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Sumaúma
Ceiba pentandra
- até 60 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: sumaúma-barriguda, sumaúma-da-várzea, samaúma, samaumeira, telefone-de-seringueiro
Botânica
Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a sumaúma pertence à ordem Malvales e à família Malvaceae, sendo que no sistema de Cronquist era enquadrada em Bombacaceae. Seu nome científico aceito é Ceiba pentandra (L.) Gaertn., do gênero Ceiba. Entre os sinônimos botânicos estão Bombax orientale Spreng., Bombax pentandrum L. e Eriophorus javanica Rumph. O nome do gênero deriva de cy-yba, expressão que significa "árvore-mãe" ou "mãe das árvores"; entre os povos do Caribe e da América Central, porém, o termo Ceiba designava "bote" ou "canoa". Já o epíteto pentandra remete à morfologia da planta, marcada pelo número cinco: cinco folíolos, cinco pétalas e ovário com cinco lóculos.
Trata-se de uma árvore decídua e uma das maiores da América Tropical: os exemplares de maior porte chegam perto de 60 m de altura e 300 cm ou mais de DAP na fase adulta. O tronco é robusto, cilíndrico ou abaulado ("barrigudo"), irregular e revestido de acúleos, e desenvolve grandes raízes tabulares basais, as sapopembas. Essas estruturas, batidas com pancadas, propagam o som a grandes distâncias por suas propriedades acústicas, hábito usado pelos seringueiros para se localizar na mata e origem do apelido "telefone-de-seringueiro"; também chegam a servir de abrigo para indígenas e ribeirinhos. Em árvores de tamanho médio o tronco engrossa a cerca de 2 a 3 m do solo. A copa é rala, com galhos grossos, verdes nas pontas e que depois acinzentam. A casca atinge até 25 mm de espessura; na fase jovem o ritidoma é verde-acinzentado e coberto de acúleos, enquanto a casca interna é espessa, café-clara e praticamente sem sabor. As folhas são alternas, compostas e digitadas, geralmente com 5 a 9 folíolos (eventualmente até 11), em pecíolos verdes e finos de 8 a 28 cm; os folíolos medem de 3 a 30 cm de comprimento por 2 a 5 cm de largura, glabros na face superior e pálidos na inferior. As flores surgem em racemos laterais, têm cinco pétalas creme a marrom-esbranquiçadas de 3 a 4 cm. O fruto é uma cápsula lenhosa, grande e elipsóide, de 10 a 30 cm de comprimento e até 6 cm de espessura, que se abre em cinco linhas e guarda de 120 a 175 sementes negras e pequenas, de cerca de 5 mm, envoltas por abundante paina marrom-esbranquiçada a grisácea (kapok).
Uso e ecologia
A madeira da sumaúma é muito leve a leve (densidade de 0,23 a 0,49 g/cm³ a 12% de umidade), com cerne e alburno indiferenciados e tom que vai de bege a castanho-claro-rosado. Tem textura grossa, grã direita, superfície lisa e sem brilho, sem cheiro ou gosto perceptíveis. É fácil de serrar e aplainar, com bom acabamento, e seca muito rápido em estufa, com tendência de moderado a forte encanoamento. Apresenta, porém, baixa resistência natural: é vulnerável a organismos xilófagos, à podridão-branca e, em contato com o solo, a insetos e apodrecimento, embora resista bem ao fungo da podridão-parda; toras e tábuas costumam sofrer ataque de fungos manchadores. Bastante permeável a soluções preservantes sob pressão, aceita também tratamento por aspersão de bórax. Justamente por ser leve e fácil de trabalhar, é aproveitada na fabricação de barcos, divisórias internas, caixas, engradados, tonéis, construções leves, moldes, palitos de fósforo, jangadas, brinquedos, miolos de painéis e contraplacados, aeromodelismo e isolamento acústico e térmico, além de cubetas, vasilhas e barris de pouca durabilidade. No Amazonas, seu principal destino é a produção de lâminas para compensado. A madeira também serve para pasta e polpa de celulose, mas rende lenha de péssima qualidade. As sementes contêm óleo comestível verde-amarelado (cerca de 30% do peso), usado na cozinha, na iluminação e na fabricação de sabão e margarina, com resíduos aproveitados na alimentação do gado. A paina sedosa que envolve as sementes, o kapok, é resistente à água e largamente empregada para encher colchões, almofadas, travesseiros, boias e salva-vidas, além de servir como isolante térmico; uma árvore em desenvolvimento produz por ano cerca de 600 a 900 cápsulas, o equivalente a 2,5 a 4 kg de fibra limpa. No Equador, as folhas são comestíveis após o cozimento, e os troncos são trabalhados por algumas tribos para fazer tambores e grandes canoas. Na medicina popular, a seiva é usada contra conjuntivite, a decocção da casca como diurético e antiespasmódico, e no Haiti o cozimento da raiz é aplicado contra edemas, constipação e diabetes.
