Foto: (c) Edson Luis Fabro Gasperin, some rights reserved (CC BY-SA), uploaded by Edson Luis Fabro Gasperin (cc-by-sa) via iNaturalist
Sete-capotes
Campomanesia guazumifolia
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: gabiroba, guabiroba, gabirobão, araçá, araçá-do-mato, araçazeiro-grande, goiabinha, sete-casacas, sete-capas, capoteira, capote, capoteiro, guavirova, pêssego-do-mato, solta-capotes, ibirá-piroca
Botânica
Pertencente à família Myrtaceae, o sete-capotes recebe o nome científico Campomanesia guazumifolia (Cambess.) O. Berg., publicado em Linnaea, 27: 434, em 1856. Está inserido na ordem Myrtales, dentro do clado das rosídeas, conforme a classificação do APG II. Entre seus sinônimos botânicos mais citados na literatura estão Britoa sellowiana Berg. e Psidium guazumaefolia Cambessèdes, embora a espécie tenha sinonímia bastante extensa. O nome do gênero homenageia o naturalista espanhol P. Rodrigues de Campomanes, enquanto o epíteto guazumifolia faz referência à semelhança das folhas com as do gênero Guazuma.
Pode variar de arbusto a árvore perenifólia, com os maiores exemplares alcançando cerca de 25 m de altura e 30 cm de diâmetro à altura do peito quando adultos. O tronco é curto, escavado e levemente tortuoso, revestido por várias camadas de casca de toque mais ou menos sedoso, que se soltam com muita facilidade. A casca chega a 5 mm de espessura e tem superfície externa papirácea, que se esfolia em placas ou lâminas, deixando as lenticelas pouco visíveis. A ramificação é racemosa e a copa, arredondada, mede de 7 m a 8 m de diâmetro. As folhas são simples, opostas, aromáticas, rugosas e de tom verde-escuro, medindo de 7 cm a 14 cm de comprimento por 3 cm a 6 cm de largura, com ápice agudo, base aguda ou obtusa e indumento piloso na face inferior, onde as nervuras peninérveas se destacam. As flores são brancas, grandes, vistosas e portam muitos estames. Os frutos são bagas de aproximadamente 3 cm a 5 cm de diâmetro; verdes, duros e pilosos quando jovens, tornam-se macios, intumescidos e verde-claros ao amadurecer, contendo numerosas sementes claras, redondas e achatadas.
Uso e ecologia
É uma importante frutífera silvestre, de frutos doces e comestíveis, valorizados tanto pelas pessoas — historicamente sobretudo pelos povos indígenas — quanto pela fauna; na indústria alimentícia prestam-se a doces e, possivelmente, a sucos e sorvetes. Por ser melífera, tem interesse apícola. Na medicina popular, as folhas são empregadas internamente, em infusão ou decocção, por suas propriedades adstringentes no tratamento de diarreia, e diversas etnias indígenas do Paraná e de Santa Catarina as utilizam como fortificante. A madeira é moderadamente densa (0,61 g/cm³), com alburno claro e cerne mais escuro, e destaca-se pela grande durabilidade. É aplicada em obras internas e externas e em tabuado em geral; na região metropolitana de Curitiba (PR), serve para cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Também é indicada para lenha e carvão. Para celulose e papel, contudo, é inadequada, pois apresenta fibras curtas (0,64 mm) e teor de lignina com cinza de 33,43%.
Classificada como secundária inicial a secundária tardia, é uma espécie de ampla dispersão, presente tanto no interior de florestas primárias quanto na vegetação secundária, ainda que sem ser frequente. Costuma estar associada ao estrato intermediário das formações florestais. Na Mata Atlântica, aparece na Floresta Estacional Decidual das Terras Baixas (RS), na Floresta Estacional Semidecidual Submontana e Montana (MG, PR e SP), com frequência de até 13 indivíduos por hectare, na Floresta Ombrófila Densa (SC e SP) e na Floresta Ombrófila Mista com araucária (PR e RS), com até cinco indivíduos por hectare, além da restinga no ES e no RJ. No Cerrado, ocorre no cerradão de Minas Gerais e de São Paulo, sendo rara. Surge ainda em ambientes fluviais ou ripários no MS, em MG, no PR e em SP.
Espécie hermafrodita. A floração ocorre em setembro na Bahia, de setembro a novembro no Paraná, de outubro a novembro no Rio Grande do Sul e em São Paulo, e de outubro a dezembro em Minas Gerais e Santa Catarina. Os frutos amadurecem de dezembro a janeiro em São Paulo, de dezembro a maio no Paraná e no Rio Grande do Sul, de fevereiro a março em Santa Catarina e de março a abril em Minas Gerais. Em solos de alta fertilidade química, começa a frutificar aos 4 ou 5 anos de idade.
A polinização é feita essencialmente por abelhas. A dispersão das sementes depende de animais específicos, como certas aves e pequenos mamíferos. Entre as aves atraídas pelos frutos estão tiribas-de-testa-vermelha, sanhaços e charões.
Plantio e silvicultura
Os frutos maduros caem inteiros e podem ser recolhidos do chão; a parte carnosa que envolve as sementes é então retirada por maceração e decantação. Convém evitar que as sementes sequem por completo ou fiquem expostas ao sol direto, sob risco de perderem a capacidade de germinar. Cada quilo reúne de 19.300 a 22.000 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. A longevidade é curta: a semente já começa a perder o poder germinativo em torno de 15 dias.
A semeadura pode ser feita em sementeira, com cobertura leve, ou colocando-se duas sementes diretamente em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Quando necessária, a repicagem para recipientes individuais deve ser feita assim que as mudas atingirem de 3 cm a 5 cm de altura. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência iniciando entre 15 e 30 dias. As mudas permanecem no viveiro por pelo menos 8 meses após a semeadura.
Trata-se de uma espécie mesófila a esciófila, que suporta temperaturas baixas. O hábito é variável, indo de fustes retilíneos com crescimento monopodial a troncos irregulares e levemente tortuosos, que podem se bifurcar a partir de 2 m de altura. Recomenda-se o plantio misto ou em vegetação matricial sob cobertura, e a planta rebrota da touça. No Sul do Brasil, é tradicionalmente cultivada no sistema de faxinal, uma forma de sistema agroflorestal. Por tolerar bem solos muito úmidos, é apropriada para plantios às margens de reservatórios de hidrelétricas e para atrair aves que se alimentam dos frutos.
O desenvolvimento é lento. Em plantios mistos no Paraná, em espaçamento de 5 m x 5 m e solo Latossolo Vermelho distroférrico, registrou-se 100% de sobrevivência, com altura média de 3,56 m e DAP de 3,1 cm aos 4 anos, e 4,96 m de altura e 6,1 cm de DAP aos 7 anos.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 770 mm, no Rio de Janeiro, a 2.000 mm, na Bahia, com chuvas bem distribuídas na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e no sudoeste de São Paulo, e periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula na maior parte do Sul, pequena no inverno do norte do Paraná e de pequena a moderada no inverno do centro-leste paulista, do sul de Minas Gerais e do sudoeste capixaba. A temperatura média anual oscila entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 24,2 ºC (Vitória, ES), com mínima absoluta de -8,4 ºC em Guarapuava (PR) e de 0 a 30 geadas por ano, podendo chegar a 81 na Região Sul e em Campos do Jordão. Segundo Köppen, abrange os climas Af, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Adapta-se a solos pedregosos, contanto que apresentem um teor razoável de matéria orgânica.