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Foto de Sangra-d'água

Foto: Valerio Pillar from Porto Alegre, Brazil (CC BY-SA 2.0) via Wikimedia

Sangra-d'água

Croton urucurana

Euphorbiaceae Mata AtlânticaCerradoPantanal
  • até 15 mAltura
  • Médio portePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: sangria-d'água, sangue-d'água, sangue-de-drago, sangue-de-dragão, sangue-do-diabo, sangue-da-água, sangue-de-andrade, sanguinho, aldrago, velame, capixingui, urucurana

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema do APG III, a sangra-d'água pertence à divisão das angiospermas, clado das eurosídeas I, ordem Malpighiales (em Cronquist, era enquadrada em Euphorbiales), família Euphorbiaceae e subfamília Crotonoideae. O binômio é Croton urucurana Baill., descrito por Baillon e publicado pela primeira vez em Adansonia, em 1864. O nome do gênero vem do grego kroton, que significa carrapato, em referência à semelhança entre a semente e esse animal; os antigos gregos já chamavam de croton a mamoneira (Ricinus communis), também euforbiácea, pela mesma razão. Já o epíteto urucurana tem origem indígena. A espécie recebe muitos nomes regionais no Brasil: em Goiás e no Mato Grosso do Sul é chamada de sangra-d'água; em Minas Gerais, de aldrago, sangra-d'água, sangria-d'água, sangue-d'água, sangue-de-drago, sangue-do-diabo e velame; no Paraná, de capixingui; em Santa Catarina, de sangue-da-água, sangue-de-dragão, sangue-de-drago e urucurana; no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, de sangue-de-drago; e em São Paulo, de capixingui, sangra-d'água, sangue-de-andrade, sangue-de-drago e sanguinho.

Descrição botânica

Trata-se de uma planta decídua que varia de arbusto a árvore. Os maiores exemplares chegam a cerca de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) quando adultos, mas em geral é uma arvoreta de aproximadamente 4 m, podendo ocorrer ainda em porte arbustivo, com apenas 1 m. O tronco é cilíndrico, um pouco tortuoso e bastante ramificado, com fuste normalmente curto. A ramificação é dicotômica e a copa é aberta, com ramos cobertos de tomento e tricomas estrelados. A casca atinge até 14 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é lisa e esbranquiçada, com fissuras curtas e estreitas, enquanto a interna tem textura arenosa e libera um látex que, ao entrar em contato com o ar, fica resinoso e adquire cor vermelha semelhante a sangue, característica que explica vários de seus nomes populares. As folhas são simples, alternas, fortemente discolores, de consistência papirácea a cartácea e formato cordiforme, com ápice caudado a acuminado, base cordada a quase truncada e margem inteira; a lâmina mede de 2,5 a 31 cm de comprimento por 2 a 10,5 cm de largura e apresenta nervação actinódroma perfeita marginal basal. A face superior é estrigosa, com tricomas estrelados, e a inferior é tomentosa, com tricomas porrecto-estrelados; há de 2 a 6 glândulas sésseis e pateliformes no ápice do pecíolo e na face superior da folha. O pecíolo mede de 2 a 26,5 cm, com 2 a 4 estípulas foliáceas de 1 a 1,5 cm. Com a idade, as folhas adquirem tons avermelhados. A inflorescência é um pseudo-racemo bissexuado de 10 a 30 cm, com agrupamentos distintos de flores masculinas e femininas. As flores estaminadas são creme a creme-esverdeadas e medem de 2 a 6 mm; as pistiladas, também creme, medem de 3 a 7 mm; predominam as masculinas, com algumas femininas até a base. O fruto é uma cápsula globosa de deiscência septícida, cor creme-esverdeada a ocrácea, de 5 a 6 mm de comprimento por 4 a 6 mm de diâmetro, com 3 sementes. As sementes são elipsoides, de testa castanho-clara e rugosa, com carúncula em forma de leque, medindo de 3 a 4 mm por 2,5 a 3 mm e pesando cerca de 8 mg.

