laticíferos na nervura principal e no pecíolo, além de estruturas secretoras no bordo foliar. As flores são de cor creme e surgem em inflorescências axilares do tipo racemo laxifloro, simples ou raramente compostas, em geral de 10 a 20 cm; as masculinas são curtamente pedunculadas e as femininas, verdes ou verde-amareladas, têm de 3 a 6 sépalas densamente pilosas. Os frutos se abrem em cocos bivalvados arredondados de 5 a 11 mm de diâmetro, normalmente com 2 sementes, ocasionalmente 3. A semente é castanho-clara, de 4 a 5 mm, com endosperma carnoso e arilo de cor vermelho-coral; após a abertura do fruto, as sementes ariladas permanecem expostas por algum tempo, presas à columela.
Uso e ecologia
A madeira do tapiá é leve, com massa específica aparente de 0,40 a 0,51 g/cm³ a 12% de umidade (0,44 a 0,58 g/cm³ a 15%) e massa específica básica de 0,37 g/cm³. Alburno e cerne não se distinguem e têm tom bege-claro ou bege-rosado uniforme. A superfície é lisa e sem brilho, de textura média a grossa, grã que vai de direita a irregular, e cheiro e gosto imperceptíveis. É madeira de baixa durabilidade natural, muito suscetível ao apodrecimento e ao ataque de insetos e cupins, porém de fácil secagem e alta permeabilidade a soluções preservantes sob pressão. Trabalha bem em máquinas para aplainar e lixar, mas é ruim de serrar, produzindo fibras soltas ("cabelo") que prejudicam o acabamento. Sem grande valor comercial, presta-se a peças que não exigem muita resistência ou durabilidade, como caixotaria leve, miolo de portas, lâminas para compensados, brinquedos, cabos de vassoura, palitos, tamancos e sapatos (ceparia), urnas funerárias, móveis populares, embalagens, forros, persianas e marcenaria, além de obras leves de construção civil. Por ser leve e ter módulos de elasticidade e compressão baixos, é indicada para muletas, mas não para usos externos. Como lenha, tem qualidade baixa. É adequada para a fabricação de papel, com fibras de 1,22 mm de comprimento e teor de lignina com cinzas de 32,4%. Na casca foram identificados alcaloides, saponinas e taninos, todos em pequenas quantidades.
Classificada como espécie secundária inicial, ocorre em associações subclímax e prefere florestas mais abertas, sendo comum em clareiras e bordas. Regenera-se bem sob as árvores adultas, sobretudo após roçada, e há registros de regeneração ativa mesmo em áreas degradadas tomadas por gramíneas invasoras, como na Serra dos Órgãos. Nas florestas primárias do litoral de Santa Catarina costumam-se encontrar apenas exemplares adultos ou velhos, indício de que se trata de espécie de estágio sucessional anterior, gradualmente substituída por outras mais tolerantes à sombra. A espécie tem grande plasticidade ecológica e aparece em ambientes muito variados: Floresta Ombrófila Densa (Atlântica), nas formações de Terras Baixas, Submontana e Montana, onde é comum, e na Floresta de Tabuleiro do norte do Espírito Santo; Floresta Ombrófila Densa (Amazônica), onde é menos frequente; Floresta Ombrófila Mista (com araucária), na formação Montana; Floresta Estacional Semidecidual, nas formações Aluvial, Submontana e Montana; Floresta Estacional Decidual Baixo-Montana; Cerradão, onde é rara; campos de altitude na Bahia e em Minas Gerais; e matas alagadas de Tabebuia em restingas. Quanto ao clima de ocorrência, a precipitação anual varia de 750 mm, no centro da Bahia, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). Em um fragmento de Floresta Atlântica na cidade de São Paulo foram registradas cerca de oito árvores por hectare.
A floração se distribui ao longo do ano conforme a região: de outubro a janeiro no Paraná, de outubro a março em São Paulo, de novembro a fevereiro no Rio de Janeiro, de dezembro a março em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, de maio a junho na Bahia e em julho em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de setembro a fevereiro no Paraná, de dezembro a maio no Rio de Janeiro, de janeiro a março no Paraná e em Santa Catarina e de abril a agosto em São Paulo. Em plantios, a espécie começa a se reproduzir por volta dos 5 anos de idade.
