Foto: Sophia Lee (CC BY) via GBIF
Suinã
Erythrina speciosa
- até 6 mAltura
- Pequeno portePorte
Também conhecida como: canivete, mulungu, mulungu-da-várzea, mulungu-do-litoral, facãozinho, eritrina, bico-de-papagaio, candelabro-vermelho, corticeira, eritrina-candelabro, corticeira-do-litoral, mochoco, sanaduva
Botânica
Pelo sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das Eurosídeas I, ordem Fabales (em Cronquist, Rosales), família Fabaceae (em Cronquist, Leguminosae), subfamília Faboideae (Papilionoideae), tribo Phaseoleae e gênero Erythrina. O nome aceito é Erythrina speciosa Andr., descrito originalmente em Bot. Repos. 7; Pl. 443, de 1806. São registrados como sinônimos botânicos Erythrina reticulata Presl. e Micropteryx reticulatum Ktze. O nome do gênero deriva do grego erythros, que quer dizer vermelho, referência à cor das flores; já o epíteto speciosa vem do latim e celebra a beleza da floração da espécie.
Trata-se de planta que varia de arbustiva a arbórea, com folhagem decídua. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 6 m de altura e 20 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, tomado a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco é bastante aculeado e praticamente não forma fuste. A ramificação é dicotômica e abundante, com ramos glabrescentes, lenticelados e munidos de acúleos. A casca exibe ritidoma muito fino, de até 5 mm de espessura, com superfície externa lisa, dotada de acúleos e que se esfolia com facilidade. As folhas são compostas por três folíolos romboidais, de 22 a 23 cm de comprimento por 15 a 23 cm de largura, glabros na face superior e com poucos pelos na inferior, aculeados, de nervuras nítidas e ápice obtuso-arredondado, com estípula caduca e estipela glanduliforme; os pecíolos chegam a 20 cm de comprimento, são aculeados e glabros, enquanto os peciólulos têm cerca de 1,5 cm. A inflorescência é um racemo terminal de formato mais ou menos piramidal, que surge em ramos sem folhas e mede de 18 a 21 cm, com pedicelos de aproximadamente 1,5 cm e brácteas e bractéolas persistentes; no auge da floração, cada planta apresenta em média 50 inflorescências, com 9 a 35 flores por unidade. As flores, em geral reunidas em grupos de três, abrem-se da base para o ápice e têm corola vermelha de 50 a 70,6 mm de comprimento; o vexilo é reto, estreito e dobrado longitudinalmente, cobrindo as demais peças, a carena equivale a quase metade do estandarte e as asas correspondem a um terço do comprimento. O fruto é um legume oblongo de 17,5 a 19 cm de comprimento por 1,1 a 1,2 cm de largura, com estípite de 15 a 20 mm, valvas cartáceas e cinco ou mais sementes. As sementes são duras e medem pouco mais de 1 cm de comprimento.
Uso e ecologia
A madeira é leve, mole, porosa e de baixa durabilidade natural, sem valor comercial; pelas dimensões reduzidas, tem aproveitamento limitado, eventualmente servindo para caixotaria leve. É inadequada para celulose e papel e fornece lenha de qualidade muito ruim. Sua maior utilidade está no paisagismo: arvoreta ornamental cultivada em diversas cidades brasileiras, com destaque para Porto Alegre e os jardins de São Paulo e Rio de Janeiro, podendo ser plantada isolada ou em grupos; no início do cultivo recomendam-se apenas podas de condução, restringindo-se depois à retirada de galhos. Por ser melífera, atrai constantemente borboletas e aves como saíras, mariquitas e beija-flores ao longo de toda a floração. Tem grande valor ambiental na recuperação de ecossistemas de solos alagadiços, sendo recomendada para áreas permanentemente encharcadas, embora também cresça em locais secos; é ainda excelente hospedeira para orquídeas de todo tipo. Para a restauração de ambientes fluviais e ripários, há recomendação de semeadura direta: apesar do crescimento lento, as plântulas emergem em abundância e ajudam a ocupar os estratos inferiores do povoamento, tendo atingido cerca de 45% de emergência aos 90 dias após a semeadura, a maior taxa entre oito espécies avaliadas.
