Foto: Kai Murphy (CC BY) via GBIF
Pitangueira
Eugenia uniflora
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: pitanga, pitanga-vermelha, pitanga-do-mato, pitanga-branca, pitanga-roxa, pitanga-lagarto, pitangueira-vermelha, batinga
Botânica
A pitangueira é classificada como Eugenia uniflora L., descrita por Lineu em 1753 (Sp. pl. 470). Pertence à família Myrtaceae, ordem Myrtales, dentro das angiospermas dicotiledôneas. Aparece na literatura sob sinônimos como Eugenia costata Camb., Plinia rubra L. e Stenocalyx uniflorus (L.) Kausel, sendo que a espécie possui ampla sinonímia, compilada por Legrand e Klein. O nome do gênero homenageia Francisco Eugênio de Saboia-Carignan, o Príncipe de Saboia, militar e mecenas das artes. Já o epíteto uniflora descreve a característica de uma única flor por pedúnculo. Em tupi-guarani recebe o nome de yba-pitanga, que se traduz como fruto-vermelho.
Trata-se de um arbusto ou árvore semidecídua que, na fase adulta, pode alcançar cerca de 15 m de altura e 50 cm de diâmetro à altura do peito. O tronco é reto e fino, podendo se apresentar levemente tortuoso e com sulcos irregulares, com fuste de até 7 m. A copa é baixa e densa, com ramos finos e pendentes quando a planta cresce isolada e mais verticais sob floresta fechada; a ramificação é dicotômica ou simpódica. A casca, bastante delgada (até 4,5 mm), tem ritidoma geralmente manchado em tons claros e acinzentados, que se solta em placas escamosas, deixando a superfície lisa; internamente é de cor areia a creme, fibrosa e laminada. As folhas são simples, opostas e cruzadas, semicoriáceas, de formato ovado, com base aguda, ápice acuminado e margem lisa; medem de 2,5 a 7 cm de comprimento por 1,2 a 3,2 cm de largura, são glabras, brilhantes, verdes em ambas as faces e cobertas por pequenas pontuações translúcidas. Quando amassadas, exalam o odor inconfundível de pitanga. As flores, brancas e bastante vistosas, têm numerosos estames e surgem isoladas ou em grupos de 2 a 3 nas axilas e pontas dos ramos, em pedúnculos finos reunidos de 2 a 6 unidades. O fruto é uma drupa globosa e costada que amadurece do vermelho ao quase preto, de polpa carnosa e agridoce, contendo de 1 a 2 sementes grandes (0,5 a 0,6 cm de diâmetro).
Uso e ecologia
Os frutos da pitangueira são bastante saborosos e razoavelmente ricos em vitamina C, sendo consumidos frescos ou em suco; por isso a planta é amplamente cultivada em pomares domésticos, e o suco industrializado já é comercializado, com o Nordeste entre os maiores produtores. Suas flores são melíferas. Na medicina popular, folhas e frutos são empregados como excitantes, febrífugos, aromáticos, anti-reumáticos e antidisentéricos, embora a eficácia ainda não tenha comprovação científica: o chá das folhas é usado contra diarreia, verminose e febres infantis, e preparações com a casca ou o fruto servem para tosse, gripes, resfriados, caxumba, rubéola, sarampo e catapora. A composição química inclui óleos essenciais nas folhas e frutos, sesquiterpenos, taninos, flavonoides, antocianinas, saponinas, sais minerais e vitamina C. A madeira é moderadamente densa (0,74 g/cm³), de cor esbranquiçada, dura, compacta, resistente e muito durável, indicada para cabos de ferramentas e implementos agrícolas; também serve como lenha (considerada ótima em Santa Catarina) e para carvão no Paraguai. Não é adequada para celulose e papel (fibras de 0,89 mm e 33,47% de lignina com cinza). A forragem tem 8,27% de proteína bruta e 15,17% de tanino, teores que a tornam imprópria como pastagem.
É uma espécie secundária inicial, secundária tardia ou clímax exigente em luz. Mostra-se muito abundante nos capões de solos úmidos, sobretudo no estrato intermediário da floresta, e por vezes forma agrupamentos quase puros em planícies úmidas ao longo dos rios. Aparece em diversas formações da Mata Atlântica — Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual (5 a 38 indivíduos por hectare), Floresta Ombrófila Densa, Floresta Ombrófila Mista (3 a 4 por hectare), áreas de formação pioneira (até 40 por hectare) e restingas — além de estepes e campos do bioma Pampa, no Rio Grande do Sul, e ambientes ripários em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná.
A floração ocorre de agosto a setembro no Rio Grande do Sul, de agosto a novembro em Minas Gerais e no Paraná, e de agosto a dezembro em Santa Catarina. Os frutos amadurecem de outubro a novembro no Paraná, de outubro a janeiro em Minas Gerais, de outubro a fevereiro em Santa Catarina e de janeiro a fevereiro no Rio Grande do Sul.
Espécie monoica, é polinizada essencialmente por abelhas, com destaque para a abelha europeia (Apis mellifera). A dispersão das sementes ocorre por gravidade e também por animais, como certas aves e mamíferos. No paisagismo, a planta é valorizada por atrair pássaros.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos direto da árvore quando começam a cair espontaneamente, ou recolhidos do chão após a queda. Cada quilo reúne de 2.350 a 3.250 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento recalcitrante e baixa durabilidade no armazenamento, começando a perder o poder germinativo entre 15 e 20 dias após a colheita.
Recomenda-se semear uma única semente por saco de polietileno (no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro) ou em tubete de polipropileno de tamanho médio; quando preciso, a repicagem é feita de 1 a 2 semanas após a germinação. A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com emergência entre 18 e 34 dias após a semeadura e alto poder germinativo, chegando a 87%.
A pitangueira é uma espécie esciófila tolerante a baixas temperaturas. Tem ramificação simpodial irregular, tronco curto, ausência de dominância apical e copa bastante ramificada, com desrama natural deficiente que exige podas periódicas de condução e de galhos. O plantio deve ser feito a pleno sol, em sistema puro ou misto. Suas raízes têm a capacidade de rebrotar sob a árvore, formando touceiras. O número cromossômico da espécie é 2n = 22.
Há poucos dados disponíveis sobre o crescimento da pitangueira em plantios.
Adapta-se a uma ampla faixa de condições: a precipitação média anual vai de 770 mm, no Rio de Janeiro, a 2.500 mm, em Pernambuco, com chuvas bem distribuídas na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica varia de nula, no Sul, a moderada ou forte, no Ceará e em Mato Grosso. A temperatura média anual fica entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 26,6 ºC (Fortaleza, CE), suportando mínimas absolutas de -11,3 ºC (Xanxerê, SC) e até -17 ºC na relva, com 0 a 30 geadas anuais em média e máximo de 81 no Planalto Sul-Brasileiro. Pelo sistema de Köppen, ocorre nos tipos Af, Am, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente em solos úmidos e aluviais.