É considerada uma espécie pioneira, típica de terrenos muito úmidos ou pantanosos, tanto da floresta primária de várzea quanto de formações secundárias. Em geral aparecem poucos indivíduos por hectare, ao longo das margens dos rios ou em matas inundadas. No bioma Amazônia, está associada à Floresta Ombrófila Aberta, no Acre, à Floresta Ombrófila Densa de várzea, no Amazonas e no Pará, e à Floresta Ombrófila Densa de terra firme alta, no Acre. É indicada para a restauração de ambientes fluviais e ripários e para a recuperação de ecossistemas degradados. Atualmente é classificada como espécie em perigo de extinção, sobretudo pela exploração de sua madeira na indústria de laminados.
A floração acontece de agosto a setembro no Acre e em setembro no Pará. Os frutos amadurecem entre novembro e dezembro no Pará. O início da fase reprodutiva ocorre por volta dos 3 a 4 anos de idade.
Espécie hermafrodita (monoica), de sistema reprodutivo misto e preferencialmente alógama, com taxa média de fecundação cruzada de 0,689 e de autofecundação de 0,311 — sua morfologia permite a autopolinização na mesma flor ou entre flores da mesma árvore. No Brasil, a polinização é realizada por vespas, abelhas, pequenos besouros, aves e morcegos, com destaque para Phyllostomus hastatus; em outros países atuam diversas espécies de morcegos, como Epomophorus gambianus e Eidolon helvum (Gana), Artibeus jamaicensis e Leptonycteris nivalis (México) e Carollia perspicillata e Glossophaga sericina (Costa Rica). Como o pólen fica preso à antera por um óleo, a polinização pelo vento é dificultada. As sementes, leves e ligadas à paina, são dispersas pelo vento.
Plantio e silvicultura
A colheita dos frutos deve ser anual, feita diretamente na árvore assim que começam a abrir; em seguida são expostos ao sol para completar a abertura, podendo também ser recolhidos do chão após a queda. As sementes, envoltas na pluma, são separadas à mão. O número de sementes por quilo varia bastante conforme a procedência, de 7 mil a 14 mil, sendo mais comum entre 7 mil e 10 mil. Como tratamento pré-germinativo, na Venezuela e em Honduras as sementes são imersas em água fria por 24 horas antes da semeadura, enquanto na África ficam 5 minutos em água quente. A viabilidade em armazenamento supera 6 meses. Estudos com sementes de três procedências do Amazonas mostraram diferenças significativas de germinação conforme a temperatura, a procedência e a interação entre esses fatores.
Recomenda-se semear em sementeiras (caixas de madeira de 100 x 47 x 21 cm) com areia lavada como substrato, sob galpão coberto com telhas transparentes. Na Amazônia, o enchimento dos sacos para mudas usa mistura de areia e barro na proporção 2:1. A repicagem deve ocorrer quando as plântulas tiverem de 4 a 6 cm de altura ou cerca de 40 dias após a semeadura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência se dá entre 5 e 10 dias; em sementes novas a taxa é elevada, de 90% a 95%. O tempo de produção das mudas vai de 3 a 4 meses no Sul do Brasil a 5 a 7 meses na Amazônia, e as mudas se beneficiam de ambientes sombreados. A propagação vegetativa é fácil por estacas de ramos com gemas apicais (50 cm de comprimento e 1,5 cm de diâmetro); estacas de ramos com gemas horizontais geram plantas de porte baixo, úteis apenas para cercas vivas. A enxertia é feita em plantas de 6 a 8 meses, com o enxerto colocado a 20 cm da base.