Uso e ecologia
recuperação de áreaspaisagismomedicinalapícolamadeireiro
Produtos e utilizações

A madeira é moderadamente densa (densidade aparente de 0,65 g/cm³), esbranquiçada, de grã direita e durabilidade média quando exposta ao tempo, mas tem pouco valor econômico. Pode servir eventualmente como lenha, ainda que de qualidade ruim, e não se presta à produção de celulose e papel. A espécie é melífera: seu pólen já foi identificado em amostras de mel de Apis mellifera no município de Picos (PI). Tem ainda longa tradição de uso medicinal, registrado desde o século 17, quando um naturalista espanhol notou que os povos nativos das Américas, do México ao Peru e ao Equador, já conheciam as propriedades curativas de sua resina. Indígenas da Amazônia há séculos empregam a resina e a casca como remédio natural; na medicina popular, o látex dissolvido em álcool é usado em feridas e úlceras de pele. Pesquisadores da USP verificaram que o látex da casca do tronco tanto estanca o sangue de feridas quanto auxilia na cicatrização. No interior de Goiás e de Minas Gerais, sobretudo no Vale do Jequitinhonha, vaqueiros usam o cozimento das folhas ou o macerado das cascas (diluído em álcool ou cachaça) para estancar sangramentos de animais mordidos por morcegos hematófagos e para limpar bicheiras e feridas dos rebanhos. Vale ressaltar que a planta é tóxica para animais e que essas informações são apenas registro de pesquisa, não substituindo cuidados médicos nem servindo como prescrição. No paisagismo, seu porte vistoso e a folhagem prateada que se torna vermelho-alaranjada com o tempo tornam a espécie adequada à arborização de cidades, parques e pátios. Também é recomendada para a restauração de matas ciliares e ambientes ripários, tolerando encharcamento e inundação em áreas com lâmina d'água de até 1 m.

Aspectos ecológicos

A sangra-d'água é uma pioneira oportunista, de ciclo de vida curto. Costuma predominar em ambientes fluviais, ripários e de várzeas semidevastadas, bem como em vegetação secundária, colonizando áreas alteradas, onde pode formar pequenos agrupamentos quase puros em capoeirões; é muito rara no interior de florestas primárias. Já foi observada regenerando-se em um fragmento de Floresta Estacional Semidecidual Montana, em Viçosa (MG). Aparece em diversas formações: na Mata Atlântica, ocorre na Floresta Estacional Decidual (formação Submontana, em Minas Gerais, no Alto-Uruguai catarinense e no noroeste gaúcho) e na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações Aluvial (com até 27 indivíduos por hectare em Minas Gerais), das Terras Baixas, Submontana (MG e PR), Montana (até 14 indivíduos por hectare em MG) e Alto-Montana (MG); também surge na Floresta Ombrófila Densa, na formação Alto-Montana mineira (até 8 indivíduos por hectare). No Cerrado, está presente na Savana Florestada (cerradão) de Minas Gerais, e no Pantanal aparece em área inundável do Mato Grosso do Sul. Ocorre ainda em matas ciliares do Distrito Federal, de Goiás, do Mato Grosso do Sul, de Minas Gerais, do Paraná e de São Paulo, onde integra o estrato superior, além de ecótonos entre savana e floresta estacional e de matas de brejo.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: de agosto a novembro no Paraná, em outubro em Minas Gerais, de dezembro a janeiro na Bahia, de dezembro a maio em Santa Catarina, em janeiro no Mato Grosso, de abril a maio no Distrito Federal, em maio no Mato Grosso do Sul e de dezembro a junho em São Paulo. A frutificação ocorre quase ao mesmo tempo que a floração e começa cedo, por volta de 2 anos após o plantio.

