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Foto de Porangaba

Foto: rafa perazzolo (CC BY) via GBIF

Porangaba

Cordia ecalyculata Vell.

Boraginaceae Mata Atlântica
  • até 20 mAltura
  • Grande portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisMelíferasRecuperação de áreas

Também conhecida como: louro-mole, bugrinha, café-de-bugre, chá-de-frade, claraíba, cutieira, jorge-moreira, louro-salgueiro, salgueiro-chorão, café-bugre, porongata, catuteiro-branco, louro, canela-preta, chá-de-bugre, jurutê, mata-fome, café-do-mato, cafezinho

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Euasterídeas I, ordem Solanales (classificada como Lamiales no sistema de Cronquist), família Boraginaceae e gênero Cordia. A espécie foi descrita como Cordia ecalyculata Vell. e publicada na Flora Fluminensis. O sinônimo mais citado na literatura regional é Cordia coffeoides Warm., embora a espécie possua sinonímia bastante extensa. O nome do gênero homenageia o médico e botânico alemão Euricius Cordus e seu filho Valerius Cordus; o epíteto ecalyculata refere-se ao cálice que cai no fruto. A espécie recebe diversos nomes populares conforme o estado: em Minas Gerais é chamada de bugrinha, café-de-bugre, chá-de-frade, claraíba, cutieira, jorge-moreira, louro-mole, louro-salgueiro, porangaba e salgueiro-chorão; no Paraná, café-bugre, café-de-bugre e louro-mole; no Rio Grande do Sul, claraíba, louro-mole, louro-salgueiro e porongata; em Santa Catarina, catuteiro-branco, claraíba, louro, louro-mole e louro-salgueiro; e em São Paulo, bugrinha, café-de-bugre, canela-preta, chá-de-bugre, jurutê, louro, mata-fome e porangaba. Os nomes café-do-mato e cafezinho não puderam ser associados a estados específicos.

Descrição botânica

Trata-se de uma planta perenifólia que pode se apresentar como arbusto, arvoreta ou árvore. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 20 m de altura e 50 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco é reto, levemente canelado, com pequenas sapopemas na base, e o fuste, curto, alcança no máximo 7 m. A ramificação é cimosa e a copa, alongada, arredondada e bastante densa, com ramos glabros ou pubescentes. A casca tem até 14 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é escura e semi-lisa, com fissuras longitudinais finas e fissuras horizontais mais profundas, além de lenticelas em forma de pequenas saliências; a casca interna é fibrosa, amarelo-esbranquiçada, e oxida rapidamente ao ar. As folhas são simples, alternas e sem qualquer pubescência, com lâmina de 3 a 14 cm de comprimento por 1 a 6 cm de largura, formato elíptico a lanceolado, margens lisas ou onduladas, ápice acuminado e base em cunha; o pecíolo, torcido, mede de 0,5 a 1,3 cm. A inflorescência é um dicásio terminal de 5 a 15 cm de diâmetro, finalizado por monocásios. As flores são bissexuais, brancas, perfumadas, pequenas (0,5 a 0,7 cm) e numerosas. O fruto é uma drupa simples, indeiscente, com uma ou duas sementes protegidas por endocarpo endurecido; tem forma globosa levemente achatada nas extremidades, superfície glabra, lisa e brilhante, e fica escarlate quando maduro. O pericarpo é carnoso e espesso, com epicarpo delgado e frágil; o mesocarpo é gelatinoso, viscoso, de sabor adocicado, alaranjado, com 1,5 a 2,5 mm de espessura; o endocarpo esclerosado, de cerca de 1,5 mm, forma o pirênio. A semente é globosa e achatada lateralmente, de contorno obovado, oval ou sub-rotundo, ápice arredondado a quase truncado e base aguda a obtusa, com superfície branca, lisa, brilhante e finamente reticulada, lembrando uma impressão digital.

Uso e ecologia
medicinalalimentícioapícolapaisagismorecuperação de áreasmadeireiro
Produtos e utilizações

O uso medicinal é, de longe, o mais expressivo: a planta é comercializada na forma de extratos líquidos, tinturas e sachês de folhas e ramos novos secos, indicada principalmente como tônico cardíaco, diurético e moderador de apetite, com a crença popular de que evita o acúmulo de gordura e a celulite. Estudos japoneses identificaram outros usos: o extrato alcoólico das folhas reduziu em até 99% a penetração do vírus herpes tipo I em alguns tipos de células e, em doses baixas, diminuiu o desenvolvimento do vírus em 33%, enquanto doses mais altas mostraram ação tóxica sobre células cancerosas; pesquisas com coelhos e cobaias confirmaram propriedades cardiotônicas do chá das folhas. Índios de várias etnias do Paraná e de Santa Catarina utilizam as folhas contra azia e problemas no fígado. Na alimentação, as sementes torradas servem para preparar uma infusão usada como substituto do café, contendo inclusive cafeína. As flores são melíferas, produzindo néctar e pólen. No Paraguai, o fruto pegajoso é empregado como substituto de cola para papel, origem do nome colita. A espécie também é indicada para arborização de ruas. Quanto à madeira, é moderadamente densa, compacta, porém pouco durável quando exposta, e tem pequena aplicação comercial, prestando-se à fabricação de palitos, caixotaria e brinquedos. Não é adequada para celulose e papel e produz lenha de baixa qualidade.

