Putumuju-pequeno
Centrolobium sclerophyllum
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: araribá, ararubá, banha-de-galinha, pau-de-sangue, araribá-rosa, lei-nova
Botânica
Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à ordem Fabales (Rosales, em Cronquist) e à família Fabaceae (Leguminosae, em Cronquist), dentro da subfamília Faboideae (Papilionoideae) e do gênero Centrolobium. O binômio completo é Centrolobium sclerophyllum H. C. de Lima, descrito originalmente nos Arquivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (v. 27, p. 177-191, 1983/1985). O nome do gênero une os termos gregos kentron (esporão) e lobium (vagens), em referência ao grande lóbulo do fruto, cuja superfície é coberta por espinhos agudos que lembram uma espora. Já o epíteto sclerophyllum aponta para o forte desenvolvimento de esclerênquima nas folhas, que se tornam espessas, coriáceas e resistentes à perda de água.
Trata-se de uma árvore semidecídua. Os indivíduos de maior porte chegam, na fase adulta, a cerca de 30 m de altura e 100 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo), embora também se encontrem exemplares com aproximadamente 8 m. O tronco é reto e cilíndrico, apoiado por raízes tabulares ou sapopemas estreitas, e o fuste pode alcançar 15 m ou mais nos adultos. A ramificação é dicotômica, com ramos glabrescentes nas pontas, e a casca atinge até 15 mm de espessura, com ritidoma (casca externa) sulcado. As folhas reúnem de 9 a 15 folíolos ovados, ovado-oblongos ou ovado-elípticos, bulados, simétricos ou assimétricos, com base arredondada ou subcordada e ápice agudo ou curto-acuminado; são rígido-coriáceos, glabrescentes nas duas faces e esparso-tomentosos sobre a nervura mediana, medindo de 5 a 11 cm de comprimento por 2 a 5 cm de largura, com pecíolo e raque pubescentes ou glabrescentes. A inflorescência é uma panícula fusco-fulvo-tomentosa de 12 a 23 cm, e as flores medem de 17 a 18 mm, com pedicelo de 0,8 a 1,7 mm e cálice suburceolado de base truncada. O fruto é uma sâmara de 10 a 12 cm, com ala cartáceo-coriácea, pubescente ou glabrescente, espinho estilar de 0,8 a 1,5 cm aderido à ala e núcleo seminífero equinado coberto por espinhos esparso-tomentosos e opacos de 0,7 a 1,6 cm; o estípite varia de 1 a 2 cm. As sementes, alojadas dentro do núcleo seminífero, têm formato reniforme e cor que vai do alaranjado ao marrom-escuro; embora soltas no interior do fruto, sua retirada é bastante difícil por causa de uma rígida camada fibrosa.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,80 g/cm³), com veios escuros, textura média, grã direita e alta resistência ao ataque de insetos. É considerada de primeira qualidade na construção civil e indicada para marcenaria de luxo e fabricação de móveis finos, ainda que seja pouco difundida; já para celulose e papel é imprópria. Também rende lenha e carvão de boa qualidade. Como árvore apícola, fornece néctar e pólen que resultam em mel de excelente qualidade. Na economia informal da Chapada Diamantina Meridional, na Bahia, a madeira serve à confecção de artefatos agrícolas e de uso doméstico. Tem ainda valor paisagístico, sendo recomendada para arborização.
É uma espécie pioneira a secundária inicial. Em florestas primárias costuma ocorrer de forma irregular e em baixa frequência, mas pode atingir densidades maiores em capoeirões. Na Mata Atlântica está presente na Floresta Estacional Semidecidual, em formação Montana na Bahia, e na Floresta Ombrófila Densa (Mata de Tabuleiro), em Terras Baixas do sul da Bahia, norte do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Sergipe. Na Caatinga arbórea ocorre no sudoeste da Bahia e no norte de Minas Gerais, com até dez indivíduos por hectare. Aparece também em ambientes fluviais e ripários (mata ciliar) no Espírito Santo.
A floração acontece de janeiro a fevereiro no Espírito Santo e de fevereiro a março na Bahia e em Minas Gerais. Os frutos maduros são observados de dezembro a agosto na Bahia.
Espécie hermafrodita, é polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes ocorre por gravidade e pela ação do vento.
Plantio e silvicultura
A colheita e o beneficiamento devem ser realizados quando a sâmara passa do verde ao marrom-escuro; os frutos podem ser coletados diretamente na árvore, com auxílio de equipamentos, ou recolhidos no chão. As asas das sâmaras são removidas à mão e os espinhos do núcleo seminífero, eliminados com tesoura. Cada quilo reúne cerca de 110 sementes. A espécie não apresenta dormência: a rígida camada fibrosa do núcleo seminífero é facilmente degradada, dispensando qualquer tratamento drástico. Em ambiente não controlado, a viabilidade das sementes é inferior a seis meses.
A semeadura pode ser feita com os frutos sem asa ou com as sementes já extraídas. Recomendam-se sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou tubetes de polipropileno de tamanho grande; quando preciso, a repicagem deve ocorrer de 1 a 2 semanas após a germinação. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares de hipocótilo alongado; a emergência começa entre 7 e 60 dias após a semeadura, conforme se use fruto ou semente, e a taxa de germinação é regular, chegando a 52%. As raízes formam associação simbiótica com Rhizobium, originando nódulos globosos.
É uma espécie heliófila, que precisa de luz para completar o ciclo reprodutivo; tolera sombreamento na fase juvenil, mas não suporta baixas temperaturas. A maioria das plantas cresce em hábito monopodial, com tronco reto, poucas ramificações e fuste bem definido, além de boa derrama natural — basta podar os galhos das árvores bifurcadas. Seu modelo arquitetônico assemelha-se ao de C. tomentosum, com eixo formado por sucessão simpodial de nódulos. Por ser tropical, convém evitar plantios homogêneos, que favorecem pragas e doenças; recomenda-se plantio misto a pleno sol, consorciado com outras espécies, em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na vegetação secundária ou em linhas. A espécie brota da touça, podendo ser manejada por talhadia, e é indicada para sistemas agroflorestais voltados à arborização de culturas e pastagens. Na Chapada Diamantina Meridional (BA), sofre pressão seletiva relevante devido à supressão não sustentável da cobertura vegetal pela população local.
Há poucos dados sobre o desempenho da espécie em plantios, mas seu crescimento é considerado moderado.
A precipitação média anual varia de 1.000 mm (norte de Minas Gerais e Rio de Janeiro) a 1.600 mm (Sergipe), com chuvas periódicas e período seco de maio a setembro no Rio de Janeiro. A temperatura média anual fica entre 23,6 °C (Linhares, ES) e 26 °C (Aracaju, SE); a média do mês mais frio vai de 20,7 °C a 24,5 °C e a do mês mais quente, de 25,9 °C (Barreiras, BA) a 27,2 °C (Aracaju, SE). A mínima absoluta registrada foi de 10 °C, em Linhares (ES), em 1º de junho de 1979. Não há geadas. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am na Bahia e no Espírito Santo, As em Sergipe, Aw na Bahia, no norte de Minas Gerais e no norte do Rio de Janeiro, e Bsh no extremo norte de Minas Gerais.
Desenvolve-se em terrenos de fertilidade média, em solos rasos e em locais secos.