Apesar de tolerar sombreamento na fase de viveiro, a sumaúma é uma árvore acentuadamente heliófila, colonizadora de áreas abertas e dependente da abertura de clareiras para completar seu ciclo; não suporta temperaturas baixas. Sua arquitetura segue o modelo de Massart, com tronco monopodial ortotrópico, galhos plagiotrópicos e copa frondosa. Na Amazônia Ocidental brasileira, indica-se o plantio a pleno sol em maciços puros, mistos ou em clareiras, e no Equador a espécie já é cultivada em escala comercial. Em sistemas agroflorestais, é empregada na Ásia no sistema taungya, com espaçamento a partir de 6 m entre linhas e 3 m entre plantas, intercalada com cultivos perenes (café, chá) e de ciclo curto; em Java, árvores jovens com mais de 3 anos servem de suporte para a pimenta-trepadeira. No México entra em consórcio com cacau, arroz e mandioca, como árvore de sombra e cerca viva; na Bolívia integra cortinas quebra-ventos, com 5 a 7 m entre árvores. Na Amazônia brasileira, o sistema taungya com a sumaúma para laminados, associado a milho, feijão e mandioca, é apontado como alternativa promissora para áreas desmatadas, reduzindo custos de implantação.
No campo o desenvolvimento é bastante rápido, alcançando facilmente 5 a 6 m aos 2 anos, embora o crescimento seja irregular: vai de lento, com produção volumétrica de até 1,75 m³/ha/ano aos 14 anos no Pará, a moderado, chegando a 19 m³/ha/ano aos 9 anos, também no Pará. Em projetos de reposição florestal no Pará registrados entre 1976 e 1996, a espécie foi usada por 28% das empresas. Em plantio misto em Foz do Iguaçu (PR), aos 4 anos e espaçamento 4 x 3 m, apresentou 93,3% de sobrevivência, 6,21 m de altura média e 16,4 cm de DAP; em plantio puro em Portel (PA), aos 9 anos e espaçamento 3 x 5 m, registrou 62% de sobrevivência, 9,30 m de altura e 30,2 cm de DAP. Ensaios com progênies do Amazonas e do Pará apontaram Santarém e Tefé como as mais promissoras, e a progênie Manaus mostrou características genéticas distintas das demais, como ausência de acúleos.
A precipitação média anual em que ocorre vai de 1.200 mm, no Maranhão, a 3.000 mm, no Pará (e de 750 a 2.500 mm fora do Brasil). As chuvas são uniformes no noroeste do Amazonas e no entorno de Belém, e periódicas, concentradas no verão (novembro a maio), na maior parte da área; a espécie tolera estiagem de até 6 meses (junho a outubro), desde que as raízes alcancem o lençol freático. A deficiência hídrica é de pequena a moderada no Amazonas, Acre, Pará e Rondônia. A temperatura média anual fica entre 24,8 ºC (Tarauacá, AC) e 26,7 ºC (Itaituba, PA / Manaus, AM), chegando a 27 ºC no Haiti; a mínima absoluta foi de 6 ºC (Rio Branco, AC) e não há geadas. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af (tropical superúmido), Am (tropical chuvoso de monção) e Aw (tropical com estação seca de inverno).
Desenvolve-se em solos das mais variadas origens geológicas, com preferência por formações aluviais de pH levemente ácido a neutro. É característica de terrenos muito úmidos e pantanosos, de drenagem lenta; quando plantada em solo arenoso, no Rio de Janeiro, não vingou. Como os Latossolos Amarelos distróficos da Amazônia oferecem poucos nutrientes, sobretudo fósforo, e a espécie tem alta produção de biomassa e acúmulo de nutrientes, recomenda-se adubar os plantios com fósforo a partir do 3º ano para garantir produção sustentada de madeira.