voltar ao catálogo
Foto de Sucupira-branca

Foto: Francisco V. Bezerra Neto (CC BY-SA) via GBIF

Sucupira-branca

Pterodon emarginatus

Fabaceae CerradoMata AtlânticaAmazônia
  • até 15 mAltura
  • Médio portePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: sucupira-lisa, sucupira-do-carrasco, sucupira-roxa, sucupira-rosa, faveiro, faveira, pau-pereira, sucupira, bilro, fava-de-sucupira, fava-de-santo-inácio

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Fabaceae (subfamília Faboideae), a sucupira-lisa tem como nome científico aceito Pterodon emarginatus Vog., publicado originalmente em Linnaea 11: 384. Está classificada na ordem Fabales, segundo o sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG II). A espécie acumula sinônimos botânicos como Pterodon polygaliflorus, Pterodon pubescens, Sweetia inornata e Acosmium inornata. O nome do gênero, Pterodon, traduz-se como 'vaso com asa', em alusão ao cálice tubuloso com dois lacínios em forma de ala; já o epíteto emarginatus refere-se ao ápice entalhado (emarginado) dos folíolos. Sobre o nome popular sucupira, não há consenso quanto à origem: há quem o associe ao tupi sapó-pira ('raiz crua'), pela semelhança da casca da raiz com carne crua, e quem o derive de cibepyra ('a alisada'), referência às qualidades do lenho. Os qualificativos 'lisa' e 'branca' distinguem sua madeira clara da das sucupiras 'legítimas' (gênero Bowdichia), de coloração pardo-escura e aspecto fibroso.

Descrição botânica

Espécie de hábito que vai do arbustivo ao arbóreo, com comportamento decíduo. Na fase adulta, os exemplares maiores chegam a cerca de 15 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo); em ambiente de Cerradão, costuma alcançar apenas 4 m. O tronco varia de reto a levemente tortuoso, com fuste curto que não passa de 5 m. A ramificação é racemosa e a copa exibe ramos terminais pilosos e acinzentados. A casca, de até 10 mm de espessura, tem ritidoma cinza a amarelado, áspero, que se desprende em placas irregulares; nos indivíduos mais velhos torna-se fissurada, com sulcos profundos. As folhas são alternas, compostas, pinadas e imparipinadas, com 10 a 18 pares de folíolos geralmente alternos e peciolulados; cada folíolo tem lâmina oval-oblonga e cartácea, de 2,5 a 4 cm de comprimento por 2 a 3,8 cm de largura, com pontuações translúcidas, ápice retuso e emarginado e base aguda a arredondada. A inflorescência forma panículas terminais e axilares, reunindo de 80 a 200 flores pediceladas, com cerca de 1 cm de comprimento, estandarte branco e alas púrpuras. O fruto é um legume deiscente castanho-escuro, oval a orbicular, plano-comprimido, de aproximadamente 5 cm, com epicarpo e mesocarpo cartáceos e quebradiços na maturação, contendo uma única semente. A semente é central, creme, oval a suborbicular, envolta por um endocarpo alado.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

