Foto: Alex Popovkin, Bahia, Brazil (CC BY 2.0) via Wikimedia
Sapucaia
Lecythis pisonis
- até 50 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: sapucaia-de-pilão, castanha-de-sapucaia, cambuca-de-macaco, combuca-de-macaco, marmita-de-macaco, sapucaia-vermelha, caçamba-de-macaco, caçambeira, castanha-sapucaia, castanheira, cumbuca-de-macaco, marmiteira, coco-de-sapucaia
Botânica
Pelo sistema de Cronquist, a sapucaia pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Lecythidales e família Lecythidaceae. Seu nome científico é Lecythis pisonis Cambessèdes, descrito em 1829. A espécie reúne uma sinonímia extensa, sendo os nomes mais citados na literatura Lecythis ollaria, Lecythis urnigera e Lecythis amazonum. O nome do gênero vem do grego lecythos, que designa uma panela de óleo, em referência ao fruto, parecido com um pote de tampa que se solta ao amadurecer. Já o epíteto pisonis homenageia o médico holandês Guilherme Piso, que liderou a missão científica durante o domínio holandês no Brasil.
Árvore que perde as folhas na estação seca, podendo alcançar perto de 50 m de altura e 150 cm de diâmetro do tronco (DAP) quando adulta. O tronco é reto e bastante robusto, com fuste de até 15 m, podendo ou não exibir sapopemas, e as raízes são grossas e superficiais. A ramificação é dicotômica e a copa, ampla e densa, tem diâmetro maior do que a própria altura da árvore. A folhagem é muito ornamental: mesmo sendo decídua, as folhas novas surgem com tons marrons ou rosados e ficam verde-brilhantes ao amadurecer. A casca externa é pardo-escura, profundamente sulcada, com cristas planas e sinuosas e manchas brancas; já a casca interna é esbranquiçada, clara e dura. As folhas são alternas, de formato ovado a elíptico, com base obtusa ou arredondada e ápice acuminado, margens crenuladas e 10 a 20 pares de nervuras secundárias; medem de 5 a 18 cm de comprimento por 3 a 8 cm de largura, com pecíolo subalado de 4 a 12 mm. As flores, reunidas em panículas terminais densas, têm coloração azul-escura ou violeta, cerca de 2 cm de comprimento e seis pétalas que variam de 17 a 35 mm de comprimento. Um mesmo indivíduo pode produzir de algumas centenas a mais de 60 mil flores. O fruto é um pixídio lenhoso e deiscente, mais ou menos cilíndrico, de 12 a 30 cm de comprimento por 7 a 20 cm de largura, pesando até 2 kg; suas paredes têm cerca de 3 cm de espessura e abrigam de 10 a 40 sementes presas a uma coluna central. Há frutos arredondados, mais frequentes ao norte da área de distribuição, e frutos mais alongados, comuns ao sul, podendo ambos os tipos surgir numa mesma árvore. As sementes são angulosas, duras, escuras e brilhantes, com 6 a 12 sulcos, medindo de 4 a 6 cm por 2,5 a 3 cm, e envoltas por um arilo polposo esbranquiçado; a amêndoa é comestível, oleaginosa e de sabor agradável.
Uso e ecologia
A madeira é densa (0,85 a 1,00 g/cm³ a 15% de umidade), com cerne castanho que varia de amarelado a avermelhado e alburno branco bem demarcado. Apresenta superfície quase opaca e lisa, textura média, grã direita, sabor levemente adstringente e cheiro indistinto. É naturalmente durável e resistente a organismos xilófagos quando não fica enterrada, mas absorve mal as soluções preservantes e, apesar de difícil de trabalhar, recebe bom acabamento. É empregada em construções externas expostas como postes, estacas, mourões e dormentes, na construção civil (vigas, caibros, ripas, tacos, assoalhos, marcos de portas e janelas), em peças torneadas, carrocerias, cabos de ferramentas, construção naval, carpintaria, marcenaria e até em arcos de instrumentos musicais. Também serve para produção de carvão, mas é inadequada para celulose e papel. As sementes oleaginosas são comestíveis, vendidas em mercados locais e tão saborosas quanto as da castanha-do-brasil, embora não tenham a mesma importância econômica por serem muito disputadas pelos animais e de colheita difícil; as folhas são forrageiras. Da casca do tronco retira-se estopa para calafeto. O fruto lenhoso é usado na zona rural como vaso decorativo e recipiente para compotas.
