Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Pimenteira
Cinnamodendron dinisii
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: casca-d'anta, pau-para-tudo, pau-pimenta, pimenteira-de-macaco, pau-amargo, paratudo
Botânica
Pela classificação do sistema APG II, a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das magnoliídeas, ordem Canellales (em Cronquist, é tratada dentro de Magnoliales), família Canellaceae e gênero Cinnamodendron. O nome científico aceito é Cinnamodendron dinisii (Schwacke) Occhioni, descrita pela primeira vez em 1898. São reconhecidos como sinônimos botânicos Cinnamodendron pimenteira Hoehne e Capsicodendron dinisii (Schwacke) Occhioni. A denominação do gênero quer dizer "árvore de canela", em alusão ao sabor picante das folhas, e o epíteto dinisii homenageia o Dr. Henrique Dinis. O nome popular pimenteira deriva do sabor ardido inconfundível presente na casca, nas folhas e nos demais órgãos da planta.
Trata-se de uma árvore sempre-verde (perenifólia), cujos exemplares de maior porte alcançam cerca de 20 m de altura e 60 cm de DAP na fase adulta. O tronco é reto, de seção que vai de irregular a cilíndrica, com base levemente reforçada e fuste em geral curto, de até 10 m. A ramificação é dicotômica ou simpódica, com galhos espiralados e pendentes, formando uma copa alta, densa, globosa e umbeliforme, de folhagem verde-escura. A casca chega a 10 mm de espessura: a externa é acastanhada, frágil, verrucosa e cheia de lenticelas longitudinais, desprendendo-se em grumos; a interna varia do branco ao avermelhado (cor de carne), com fibras laminadas e odor e gosto de pimenta bastante marcantes. As folhas são simples, alternas, glabras, coriáceas, de formato elíptico a obovado-oblongo, medindo de 2,8 a 8 cm de comprimento por 1,4 a 3,5 cm de largura, brilhantes na face superior e opacas na inferior, com pecíolo de 3 a 4 mm. As inflorescências reúnem-se em cimeiras axilares de 1 a 3 flores. As flores costumam ser solitárias, pequenas, carnosas, actinomorfas, com 3 sépalas e 6 pétalas livres de tom vermelho-arroxeado, dispostas em dois verticilos, e cálice que persiste após a abertura. O fruto é um bacídio de até 10 mm, elíptico ou oblongo-obovado, com pericarpo cor de vinho a vermelho-carmim, abrigando de 1 a 6 sementes. As sementes são reniformes, de testa lisa e brilhante, amarelo-esverdeadas a verdes, medindo de 4,7 a 7,7 mm de comprimento por 4 a 6,2 mm de largura.
Uso e ecologia
A entrecasca é aromática, picante e levemente entorpecente, com propriedades semelhantes às da pimenta (Capsicum annuum) e da canela-da-índia (Cinnamomum zeylanicum), servindo como condimento; após secagem ao ar livre, a casca também é empregada para aromatizar e tingir cachaça, e em Luminárias (MG) substitui a pimenta-do-reino. Da casca extrai-se um óleo essencial de aroma suave, rico em monoterpenos (85,4%), com o limoneno como componente majoritário (68%), apontado como uma nova opção para perfumaria. Foram isolados ainda compostos citotóxicos por cromatografia (cinamodial, capsicodendrin e cinnamosmolide), com potencial anticâncer, sendo que o cinamodial apresenta atividade moluscicida sobre Biomphalaria glabrata. A madeira é moderadamente densa (0,57 g/cm³ a 15% de umidade), macia, medianamente resistente e pouco durável às intempéries, com alburno creme que oxida para tom salmão; é usada em construção civil, marcenaria e carpintaria, mas com aplicação limitada pelo pequeno diâmetro dos troncos. Não serve para celulose e papel, e seu uso como lenha é desaconselhável, pois a fumaça com cheiro de pimenta provoca forte irritação nos olhos.
É classificada como espécie secundária tardia, típica dos capões e do sub-bosque das florestas com araucária do Planalto Meridional Sul-Brasileiro. Aparece em associações pioneiras do tipo Capsicodendretum, formadas por apenas 15 a 20 espécies, das quais 2 ou 3 concentram mais da metade da abundância e da cobertura basal. Ocorre na Floresta Ombrófila Mista (com araucária), onde chega a 95 indivíduos por hectare, na Floresta Estacional Semidecidual (até 38 indivíduos por hectare), na Floresta Ombrófila Densa, na Floresta Estacional Decidual do oeste catarinense, além de matas ciliares em Minas Gerais e no Paraná e de caxetais no litoral paranaense.
A floração vai de junho a novembro no Paraná, de agosto a outubro em São Paulo e de setembro a outubro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de outubro a fevereiro no Paraná, de novembro a dezembro em São Paulo e de janeiro a fevereiro no Rio Grande do Sul.
Espécie hermafrodita e predominantemente autógama (autofecundante), tem a polinização realizada sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão é majoritariamente zoocórica, com destaque para o bugio ou guariba (Alouatta guariba) e o muriqui-do-sul ou mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides), além de ser muito procurada pelas aves. É registrada também na chuva de sementes da Floresta Ombrófila Mista em Caçador (SC).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando atingem o tom vermelho-carmim intenso, agitando-se os galhos com auxílio de linhada para que caiam sobre uma lona estendida sob a árvore. A semente é separada por maceração, esfregando-se os frutos, e em seguida lavada em água corrente e seca — nunca ao sol. Cada quilo reúne de 2.800 a 14.667 sementes, com 34,36% de teor de umidade. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. As sementes são recalcitrantes e perdem a viabilidade rapidamente, de modo que o armazenamento não é recomendado e não se conhecem métodos eficazes para conservá-las.
Recomenda-se semear 1 a 2 sementes em sacos de polietileno de no mínimo 14 cm de altura por 6 cm de diâmetro ou em tubetes pequenos de polipropileno. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 30 e 70 dias após a semeadura e taxa média de 75,5% (variando de 57,5% a 95%). As mudas ficam aptas ao plantio em 6 a 7 meses.
Trata-se de uma espécie heliófila ou de luz difusa, tolerante a baixas temperaturas. Cresce sem dominância apical e com galhos finos. É indicada para plantios mistos ou em faixas abertas em capoeirões, plantada em linhas, e rebrota da touça ou cepa.
Há poucos registros de desempenho em plantios, mas o crescimento é considerado lento.
A precipitação média anual varia de 1.200 mm, em Minas Gerais, a 2.500 mm, no Rio de Janeiro, com extremos entre 950 e 3.000 mm; as chuvas são uniformes na maior parte da área e periódicas nos planaltos do centro-leste paulista e no sul mineiro. A deficiência hídrica é nula no Planalto Meridional, no litoral catarinense, no Paraná, em São Paulo e na bacia do Rio Uruguai, e de pequena a moderada no inverno do centro-leste de São Paulo e do sul de Minas. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 22,9 ºC (Braúnas, MG), com mínima absoluta de até -11,6 ºC em Xanxerê (SC) e podendo chegar a -17 ºC em pontos do Planalto Meridional. As geadas são frequentes no Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e acima de 1.000 m nas serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina, com média de 0 a 30 e máximo de 81 ocorrências. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Cfa, Cfb e Cwb.
Desenvolve-se naturalmente em terrenos de profundidade variável e fertilidade diversa, mais comumente em solos pobres e ácidos, com pH entre 3,5 e 5,5 e textura de franca a argilosa. Também aparece em solos úmidos, porém bem drenados.