Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Sapuva
Machaerium stipitatum
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: jacarandá, jacarandá-roxo, sapuvinha, ximbó, bico-de-pato, coreeiro, farinha-seca, marmeleiro-do-mato, sapuva-do-campo, sapuvão, canela-brejeira, canela-do-brejo, canela-pimenta, caneleira, liga, pau-de-malho, coração-de-negro, feijão-cru, sapuvuçu
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (Leguminosae, subfamília Papilionoideae), a sapuva é classificada cientificamente como Machaerium stipitatum Vog., descrita em 1837 (Linnaea 11:189). Está inserida na tribo Dalbergieae, ordem Fabales, dentro do gênero Machaerium. Ao longo do tempo recebeu outras denominações botânicas, hoje consideradas sinônimos, como Nissolia stipitata DC., Machaerium minutiflorum Tul., Machaerium paniculatum Allem. ex Benth. e Machaerium punctatum Pers. O nome do gênero deriva do grego machairion, que significa 'pequeno cutelo', referência ao formato característico do fruto.
Trata-se de uma árvore perenifólia que, quando adulta, pode alcançar cerca de 25 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco costuma ser tortuoso, inclinado, nodoso, irregular e marcado por sulcos longitudinais, sobretudo na base, com fuste que chega a 10 m de comprimento. A ramificação é dicotômica ou simpódica, formando uma copa alta, densa e irregular, com ramos longos, flexíveis e por vezes pendentes, glabrescentes, lenticelados e sem espinhos. A casca, de até 7 mm de espessura, tem superfície externa áspera e escamosa, com numerosas escamas retangulares pequenas que se soltam com facilidade; quando raspada revela cor marrom, enquanto a casca interna é cor-de-marfim, oxidando para ocre-claro após o corte, de textura curto-fibrosa e estrutura trançada. As folhas são compostas e imparipinadas, com raque de 8 a 17,5 cm, reunindo de 7 a 25 folíolos; o pecíolo mede de 1,7 a 2,0 cm e cada folíolo, de 5 a 6,1 cm de comprimento por 1,3 a 1,7 cm de largura, é alterno, elíptico, de base obtusa, ápice obtuso a retuso e mucronado, concolor, com face superior glabra e inferior serícea, e venação broquidódroma. As inflorescências surgem em panículas terminais e axilares de 5 a 6 cm, reunindo de 5 a 25 flores pequenas e irregulares, de 0,5 a 0,6 cm, com corola creme ou esverdeada. O fruto é uma sâmara falciforme e glabra, de 3,7 a 6 cm de comprimento por 1 a 1,5 cm de largura, longo-estipitada (estípite de 5 a 11 mm), plana e semibrilhante, castanho-clara na ala e castanho-escura na região do lóculo, com borda dorsal reta e ventral ondulada. A semente apresenta ápice e base arredondados, superfície convexa e fosca, coloração castanho-escura com pequenas depressões nas duas faces, hilo pequeno e circular mais claro que a testa, e embrião axial curvo de tom verde.
Uso e ecologia
A madeira da sapuva é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,58 a 0,69 g/cm³), com grã entrelaçada e textura mediana. O alburno varia do amarelo-esverdeado ao marrom-claro levemente esverdeado. Por causa da nodosidade do tronco, a madeira racha com dificuldade, e mostra-se imune ou bastante resistente ao cupim. No interior do Rio Grande do Sul é bastante empregada na confecção de malhos e tabuinhas, mas o fuste delgado e cheio de defeitos limita seu uso industrial. Na Região Metropolitana de Curitiba, é apontada como adequada para cabos de ferramentas e utensílios domésticos. Seu principal destino energético é a produção de lenha e carvão. Para celulose e papel, contudo, não é apropriada.
