Foto: Carlos Eduardo Santos Feitosa (CC BY) via GBIF
Tamboril
Enterolobium timbouva
- até 12 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: timbaúba, faveira, bajão, faveira-arara-tucupi, orelha-de-preto, timbouva, tambor, tamboril-da-mata, tamboril-roxo
Botânica
A espécie é classificada como Enterolobium timbouva Martius, pertencente à família Fabaceae (subfamília Mimosoideae) e ao gênero Enterolobium, dentro da ordem Fabales, segundo o sistema APG II. Foi descrita em 1837 (Herb. Fl. Bras. 20(2): 128). São reconhecidos como sinônimos botânicos, entre outros, Enterolobium tamboril Martius, Enterolobium timbouva var. canescens Bentham e Pithecellobium guaraniticum Chodat & Hassler. O nome do gênero une os termos gregos énteron (intestino) e lobion (pequena vagem), referência ao fruto em forma de vagem retorcida que lembra as voltas do intestino; já o epíteto timbouva deriva do tupi-guarani timbóyba, que significa árvore de espuma, aludindo à saponina presente no fruto.
Árvore perenifólia que, em fase adulta, chega a cerca de 12 m de altura e 300 cm de DAP (diâmetro medido a 1,30 m do solo). O tronco mostra-se reto ou levemente tortuoso, cilíndrico e desprovido de ramos baixos quando cresce em floresta; isolada, torna-se curto, grosso e tortuoso, com fuste de até 5 m. A ramificação é cimosa e a copa, larga e densa, em formato de guarda-chuva, alcança até 25 m de diâmetro em exemplares isolados, com folhagem verde-clara abundante; os ramos são glabros e decumbentes. A casca atinge até 10 mm de espessura, sendo a externa pardo-acinzentada e dividida em placas fendidas. As folhas são compostas, de 11 a 13 cm de comprimento, com 3 a 4 pares de pinas e pecíolo de 5 a 6 cm portando glândula elíptico-oval entre as pinas; cada pina reúne de 8 a 12 pares de foliólulos assimétricos, lanceolados a ovais-oblongos, de margem inteira e ápice apiculado. As inflorescências surgem em glomérulos axilares fasciculares, glabros e pouco densos, com cerca de 30 flores em 10 mm de comprimento. As flores são brancas, sésseis e glabrescentes, com cálice campanulado de 3 a 4 mm. O fruto é um legume carnoso de 8 a 10 cm de comprimento por 5 a 6 cm de largura, de formato circular com uma volta simples, epicarpo negro a castanho, superfície lisa e lustrosa e mesocarpo branco e gomoso abundante. A semente é castanho-clara, obovada a oval, medindo de 1,6 a 1,8 cm por 0,8 a 1,0 cm, com pleurograma oval e completo.
Uso e ecologia
A madeira é leve a moderadamente densa (0,37 a 0,60 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno branco levemente amarelado e cerne pardo-claro-rosado a róseo-pardacento, às vezes com veios escuros pouco evidentes; tem superfície ligeiramente áspera e bastante lustrosa, textura grosseira e uniforme, grã direita a irregular e cheiro e sabor imperceptíveis. É empregada na indústria de brinquedos, em colmeias, na construção naval e civil (esquadrias, tabuado, ripado, portões, portas e venezianas), em carpintaria geral, modelos de fundição, pranchetas, embalagens e caixotaria leve, palitos de fósforo, lápis, urna funerária, canoas de tronco inteiro, embarcações, entalhes, esculturas, gamelas, cochos, compensados e painéis; as raízes longas e grossas servem para jangadas. A madeira é adequada para celulose, mas produz lenha de má qualidade. A casca e os frutos têm alto teor de saponina, usada na fabricação de sabão caseiro. A espécie é boa forrageira, melífera e tem uso medicinal popular: a polpa da entrecasca do fruto contém saponina hemolítica.
A posição sucessional da timbaúba é bastante variável, podendo comportar-se como pioneira, secundária inicial ou secundária com tendência a clímax. É comum na vegetação secundária — clareiras, capoeirões e matas degradadas —, onde regenera intensamente e por vezes forma povoamentos quase puros; já na floresta primária é pouco frequente, restando apenas alguns indivíduos adultos no dossel e sendo rara a presença de árvores jovens. Tem longevidade média e ampla tolerância ecológica, crescendo em ambientes variados, como a Floresta Ombrófila Densa de várzea no Pará, a Floresta Tropical Semidecidual, o Pantanal Mato-Grossense em Poconé e ambientes fluviais ou ripários; no Paraguai, habita o Chaco.