Trata-se de uma espécie secundária inicial que costuma alcançar o dossel superior ou se destacar como árvore emergente nas florestas primárias, em ambientes inundáveis periodicamente ou não. Nas chapadas do Piauí Central aparece com pouca frequência, sobretudo perto de encostas íngremes, e no Pará é encontrada em florestas secundárias de 20 a 40 anos. No bioma Mata Atlântica ocupa a Floresta Estacional Semidecidual submontana do Vale do Rio Doce (MG) e a Floresta Ombrófila Densa das terras baixas na Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Sergipe, onde chega a seis indivíduos por hectare, além da vegetação de restinga na Paraíba. No bioma Amazônia ocorre na Floresta Ombrófila Densa de terra firme ou de várzea, no Amapá e no Amazonas, com cerca de um indivíduo por hectare. Aparece ainda em ambientes ripários no Rio de Janeiro e em brejos de altitude do Nordeste.
A floração varia conforme a região: de janeiro a junho no Pará; de julho a novembro no Espírito Santo; de julho a janeiro em Tocantins; de agosto a janeiro em Minas Gerais, Pernambuco e Bahia; em setembro no Amazonas; de outubro a dezembro no Rio de Janeiro e em São Paulo; e de novembro a dezembro no Maranhão. Introduzida no litoral de Santa Catarina, floresceu em novembro. As flores surgem junto com a brotação, e as folhas novas permanecem vermelhas durante toda a floração. Os frutos amadurecem cerca de sete meses após a fecundação: de dezembro a abril em Pernambuco e São Paulo; de março a abril em Minas Gerais; de março a maio na Bahia; de julho a setembro no Espírito Santo; e em agosto no Rio de Janeiro.
A espécie é monóica e tem como provável polinizador a abelha Xylocopa frontalis. A dispersão é feita por animais, principalmente morcegos e macacos, que se alimentam dos arilos e espalham as sementes. Quando o opérculo do fruto cai, leva parte da coluna central, mas as sementes ficam suspensas pelos funículos por algum tempo. As sementes são uma fonte importante de alimento para a fauna, sobretudo para os macacos.
Plantio e silvicultura
A colheita deve ser feita assim que os frutos se abrem, já que as sementes continuam presas às paredes internas pelos funículos envoltos em arilos carnosos. Cada quilo reúne de 122 a 280 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. O comportamento de armazenamento é ortodoxo: partindo de 51% de germinação inicial, as sementes secas e guardadas a 5 ºC e a -18 ºC mantiveram, respectivamente, 55% e 60% de germinação. Em laboratório, recomenda-se germinação com temperaturas alternadas de 20 ºC a 30 ºC, alternância de luz (8 horas de luz e 16 de escuro) e substrato em rolo de papel, condição que resultou em 54% de germinação com umidade de 8,7%.
Indica-se semear uma única semente por recipiente, em saco de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes grandes de polipropileno. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar; a emergência começa entre 30 e 90 dias após a semeadura, com taxa de até 68%. As mudas atingem o tamanho adequado para plantio por volta de oito meses após a semeadura.
A sapucaia é heliófila e sensível ao frio. Costuma ter forma irregular, sem dominância apical definida e com ramos pesados, não fazendo desrama natural satisfatória, por isso exige podas de condução e de galhos frequentes e periódicas. Recomenda-se o plantio misto, podendo-se semear duas sementes por cova diretamente no campo; a espécie rebrota com vigor da touça ou da cepa. É muito comum na região cacaueira do sul da Bahia, onde é mantida como árvore de sombreamento nos cacauais mais antigos.
O crescimento da sapucaia é moderado.
A precipitação anual nas áreas de ocorrência vai de 1.000 mm, no Rio de Janeiro, a 2.800 mm, no Pará, com chuvas uniformes no litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro e periódicas na maior parte dos demais locais. A deficiência hídrica varia de nula, no litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro, a forte, no Piauí, passando por valores pequenos a moderados em vários estados. A temperatura média anual fica entre 21,2 ºC (Caratinga, MG) e 26,7 ºC (Manaus, AM); a mínima absoluta registrada foi de 1,1 ºC (Ubatuba, SP) e não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, abrange os climas Af, Am, As, Aw e Cwa.
Desenvolve-se de preferência em áreas de baixada, em solos férteis, úmidos e ricos em matéria orgânica.