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Quixabeira

Sideroxylon obtusifolium subsp. obtusifolium

Sapotaceae CaatingaMata AtlânticaPantanalCerrado
  • até 20 mAltura
  • Grande portePorte
Raras / ameaçadasFrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: quixaba, quixaba-preta, brinco-de-suim, rompe-gibão, laranjinha, laranjinha-preta, leiteiro-preto, guajuviraí, coronilha, sombra-de-touro, saputi-quiaba, coca, maçaranduba-da-praia, miri, sacutiaba

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a quixabeira pertence à divisão Angiospermae, clado das Asterídeas, ordem Ericales e família Sapotaceae, dentro do gênero Sideroxylon. O nome científico completo é Sideroxylon obtusifolium (Roemer & Schultes) Pennington subsp. obtusifolium, descrito em 1990 na obra Flora Neotropica, Monograph 52, de Pennington. A espécie reúne ampla sinonímia botânica, sendo as referências mais citadas Bumelia obtusifolia Roemer & Schultes, Bumelia sartorum Martius e Bumelia obtusifolia var. excelsa (A. de Candolle) Miquel. Quanto à etimologia, o gênero Sideroxylon traduz-se como “madeira de ferro”, enquanto o epíteto obtusifolium remete a “folha obtusa” ou de ápice cortado.

Descrição botânica

Trata-se de uma planta de hábito que varia de arbustivo a arbóreo, com folhagem semidecídua a decídua. No Semiárido e nas áreas áridas do Nordeste, porém, figura entre as poucas espécies que mantêm folhas mesmo durante a estação seca. No Brasil, os maiores exemplares chegam a aproximadamente 20 m de altura e 60 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) quando adultos; fora do país, podem atingir cerca de 25 m e 100 cm de DAP. O tronco é deliquescente, com fuste geralmente curto, de até 10 m, muitas vezes apresentando caneluras marcantes e sapopemas na base. A ramificação é dicotômica e a copa, densa e ovalada, com ramos tortuosos de pontas pendentes, armados por espinhos geminados terminais longos e rígidos. A casca pode chegar a 27 mm de espessura: externamente (ritidoma) é acinzentada, áspera, rugosa e com fissuras superficiais; internamente, é roxo-rósea e libera látex branco. As folhas são simples, opostas a alternas, de início fasciculadas em raminhos curtos, com consistência de cartácea a coriácea, glabras e brilhantes na face superior, medindo de 1,5 cm a 6,5 cm de comprimento por 0,5 cm a 3,5 cm de largura, sobre pecíolo de 3 mm a 9 mm. As inflorescências surgem em fascículos axilares, reunindo de 1 a 20 flores na axila ou sobre o raminho axilar. As flores são hermafroditas, discretas, pequenas (2 mm a 7 mm), de cor branco-esverdeada e perfumadas, com odor enjoativo, e corola branca, tubular, de cinco lóbulos. Os frutos, do tipo bacídio, são axilares, ovoides, lisos e brilhantes, amarelos antes de amadurecer e roxo-escuros, quase negros, quando maduros, medindo de 6 mm a 13 mm; são comestíveis, com polpa esverdeada, suculenta, adocicada e de sabor agradável, látex viscoso e uma única semente. A semente é ovoide ou fusiforme, dura, de cor castanha a quase negra, com 5 mm a 11 mm de comprimento e uma depressão de manchas mais claras na base, que substitui a faixa longitudinal fosca comum à família e ausente nesta espécie.

Uso e ecologia
madeireiroalimentíciomedicinalapícolapaisagismorecuperação de áreas
Produtos e utilizações

Os frutos, chamados de quixabas, são comestíveis e bastante apreciados pelas populações do sertão nordestino; no norte da Argentina são considerados saborosos, embora o consumo em excesso possa irritar a mucosa bucal, e no Paraguai os frutos verdes fornecem uma espécie de goma de mascar. Folhas e frutos servem ainda de forragem, sendo a planta muito pastejada por caprinos na região de Xingó (Alagoas, Bahia e Sergipe). A madeira é densa, com massa específica aparente de 0,88 g/cm³ a 15% de umidade (0,83 g/cm³ fora do Brasil), de coloração dourado-ocre e pouca diferença entre alburno e cerne; depois de trabalhada, exibe textura fina e veteado atraente, mas seca com dificuldade devido à elevada contração volumétrica, próxima de 16,3%. É empregada em construção civil, marcenaria, peças torneadas e, sobretudo, em entalhes como as “carrancas” do Vale do São Francisco, além de render lenha e carvão de excelente qualidade; já para celulose e papel é inadequada. A casca contém triterpenos (taraxerona, taraxerol e eritridiol), ácido bássico e esteroides. Na medicina caseira do interior nordestino, as cascas do tronco e das raízes são tidas como adstringentes, tônicas, anti-inflamatórias e antidiabéticas, usadas em infusão, maceração ou decocto contra inflamações ovarianas e diabetes; em Goiás e no Distrito Federal, a casca é usada em gargarejos contra laringite e faringite e no controle do diabetes. Vale ressaltar que essas indicações são apenas registro factual de pesquisa e não substituem orientação médica, ainda que estudos farmacológicos em ratos tenham confirmado efeitos anti-inflamatórios e hipoglicemiantes.