É classificada como espécie secundária inicial e considerada arvoreta muito rara no sul do país. No bioma Mata Atlântica, ocorre na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações das terras baixas e montana em Minas Gerais, e na Floresta Ombrófila Densa, nas terras baixas do Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina e nas formações submontanas de São Paulo. Surge ainda em outras formações vegetacionais, como ambientes fluviais e matas ciliares no nordeste de Goiás, áreas brejosas em Minas Gerais e vegetação de restinga, com influência marinha, em São Paulo.
A floração vai de junho a setembro no Paraná e de julho a setembro em Minas Gerais e em São Paulo. Os frutos amadurecem entre outubro e novembro em Minas Gerais e São Paulo.
Espécie hermafrodita e predominantemente autógama. A polinização é feita principalmente por beija-flores: foram observadas nove espécies de aves visitando as flores em Londrina (PR), sendo sete beija-flores (Trochilidae) e duas Passeriformes, em busca de néctar. A planta parece adaptada a beija-flores de bico longo, mas aves de bico curto a médio também podem contribuir, e é comum mais de uma espécie visitar as flores ao mesmo tempo; abelhas e borboletas figuram entre outros visitantes. A dispersão é autocórica, do tipo barocórica (por gravidade) e hidrocórica (sementes levadas pela água).
Plantio e silvicultura
O legume é colhido na própria árvore quando está perto de abrir, ou no solo após a queda; em seguida os frutos são expostos ao sol para secar e facilitar a abertura manual e a retirada das sementes. Cada quilo reúne de 2.300 a 3.000 sementes. Recém-colhidas, elas apresentam dormência profunda, causada pela impermeabilidade do tegumento à água; a escarificação supera rapidamente essa barreira, com melhores resultados quando feita na extremidade onde fica o eixo embrionário. Há registro de que podem germinar em meio ácido, desde que o pH não fique abaixo de 2,0. O poder germinativo se mantém por mais de quatro meses, e em germinador chegou-se a 100% de germinação.
As sementes devem ser semeadas logo após a colheita, em recipientes individuais ou em canteiros de sementeira, mantendo-se as plântulas à meia-sombra; quando preciso, a repicagem é feita assim que a parte aérea surge. A germinação é epígeo-carnosa e atingiu 97% em estufa de sombrite, começando por volta do segundo dia com a emissão da raiz primária, branca e grossa; as plântulas formam um tubérculo inicial que lhes confere boa resistência no transplante e proteção contra condições aéreas adversas. As raízes estabelecem simbiose com Rhizobium, formando nódulos globosos com atividade de nitrogenase; em plantas jovens, observaram-se nódulos de formato irregular e alongado tanto na raiz principal espessa quanto nas laterais. A espécie também se multiplica por estacas, plantadas ou feitas na primavera. Vale notar que o crescimento sob sombra é prejudicado.
Espécie heliófila, não suporta geadas na fase juvenil. Não faz derrama natural, de modo que as podas devem servir apenas à formação ou à eliminação de brotos ladrões; brota com vigor da touça ou cepa. Pode ser conduzida em plantio misto, associada a espécies pioneiras e secundárias iniciais, sobretudo para corrigir a forma.
As informações sobre crescimento em plantios são escassas, mas o desenvolvimento inicial em altura é rápido, alcançando 3 m aos 2 anos de idade.
A precipitação média anual varia de 800 mm, no Rio de Janeiro, a 3.200 mm, no litoral paulista, com chuvas bem distribuídas na maior parte da área, exceto em Minas Gerais, onde são periódicas. A deficiência hídrica é nula quase em toda a distribuição, sendo de pequena a moderada no inverno mineiro. A temperatura média anual fica entre 19,6 ºC (Paranaguá, PR) e 24,3 ºC (Machacalis, MG); a média do mês mais frio vai de 16,6 ºC (Paranaguá, PR) a 21,2 ºC (Cabo Frio, RJ) e a do mês mais quente, de 23,2 ºC (Belo Horizonte, MG) a 27,2 ºC (Rio de Janeiro, RJ). A mínima absoluta registrada foi de -0,9 ºC, em Morretes (PR). Geadas são raras ou pouco frequentes no litoral de Santa Catarina e do Paraná e ausentes no restante. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af no litoral do Paraná e de São Paulo, Aw no nordeste de Goiás, em Minas Gerais e no litoral norte fluminense, Cfa em Santa Catarina e São Paulo e Cwb no sul de Minas Gerais.
Tem preferência por solos úmidos, parcialmente encharcados e por banhados.