Foto: Sinaloa Silvestre (CC0) via GBIF
Saboneteira
Sapindus saponaria
- até 16 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: sabão-de-soldado, sabonete, saboeiro, sabão-de-gentio, sabão-de-macaco, sabão-de-mico, saboneteiro, saboeira, árvore-de-sabão, pau-de-sabão, sabonete-de-soldado, jequitinguaçu, guiti, rita, fruta-de-sabão
Botânica
Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Eurosídeas II, ordem Sapindales e família Sapindaceae, dentro do gênero Sapindus. O binômio Sapindus saponaria foi descrito por Lineu em 1753 (Sp. pl. 367). São reconhecidos como sinônimos botânicos Sapindus indica Poir., Sapindus marginatus Willd. e Cupania saponaria Pers. O nome do gênero une os termos latinos sapo (sabão) e indicus (índico), referência ao uso dos frutos como sabão; já o epíteto saponaria também deriva do latim e significa "de sabão", o que explica nomes populares como saboeiro e pau-de-sabão.
É uma árvore decídua que, na fase adulta, pode chegar perto de 16 m de altura e 80 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo), embora também se encontrem indivíduos com cerca de 3 m. O tronco varia de reto a um pouco tortuoso, com fuste curto de no máximo 7 m e base levemente acanalada. A ramificação é dicotômica e a copa, densa e irregular; os ramos jovens têm coloração esbranquiçada e fina pilosidade, tornando-se glabros, horizontais a ascendentes, castanho-estriados e providos de lenticelas com a idade. A casca atinge até 15 mm de espessura, com superfície externa lisa (por vezes áspera), pardo-grisácea a pardo-amarelada, com lenticelas horizontais e dividida em placas pequenas e irregulares; a casca interna é creme-rosada, de textura arenosa e sabor amargo. As folhas são compostas, alternas, paripinadas (eventualmente com folíolo terminal) e dispostas em espiral, medindo de 10 cm a 35 cm de comprimento com o pecíolo, reunindo de 2 a 6 pares de folíolos oblongo-lanceolados e assimétricos de 4 cm a 14 cm por 1,3 cm a 5 cm; a raque costuma ter alas de até 1 cm e as folhas exalam odor de carne fresca. As inflorescências são panículas terminais amplas e pubescentes, de 15 cm a 35 cm, com tricomas amarelados a ocráceos e numerosas flores pequenas, brancas a amarelas e quase inodoras. As flores masculinas, mais numerosas e perfumadas, medem de 4 mm a 5 mm de diâmetro, enquanto as femininas medem de 4 mm a 6 mm. Os frutos são esquizocárpicos, em forma de baga multiglobosa de 1 cm a 2 cm de diâmetro, amarelados e translúcidos a marrom-arroxeados conforme amadurecem, carnosos, com mesocarpo amargo e mucilaginoso, contendo uma única semente. As sementes são globulosas, pretas, duras, planas na base, de 8 mm a 13 mm de diâmetro e altamente tóxicas.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,78 a 0,80 g/cm³), de cor clara tanto no cerne quanto no alburno, que pouco se distinguem entre si, com textura grossa, superfície pouco brilhante quando polida e boa trabalhabilidade; em contato com o solo, porém, tem baixa durabilidade. Presta-se à fabricação de brinquedos e caixotaria e, no México, ao cabo de ferramentas agrícolas, além de produzir carvão e lenha de boa qualidade — não sendo, contudo, adequada para celulose e papel. O grande destaque da planta é a saponina, substância de propriedades semelhantes às do sabão presente em toda a árvore e especialmente nos frutos, que chegam a 37% de teor; triturados e misturados à água, esses frutos servem para lavar roupas e até para atordoar peixes por asfixia. Frutos e sementes também atuam como inseticida natural e fornecem óleo usado na produção de sabonetes, enquanto as folhas têm aplicação no preparo de herbicidas naturais. As sementes são empregadas em artesanato: viram colares, pulseiras e brincos (as chamadas biojoias) e compõem instrumentos de percussão como maracas e paus-de-chuva, exportados a partir da Bahia e do Centro-Oeste. No uso ornamental, a espécie é apreciada na arborização de cidades como Brasília e no Espírito Santo. Na medicina popular, extratos e xaropes de casca, raiz e frutos são empregados como calmante, adstringente, diurético, antitussígeno, expectorante, tônico e depurativo do sangue; no Paraguai, o óleo da semente é usado contra picadas de arraia e, no Ceará, o cozimento da casca do fruto trata pequenos ferimentos. Essas indicações medicinais são apenas registro de pesquisa e não substituem orientação médica.