Aspectos ecológicos

A quixabeira é classificada como espécie secundária inicial. É muito comum em matas não inundáveis do Pantanal Mato-Grossense sobre solos férteis, como os capões de solo de conchas do Abobral, ocorrendo também na morraria calcária. Possui boa capacidade de regeneração natural: foi registrada em remanescente de Floresta Estacional Decidual em Santa Maria (RS) e em povoamento de Eucalyptus urophylla em Selvíria (MS). Na Caatinga (Savana-Estépica) aparece em Alagoas, Bahia, norte de Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe, chegando a representar 82% da composição florística em uma área do oeste potiguar. Ocupa ainda campos de dunas arenosas na Bahia e no Rio Grande do Norte, Floresta Estacional Decidual de terras baixas e submontana na Mata Atlântica, áreas do Pantanal em Mato Grosso do Sul, além de matas ciliares, restingas, capões, chaco, florestas serranas e inselbergs do Semiárido. Em dunas antigas e isoladas, forma populações esparsas com indivíduos de copa globosa e baixa.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: de maio a setembro na Bahia, de outubro a dezembro no Rio Grande do Sul e em fevereiro no Mato Grosso do Sul. Em estudo fenológico com nove espécies, a quixabeira foi a mais sincronizada, com cerca de 90% dos indivíduos florescendo em outubro. Os frutos amadurecem de novembro a fevereiro no Rio Grande do Sul.

Fauna associada

A espécie é hermafrodita e tem na abelha Apis mellifera seu principal polinizador. Recebe ainda visitas de insetos das ordens Hymenoptera, Lepidoptera, Coleoptera, Diptera e Thysanoptera, sendo também polinizada pela abelha Xylocopa ordinaria, pela vespa Brachygastra lecheguana e pela borboleta Isanthrene incendiaria. A dispersão de frutos e sementes ocorre sobretudo por zoocoria, em especial por ornitocoria, ou seja, pela avifauna.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair, ou recolhidos do chão logo após a queda. Em seguida, são acumulados em sacos plásticos até a decomposição parcial, o que facilita a extração das sementes por lavagem em água corrente. Cada quilo reúne cerca de 2.000 sementes. A dormência decorre principalmente da impermeabilidade do tegumento, superada com mais eficiência pela imersão em ácido sulfúrico por 30 minutos. Por ser uma espécie recalcitrante, as sementes perdem rapidamente a viabilidade, mas podem ser guardadas em recipientes de vidro em condição ambiente até o uso.

Produção de mudas

Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes de polipropileno de tamanho grande. Quando preciso, a repicagem é feita de 2 a 3 semanas após a germinação. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência acontece de 30 a 50 dias após a semeadura. O poder germinativo costuma ser baixo, de até 50%, e as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 9 meses depois da semeadura.

Características silviculturais

A quixabeira é uma espécie esciófila e sensível a baixas temperaturas, de crescimento não monopodial. Apresenta boa derrama natural, mas a poda dos galhos é indicada para obter madeira sem nós. Tentativas de plantio puro a pleno sol fracassaram; já em plantio misto a pleno sol e em solo de alta fertilidade, mostrou sobrevivência, forma e crescimento satisfatórios. Recomenda-se plantio em linhas ou grupos em vegetação matricial, em faixas abertas de florestas secundárias ou em programas de enriquecimento e adensamento. Em sistemas agroflorestais na Caatinga, costuma ser preservada nas áreas de pastagem. Cabe destacar que a espécie está ameaçada: figura na Lista Oficial das Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção (Anexo II) e na lista do Rio Grande do Sul na categoria vulnerável, sofrendo forte pressão do extrativismo predatório e da exploração madeireira, com risco de extinção na Caatinga paraibana.

Crescimento e produção

Há poucos registros sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas seu crescimento é reconhecidamente lento. O fator de forma determinado para a quixabeira foi de 0,52.

Clima

A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 260 mm, em Cabaceiras (PB), a 2.000 mm, no Rio Grande do Sul. As chuvas são periódicas em quase toda a área, com exceção do Rio Grande do Sul, onde se distribuem de forma uniforme; o déficit hídrico é moderado no sul gaúcho e forte no Nordeste. A temperatura média anual oscila entre 16,6 °C (Santa Vitória do Palmar, RS) e 27,2 °C (Mossoró, RN), com mínima absoluta de -2,6 °C registrada em Santa Maria (RS) em 1971. As geadas são raras, restringindo-se ao sul do Rio Grande do Sul, onde ocorrem com pouca frequência. Pela classificação de Köppen, a espécie abrange os tipos As, Aw, Bsh e Cfa, além de áreas de transição climática no Rio Grande do Norte.

Solos

A quixabeira se adapta a uma variedade de solos, indo dos de textura argilosa às várzeas de aluviões pesados e aos baixios frescos. Está presente em quase toda a Caatinga arbórea, exceto em terrenos pedregosos ou excessivamente arenosos. O pH desses solos situa-se entre 5,1 e 5,5.