Fauna associada

Espécie monoica, é polinizada por abelhas, em especial Apis mellifera, e por diversos insetos pequenos. A dispersão é variada: autocórica, com deiscência explosiva, além de barocórica, hidrocórica e zoocórica, sobretudo por aves. As sementes costumam ser consumidas do verão ao outono, atraindo pombas (Columba cayennensis) e inhambus (Crypturellus spp.), entre outros animais.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos são colhidos diretamente da árvore quando a maioria começa a abrir naturalmente, indicada pela cor marrom-escura. Depois da colheita, devem secar ao sol sobre tela fina para completar a abertura e liberar as sementes; como a deiscência é explosiva, convém cobri-los com telado ou peneira para evitar perdas. Cada quilo contém de 103.000 a 120.000 sementes. Recomenda-se, como tratamento pré-germinativo, imergir as sementes em água à temperatura ambiente por 2 a 12 horas antes da semeadura, o que acelera e uniformiza a germinação. As sementes têm comportamento fisiológico ortodoxo e podem ser guardadas por até 12 meses em saco plástico, em câmara fria a 18 °C e 60% de umidade relativa.

Produção de mudas

A semeadura deve ser rápida, para não comprometer a viabilidade. As sementes são colocadas em canteiros semissombreados com substrato organo-argiloso, cobertas por uma fina camada de substrato peneirado e irrigadas duas vezes ao dia. O desenvolvimento em viveiro é veloz: em cerca de 4 meses as mudas atingem porte para ir a campo. A germinação é epígea e as plântulas, fanerocotiledonares; a emergência ocorre de 10 a 30 dias após a semeadura, com taxa irregular, podendo ultrapassar 80%, embora haja registro de alto índice de sementes chochas. As raízes abrigam fungos micorrízicos arbusculares, principalmente Glomus macrocarpum e G. claroideum; estudos indicam ausência de colonização no campo, mas colonização alta em casa de vegetação e forte resposta à inoculação. A propagação vegetativa por estacas lenhosas mostra-se promissora, com enraizamento de até 23%. As mudas podem ser produzidas a pleno sol, com substratos à base de húmus e casca de arroz carbonizada; sob 70% de sombreamento acumulam mais biomassa, altura e área foliar, mas o sistema radicular se desenvolve melhor a pleno sol, e mais sombra tende a elevar a concentração de clorofila e reduzir a atividade fotossintética.

Características silviculturais

Heliófila e resistente a geadas fracas, a sangra-d'água tem crescimento variável e derrama natural insatisfatória. O plantio mais indicado é o puro, a pleno sol. A espécie rebrota com vigor a partir da touça ou cepa.

Crescimento e produção

Em campo o desenvolvimento é rápido, alcançando facilmente 5 m de altura aos 2 anos de idade.

Clima

A precipitação média anual onde ocorre vai de 800 mm, no Piauí, a 1.900 mm, no Paraná, com chuvas periódicas e deficiência hídrica moderada no norte paranaense. A temperatura média anual oscila entre 18,1 °C (Diamantina, MG) e 29,4 °C (Picos, PI); a média do mês mais frio fica entre 11,5 °C (Itatiaia, RJ) e 26 °C (Picos, PI), e a do mês mais quente, entre 20 °C (Diamantina) e 30,9 °C (Picos). A mínima absoluta registrada foi de -7 °C, em Tenente Portela (RS), em junho de 1987. As geadas são raras no sul de Minas Gerais, no noroeste do Paraná e do Rio Grande do Sul e em São Paulo, e ausentes no restante da área de ocorrência. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Am, Aw, Cfa, Cwa e Cwb, conforme a região.

Solos

A espécie cresce em solos permanentemente úmidos, encharcados ou brejosos e sujeitos a inundação periódica, sendo pouco comum em matas de terra firme; o pH dos solos varia de 4,3 a 6,1. Estudos sobre nutrição mostraram que a falta de micronutrientes provoca anormalidades visíveis nas mudas, com os primeiros sintomas ligados à carência de cobre, manganês e zinco, seguidos por boro, ferro e molibdênio, sendo que a ausência de boro, manganês e zinco reduz mais o crescimento em altura e o diâmetro do colo. Entre os macronutrientes, a omissão de nitrogênio, cálcio e magnésio foi a que mais prejudicou o desenvolvimento das mudas em altura, diâmetro e número de folhas e ramos.