A floração ocorre em períodos distintos conforme a região: de maio a novembro no Ceará, de agosto a setembro no Piauí, de agosto a outubro em Mato Grosso, de agosto a novembro em Minas Gerais, de setembro a outubro no Maranhão, em outubro na Bahia e em Mato Grosso do Sul, de outubro a dezembro na Paraíba e em Pernambuco, e em dezembro no Pará. Os frutos amadurecem em abril em Mato Grosso, de abril a outubro no Pará, de maio a novembro no Ceará, em julho em Goiás e no Rio Grande do Norte, de julho a dezembro na Paraíba, de setembro a outubro no Maranhão e em novembro em Pernambuco.
A espécie é hermafrodita e sua polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos pequenos insetos. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, por gravidade, e também zoocórica, principalmente por mamíferos terrestres; na natureza, a passagem pelo trato digestivo dos animais quebra a dormência da semente. Os frutos são procurados por animais silvestres como a paca (Agouti paca) e a cutia (Dasyprocta azarae), seus principais dispersores.
Plantio e silvicultura
A colheita dos frutos deve ser feita quando mudam de verde para preto, e as sementes podem ser extraídas por trilha manual ou mecânica, inclusive com debulhadora de milho adaptada. Cada quilo reúne de 3.600 a 7.500 sementes. A espécie apresenta semente dura, com dormência causada pela impermeabilidade do tegumento à água, às vezes somada a dormência embrionária; recomenda-se a escarificação mecânica, esfregando as sementes em superfície abrasiva ou raspando parte do tegumento. As sementes têm comportamento ortodoxo: lotes com 90% de germinação inicial, guardados em câmara fria (3 ºC a 5 ºC e 92% de umidade relativa), mantiveram 50% de germinação após nove anos.
A semeadura pode ser feita em sacos de polietileno, tubetes de polipropileno ou, eventualmente, em sementeira para posterior repicagem, realizada de 1 a 2 semanas após a germinação, sendo aconselhável a poda radicial. A germinação é epígeo-carnosa e começa entre 4 e 40 dias após a semeadura; com tratamento de dormência adequado, o poder germinativo pode chegar perto de 100%, mas sem ele cai para até 22% e ocorre de forma desuniforme por até 5 meses. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 3 meses após a semeadura e as maiores toleram bem o transplante. Como o sistema radicular é vigoroso, exige-se cova grande no plantio. A espécie apresenta incidência média de micorriza arbuscular e associa-se ao Rhizobium, formando nódulos grandes e coraloides com atividade da nitrogenase. A propagação vegetativa é fácil, por estacas de galhos e brotações de raízes.
Trata-se de espécie heliófila e medianamente tolerante ao frio em todas as fases. O hábito é irregular, sem dominância apical, com tronco curto e tortuoso, bifurcado quase desde a base, ramificação intensa e ausência de derrama natural, exigindo podas de condução e de galhos periódicas e frequentes; cicatriza muito bem após a poda, mesmo em galhos grossos. Não deve ser cultivada em plantio puro a pleno sol, pois isso não corrige a forma e favorece o ataque de pragas; recomenda-se o plantio misto a pleno sol, associada a espécies de crescimento semelhante para melhorar a forma ou tutorar espécies clímax, ou ainda em vegetação matricial e em faixas abertas na vegetação secundária, onde tolera sombreamento leve na fase juvenil. Por sua copa ampla, presta-se a sistemas agroflorestais, na arborização de culturas e pastagens, além de barreiras vivas (por corte e rebrota) e cercas vivas com mourões vivos.
Há poucos registros sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas seu crescimento é considerado moderado. Em plantio misto no Espírito Santo, aos 3 anos e em espaçamento de 5 m x 5 m, observaram-se 100% de plantas vivas, altura média de 5,50 m e DAP médio de 13,0 cm.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 870 mm, em Pernambuco, a 2.900 mm, no Pará, com chuvas uniformemente distribuídas na região de Belém e concentradas no verão ou no inverno nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula nos arredores de Belém, de pequena a moderada na faixa costeira de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e parte do Rio Grande do Norte, e forte no sudeste de Minas Gerais, com estação seca de até 6 meses. A temperatura média anual fica entre 20 ºC (Campinas, SP) e 27 ºC (Floriano, PI), com mínima absoluta de -0,2 ºC em Campinas e geadas ausentes a raras. Na classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af, Am, As, Aw e Cwa.
Na natureza, a timbaúba se desenvolve em solos variados, tanto de baixa quanto de alta fertilidade química, evitando os rasos e os excessivamente úmidos. Em plantio, cresce melhor em solos férteis, com boa disponibilidade de água durante o crescimento e textura franco-argilosa a argilosa. Em solos rasos, ocorre a morte gradual do ponteiro e, depois, da própria árvore.