Trata-se de uma secundária inicial ou clímax exigente em luz, que ocupa o estrato médio das formações vegetais e é bastante abundante na vegetação secundária. Sua regeneração natural é frequente, como observado na Floresta Nacional Mário Xavier, em Seropédica (RJ). Aparece no bioma Amazônia em Floresta Ombrófila Densa submontana no Pará (até três indivíduos por hectare); na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Semidecidual de terras baixas e submontana no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e norte de Minas Gerais, além de Floresta Ombrófila Densa de terras baixas no Rio de Janeiro; na Caatinga, em Savana-Estépica do norte de Minas Gerais e de Pernambuco; e no Pantanal Mato-Grossense, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde é elemento importante da flora. Também ocorre em matas ciliares de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná e Pernambuco, em brejos de altitude do Nordeste e em florestas estacionais deciduais e semideciduais.
A floração acontece de março a abril no Rio de Janeiro, de março a julho em São Paulo, em maio no Maranhão e de maio a junho na Bahia. Os frutos amadurecem de julho a dezembro em São Paulo e de outubro a novembro no Espírito Santo e no Rio de Janeiro.
Espécie monoica, é polinizada sobretudo por abelhas, com destaque para a tiúba-do-maranhão (Melipona compressipes fasciculata). A dispersão dos frutos e sementes ocorre por zoocoria, especialmente por morcegos como Artibeus lituratus (Phyllostomidae), e a avifauna também colabora na disseminação das sementes. As abelhas aproveitam o néctar de suas flores.
Plantio e silvicultura
A produção anual de sementes viáveis é moderada e elas são amplamente disseminadas pelas aves. Em geral, são coletadas no chão já maduras, removendo-se o arilo antes da semeadura. Cada quilo reúne de 1.320 a 1.870 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. O comportamento fisiológico é ortodoxo — com teor de umidade registrado de 5,67% — e o armazenamento deve ser feito em sacos plásticos, em câmara fria (18 °C e 60% de umidade relativa), por até 8 meses.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno de 120 cm³. A germinação é epígea e as plântulas, fanerocotiledonares; a emergência começa entre 10 e 90 dias após a semeadura, com taxa de 45% a 68%, e as mudas ficam aptas ao plantio em 3 a 4 meses. O gênero Sapindus é tipicamente ectomicorrízico, mas também forma associação com fungos micorrízicos arbusculares; a combinação de superfosfato com os fungos Glomus etunicatum e Gigaspora margarita chegou a elevar a resposta em 481%.
Quando jovem, comporta-se como espécie de luz difusa ou mesmo esciófila, regenerando-se bem à sombra, e tolera geadas fracas. Apresenta ramificação pesada e não faz derrama natural, exigindo poda de condução. Não é indicada para plantio a céu aberto: o recomendado é estabelecê-la em vegetação matricial arbórea, como capoeiras e capoeirões, abrindo-se picadas. Rebrota com vigor a partir da touça. Para fins ambientais, é apropriada à restauração de matas ciliares — onde suporta inundação — e às margens de reservatórios de hidrelétricas, por tolerar solos muito úmidos; recomenda-se seu uso na recuperação de áreas degradadas por semeadura direta.
Há poucos dados disponíveis sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas o crescimento é considerado lento.
A precipitação média anual varia de 600 mm, em Pernambuco, a 2.000 mm, no Acre e no Pará, com chuvas periódicas; em Mérida, na Venezuela, fica em torno de 537 mm. A deficiência hídrica é moderada no Acre e no Pará, e na Argentina a planta é tida como resistente à seca. A temperatura média anual oscila entre 19,3 °C (Juiz de Fora, MG, e São Paulo, SP) e 26,7 °C (Ituiutaba), com mínima absoluta de -3 °C registrada em Coxim (MS). As geadas são ausentes na quase totalidade da área de ocorrência, tornando-se raras no extremo noroeste do Paraná, sul de Mato Grosso do Sul e São Paulo. Pela classificação de Köppen, predominam os tipos Aw, BS'hW, Cfa e Cwa.
Adapta-se a solos originados tanto de material calcário quanto de material ígneo ou aluvial. No sudeste do Pará, é encontrada sobre Terra Roxa Estruturada.