Em termos sucessionais, é uma espécie secundária inicial, secundária tardia ou clímax exigente em luz. Aparece com frequência em formações secundárias como capoeiras e capoeirões, sendo mais rara no interior da floresta primária. Chegou a ocupar o estrato emergente da Floresta Estacional Semidecidual Submontana na área da Formação Caiuá, no noroeste do Paraná, onde era abundante. Ocorre na Mata Atlântica em diferentes formações: na Floresta Estacional Decidual (formações Submontana e Montana, em Goiás e no Rio Grande do Sul, com 1 a 3 indivíduos por hectare); na Floresta Estacional Semidecidual (formações Aluvial, Submontana e Montana, em Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com 5 a 97 indivíduos por hectare); na Floresta Ombrófila Densa (formações de Terras-Baixas e Submontana, com até 3 indivíduos por hectare); e na Floresta Ombrófila Mista ou de Araucária (formações Aluvial e Montana, no Paraná e no Rio Grande do Sul, com 2 a 19 indivíduos por hectare). Também se desenvolve em ambientes fluviais e ripários, em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com até 40 indivíduos por hectare.
A floração ocorre de dezembro a maio no Paraná, de janeiro a fevereiro no Rio Grande do Sul, de fevereiro a abril em Minas Gerais e de março a maio em São Paulo. Os frutos amadurecem de maio a setembro no Paraná, de junho a julho no Rio Grande do Sul, de agosto a outubro em Minas Gerais e de setembro a outubro em São Paulo.
A espécie é monóica, e sua polinização é realizada principalmente por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
A colheita deve acontecer quando a ala da sâmara muda do verde para o marrom. O próprio fruto é a unidade de disseminação, sendo recomendável remover a ala no momento da semeadura ou do armazenamento. Cada quilo reúne de 5.400 a 6.300 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. A viabilidade natural é curta, durando cerca de 30 dias; entretanto, o acondicionamento em sacos plásticos semipermeáveis mantidos em câmara fria a 4 ºC (± 1 ºC) permitiu conservar 55,9% da germinação inicial (de 54,5%) após 360 dias de armazenamento.
A semeadura é feita diretamente em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com início da emergência por volta do oitavo dia após o plantio. A sapuva forma nódulos espontaneamente em solos provenientes de bracatingais e apresenta baixa incidência de micorriza arbuscular.
Espécie de comportamento heliófilo a esciófilo, tolera temperaturas baixas. Costuma desenvolver tronco curto com bifurcações e brotações na base (multitroncos) e fuste inclinado. Como sua desrama natural é deficiente, exige podas frequentes e periódicas, especialmente de condução. Pode ser conduzida em plantio puro a pleno sol, com crescimento satisfatório embora forma inadequada; em plantio misto a pleno sol, associada a pioneiras, sobretudo para corrigir a forma inicial do fuste; e em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na vegetação secundária plantadas em linhas. Rebrota a partir de raízes gemíferas, principalmente em áreas que sofreram queimadas. Em Minas Gerais é recomendada para sombreamento de pastagens, oferecendo sombra média, com diâmetro de copa de 5 a 6 m. É indicada ainda para a restauração de ambientes ripários e a recuperação de áreas degradadas de preservação permanente.
Apresenta crescimento lento. Em Santa Helena, no Paraná, registrou aos 8 anos de idade um incremento médio anual em volume de 3,60 m³/ha/ano.
A precipitação pluvial média anual varia de 1.000 mm a 3.700 mm (esta na Serra de Paranapiacaba, em São Paulo). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul, com exceção do norte e noroeste do Paraná, onde são periódicas, assim como nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula na Região Sul (salvo norte e noroeste paranaense), moderada no inverno no oeste de São Paulo, norte do Paraná e sul de Mato Grosso do Sul, e de moderada a forte no inverno na Bahia e no oeste de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 16,5 ºC (Curitiba, PR) e 23,7 ºC (Rio de Janeiro, RJ); a média do mês mais frio entre 12,2 ºC e 21,3 ºC e a do mês mais quente entre 19,9 ºC e 26,5 ºC, nas mesmas localidades. A mínima absoluta registrada foi de -7,4 ºC (Rio Negro, PR), podendo chegar a -10 ºC ao nível da relva. O número de geadas por ano varia de 0 a 11 em média, com máximo absoluto de 33 na Região Sul. Segundo a classificação de Köppen, ocorre nos tipos Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb, conforme a região.
Adapta-se tanto a solos úmidos quanto a solos rasos e rochosos.