Madeira densa a muito densa, com massa específica aparente entre 0,75 e 1,10 g/cm³ a 15% de umidade (básica de 0,71 a 0,79 g/cm³). Alburno e cerne são indistintos, ambos amarelados; a superfície é pouco lustrosa, com finíssimas estrias longitudinais, sem cheiro ou gosto, de textura média e grã revessa. A durabilidade natural é moderada (vida média inferior a 9 anos em ensaio de estacas enterradas por 20 anos), porém a madeira é altamente resistente a fungos e cupins. De extrema dureza, foi muito valorizada comercialmente, sobretudo em São Paulo, onde teve alta cotação como dormente ferroviário; é indicada para obras externas e construções pesadas como pontes, vigas, postes, cruzetas e carrocerias. Não serve para celulose e papel. Como combustível, rende 33,5% de carvão, com teor de carbono fixo de 75,5 e poder calorífico superior do carvão de 7.575 kcal/kg. A espécie é melífera no Cerrado mineiro e tem potencial ornamental para arborização paisagística. Frutos e sementes contêm óleo aromático de uso na medicina popular: em gargarejos contra inflamação de garganta, como calmante, no tratamento de reumatismo, diabetes e esquistossomose, e em infusão contra resfriados no Cerrado de Minas Gerais; o óleo dos frutos tem ação profilática contra a infecção por Schistosoma mansoni. Estudos fitoquímicos isolaram isoflavonas, diterpenos e a substância 14,15-epoxigeranilgeraniol, que inibe a penetração da cercária da esquistossomose na pele humana.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie pioneira, típica e exclusiva do Cerrado e do Cerradão, onde aparece com abundância, ainda que de modo irregular e descontínuo. No Cerrado stricto sensu chega a densidades de até 30 indivíduos por hectare, e em áreas de Cerradão pode ser ainda mais frequente — em Luiz Antônio (SP) foram contados 205 indivíduos por hectare com diâmetro à altura do solo igual ou superior a 1 cm. Também ocorre em Floresta Estacional Decidual e Semidecidual da formação Submontana, na Bahia e em São Paulo, neste caso com frequência de até um exemplar por hectare, além de matas ciliares no Distrito Federal e áreas de contato entre Floresta Amazônica e Cerrado em Mato Grosso.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: de maio a junho em Minas Gerais, de julho a outubro no Distrito Federal e de setembro a novembro em São Paulo. Os frutos amadurecem de junho a setembro no Distrito Federal e de agosto a setembro em São Paulo.

Fauna associada

A espécie é hermafrodita e tem como polinizadores abelhas e diversos pequenos insetos. A dispersão de frutos e sementes é anemocórica, ou seja, realizada pelo vento.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos (sâmaras) devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começa a queda espontânea, podendo ser usados na semeadura como se fossem sementes, já que extraí-las é trabalhoso. Cada quilo reúne de 570 a 1.200 sementes. Elas apresentam dormência decorrente da impermeabilidade do tegumento ao oxigênio e à água e da presença de inibidores químicos — o inibidor parece ser hidrossolúvel e mais disponível em frutos sem o epicarpo. A viabilidade em armazenamento é curta, inferior a seis meses.

Produção de mudas

A semeadura deve ser feita logo após a colheita, diretamente em recipientes individuais; quando preciso, a repicagem é realizada cerca de 30 dias após o início da germinação. As plântulas têm cotilédones epígeos (fanerocotiledonares) e a emergência ocorre entre 5 e 54 dias, com taxa de germinação de 14,2%. As raízes não estabelecem associação simbiótica com Rhizobium.

Características silviculturais

Espécie heliófila, que não suporta baixas temperaturas. Demanda poda de condução e de galhos e apresenta boa brotação da touça. Adapta-se bem a plantios puros e densos a pleno sol, a plantios mistos diversificados e também a sombreamento parcial. Em sistemas agroflorestais, costuma ser mantida na área como árvore de sombra.

Crescimento e produção

Há poucos dados disponíveis, mas o crescimento da espécie é considerado lento.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 1.000 mm, na Bahia, a 2.250 mm, no sul de Rondônia, com regime de chuvas periódicas e deficiência hídrica que vai de pequena a forte conforme a região. A temperatura média anual fica entre 20,9 ºC (Sete Lagoas, MG) e 26,1 ºC (Carolina, MA), tendo-se registrado mínima absoluta de -2,2 ºC em Uberaba (MG), em julho de 1981. Geadas são ausentes na maior parte da distribuição e raras no centro e leste paulista. Os tipos climáticos predominantes, segundo Köppen, são o Aw (tropical com inverno seco) e o Cwa (subtropical com inverno seco e verão quente).

Solos

Em condições naturais, ocupa terrenos de textura argilosa e bem drenados.