Planta dióica (raramente monóica), é polinizada principalmente por abelhas e diversos insetos pequenos. A dispersão das sementes é predominantemente ornitocórica (feita por aves), e a espécie participa do banco de plântulas do solo. As folhas servem de alimento ao bugio ou guariba-ruivo (Alouatta fusca) e os frutos são procurados por aves e pelo mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides). As flores são melíferas, o que torna a árvore de interesse apícola. É recomendada para a restauração de matas ciliares, em terrenos com ou sem inundação.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos no início da deiscência, quando as sementes ariladas ficam expostas e ainda presas à columela; depois retira-se o arilo e as sementes são postas para secar. Um quilo reúne cerca de 18.500 sementes com arilo ou 45.000 sem arilo. As sementes têm dormência e germinam melhor com alternância de temperatura, entre 20 ºC e 30 ºC; para acelerar e uniformizar a germinação, recomenda-se imergi-las em água aquecida a 80 ºC, fora da fonte de calor, deixando esfriar até a temperatura ambiente. A viabilidade é perdida rapidamente quando armazenadas em ambiente não controlado.
Recomenda-se semear em sementeiras e repicar as plântulas, de 2 a 4 semanas após a germinação, para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou para tubetes grandes de polipropileno. Plântulas de regeneração natural com até 15 cm de altura e 15 cm de raiz pegam bem quando transplantadas para recipientes. A germinação é epígea e começa entre 17 e 107 dias após a semeadura, com poder germinativo geralmente baixo, abaixo de 50%, em razão de muitas sementes abortadas; as mudas atingem o tamanho ideal para plantio cerca de 4 meses após a semeadura. No viveiro da Embrapa Florestas, o método usual é coletar ou transplantar plântulas que brotam perto das árvores adultas após limpeza ou passagem do fogo, que aciona o banco de sementes do solo: com 2 a 5 cm de altura, elas são retiradas com espátula, mantidas em balde com água e levadas de imediato ao viveiro para o transplante.
O tapiá é uma espécie heliófila que não tolera baixas temperaturas nos dois primeiros anos após a implantação. Tem hábito problemático em termos de forma: caule que tomba, tronco curto e tortuoso, bifurcações e ramificação pesada; como não faz desrama natural, exige podas frequentes e periódicas. Pode ser plantado a pleno sol em plantio puro, com crescimento satisfatório mas forma inadequada; em plantio misto a pleno sol associado a espécies de maior crescimento em altura; ou em linhas abertas no centro de faixas de vegetação secundária. Rebrota da touça após o corte. É recomendado para arborização de culturas e pastagens em sistemas agroflorestais, com rotação prevista de 10 a 15 anos para desdobro.
O crescimento é variável, indo de lento a rápido. O maior incremento médio registrado foi de 16,20 m³/ha/ano aos 7 anos, em Cianorte (PR), valor que caiu para 12,00 m³/ha/ano aos 12 anos de idade.
A espécie ocorre sob ampla faixa climática. A temperatura média anual nos locais de ocorrência vai de 13,4 ºC, em Campos do Jordão (SP), a 26,2 ºC, em Tefé (AM), chegando a 29 ºC na Colômbia; a média do mês mais frio varia de 8,2 ºC a 25,8 ºC e a do mês mais quente de 19,9 ºC, em Curitiba (PR), a 27,2 ºC, em Corumbá (MS). A temperatura mínima absoluta registrada foi de -8,4 ºC, em Castro (PR), e o número de geadas por ano vai, em média, de 0 a 13, com máximo absoluto de 35 na Região Sul. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto no norte do Paraná), no leste de São Paulo, no litoral do Rio de Janeiro, no sul da Bahia e no noroeste do Amazonas; nas demais áreas concentram-se no verão. A deficiência hídrica é nula na Região Sul, no litoral fluminense e no sul da Bahia, e moderada, com estação seca de até cinco meses, no oeste de Rondônia, em Mato Grosso do Sul e no centro da Bahia. Os tipos climáticos de Köppen abrangem tropical (Af, Am e Aw), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e temperado úmido (Cfb).
Em condições naturais, o tapiá se adapta a vários tipos de solo. Já em plantios, dá preferência a solos com boas propriedades físicas: profundos, úmidos, bem drenados e de textura que vai de franco-argilosa a argilosa.