Aspectos ecológicos

É uma espécie pioneira, com comportamento que vai de secundária inicial a secundária tardia. Compõe o estrato intermediário da floresta primária e também surge em bordas de florestas secundárias, ao longo de caminhos e em clareiras menores que 60 m². Na Mata Atlântica, é encontrada na Floresta Estacional Decidual das Terras Baixas (Rio Grande do Sul); na Floresta Estacional Semidecidual das formações Submontana e Montana (Minas Gerais, Paraná e São Paulo), com até nove indivíduos por hectare; na Floresta Ombrófila Densa, em várias formações de Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo, com até 25 indivíduos por hectare; na Floresta Ombrófila Mista (com araucária), no Paraná e em Minas Gerais e São Paulo, com até dois indivíduos por hectare; em ambientes ripários de Minas Gerais, Paraná e São Paulo, com até 13 indivíduos por hectare; e em mata de pau-ferro (Myracrodruon balansae) no Rio Grande do Sul, com até sete indivíduos por hectare. Fora do Brasil, ocupa a savana úmida na Bolívia e toda a selva da Região Oriental no Paraguai.

Floração e frutificação

A floração varia conforme o estado: de setembro a fevereiro no Paraná, de outubro a janeiro em Santa Catarina, de outubro a março em Minas Gerais e de novembro a dezembro em São Paulo. Os frutos amadurecem de março a maio em São Paulo, de abril a agosto no Paraná e de junho a julho em Minas Gerais.

Fauna associada

A espécie é monóica e sua polinização é feita sobretudo por abelhas, por diversos pequenos insetos e por moscas-das-flores (Diptera: Syrphidae). A dispersão de frutos e sementes é tipicamente zoocórica, realizada principalmente pela fauna silvestre. O louro-mole atrai jacus, jacutingas, surucuás, pombas, sanhaços e araçaris, entre outras aves.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a cair espontaneamente. Em seguida, ficam imersos em água por 48 horas e depois são macerados em peneira sob água corrente para separar os pirênios dos resíduos; os pirênios secam à sombra em local arejado. Para retirar as sementes, pode-se utilizar uma morsa para quebrar os pirênios. Cada quilo contém cerca de 5.400 sementes. Como tratamento pré-germinativo, recomenda-se imersão em água à temperatura ambiente por 72 horas. A viabilidade das sementes é curta, em geral não passando de três meses; ainda assim, é possível armazená-las em saco plástico, em câmara seca, por até 24 meses.

Produção de mudas

Aconselha-se semear em sementeiras e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio (100 a 120 cm³). A repicagem deve ocorrer de 3 a 7 semanas após a germinação, quando surgem as primeiras folhas definitivas ou as plântulas alcançam de 5 a 10 cm de altura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 20 a 45 dias após a semeadura, costumando ser irregular e baixa, de até 53%. As mudas atingem o tamanho ideal para plantio por volta de sete meses após a semeadura.

Características silviculturais

A espécie é heliófila ou esciófila e, quando jovem, apresenta tolerância média a baixas temperaturas. Tende a formar multitroncos e touceiras e não realiza desrama natural, exigindo poda de condução para formar um único tronco, seguida de podas sucessivas para eliminar os galhos mais grossos. O plantio puro a pleno sol deve ser evitado, pois provoca esgalhamento precoce; recomenda-se o plantio misto junto a espécies pioneiras. Regenera-se por brotações vigorosas da touça.

Crescimento e produção

O crescimento é lento. Aos sete anos de idade, em Rolândia (PR), a espécie chegou a uma produção volumétrica de até 9,20 m³ por hectare ao ano.

Clima

A precipitação média anual varia de 1.200 mm, em Minas Gerais, a 2.700 mm, em São Paulo. As chuvas são bem distribuídas no centro-sul do Paraná, no leste de Santa Catarina e no litoral paulista, e periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é de pequena a moderada no Paraná e, no inverno, no sul de Minas e no leste de São Paulo, chegando a moderada a forte no inverno do oeste de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 21,9 ºC (Uberaba, MG); a média do mês mais frio varia de 8,2 ºC a 18 ºC e a do mês mais quente, de 21,4 ºC (Caparaó, MG) a 25,5 ºC (Foz do Iguaçu, PR). A mínima absoluta registrada foi de -7,3 ºC, em Campos do Jordão. O número de geadas vai de 0 a 30 por ano, podendo chegar a 81 no Planalto Sul-Brasileiro e em Campos do Jordão. Na classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af (litoral paulista), Aw (oeste de Minas), Cfa (diversas regiões do Sudeste e Sul), Cfb (Serra da Bocaina, Colombo-PR e Campos do Jordão), Cwa (São Paulo) e Cwb (sul de Minas e São Paulo).

Solos

Em ambiente natural, ocupa solos úmidos e de fertilidade química média a alta.