Foto: Thomaz Ricardo Favreto Sinani (CC BY) via GBIF
Pimenta-de-macaco
Xylopia aromatica
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: imbiriba, begerecum, pimentinha, pimenta-de-bugre, envira-preta, pindaíba, pachinhos, pimenta, pimenta-de-gentio, pimenta-de-negro, pimenteira, pindaíba-do-campo, envireira, pindaíva, bananinha, cedro-do-campo, pindaíba-de-macaco, pindaíba-do-cerrado, envira, embira, esfola-bainha, pacovi, pimenta-da-costa, pimenta-de-árvore, pimenta-de-folha-grande, pimenta-do-campo, pimenta-do-sertão, rabo-de-macaco
Botânica
Pela classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das magnoliídeas, ordem Magnoliales e família Annonaceae, dentro do gênero Xylopia. A denominação científica completa é Xylopia aromatica (Lamarck) Martius, publicada pela primeira vez em 1841. Entre seus sinônimos botânicos mais citados na literatura estão Xylopia grandiflora A. St.-Hil. e Xylopia longifolia A.DC., embora a espécie possua uma sinonímia bastante extensa. O nome do gênero deriva do grego xylon, que remete a madeira ou lenho amargo, ao passo que o epíteto aromatica faz referência ao perfume agradável das flores. Já o nome popular pimenta-de-macaco alude ao costume regional de aproveitar suas sementes como tempero.
Trata-se de uma planta de porte arbustivo a arbóreo, com troca foliar semidecídua. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito quando adultos, mas no Cerrado o porte é bem menor, variando de 1,50 m a 10 m. O tronco é reto, em geral com fuste curto de até 5 m. A ramificação é monopodial e a copa, aberta e de formato piramidal, exibe ramos e folhas tipicamente pendentes; os ramos jovens apresentam densa cobertura áurea a ferrugínea, com entrenós de até 19 mm. A casca chega a 10 mm de espessura, sendo a parte externa (ritidoma) áspera e acinzentada. As folhas são simples, de lâmina lanceolada a elíptica, com 5,5 cm a 17 cm de comprimento por 2 cm a 5 cm de largura, consistência cartácea a subcoriácea, ápice acuminado e base obtusa a cordada; a face superior é pouco tomentosa e a inferior, densamente tomentosa, com nervura principal saliente de tom castanho-lanoso e pecíolos de 3 mm a 9 mm. As inflorescências reúnem fascículos de 2 a 4 flores, ou flores isoladas, sustentadas por pedúnculo muito curto (cerca de 2 mm) e bractéola triangular-ovalada de 3 mm. As flores são bissexuais, atingem até 6 cm de diâmetro, têm três pétalas livres, brancas e carnosas com base vermelho-escura, e sépalas brancas por dentro e vermelhas por fora; abertas, lembram estrelas voltadas para cima. O fruto é um carpídio de até 5 cm, agregado em 25 a 35 frutículos deiscentes, cilíndricos e curvos, que ao amadurecer se abrem em duas partes e expõem um arilo fino e avermelhado; cada fruto guarda de 3 a 6 sementes, negras, brilhantes, levemente enrugadas, de formato obovoide a elipsoide e medindo de 2 mm a 8 mm de comprimento por 4 mm a 5 mm de largura.
Uso e ecologia
Embora os frutículos não sejam consumidos in natura, são bastante valorizados como condimento na culinária, conferindo sabor picante e aroma semelhante ao da pimenta-do-reino no preparo de carnes e outros pratos; podem ainda ser conservados em vinagre ou aguardente por tempo indefinido. As sementes, também aromáticas, são usadas como tempero, e dos frutos se obtém um pó que substitui a pimenta-do-reino (Piper nigrum). O óleo essencial dos frutos contém alfa e beta-pireno, mirceno, limoneno, ocimeno, citronelol e carvona, além de alguns diterpenos entre os componentes não voláteis. Antigamente, das flores extraía-se um óleo aromático empregado na toalete feminina. Na medicina popular, a casca do caule é usada em chás para aliviar dores nas costas e reduzir a febre; as sementes torradas e moídas, assim como a tintura da casca, têm fama de excitantes, carminativas, eupépticas e afrodisíacas, e no Cerrado mineiro os frutos entram em compressas contra hemorroidas. A madeira é esbranquiçada, moderadamente densa (0,60 a 0,70 g/cm³, com densidade básica de 0,483 t/m³) e pouco durável, fornecendo lenha de baixa qualidade e madeira de baixa qualidade para caixotaria.
É classificada como espécie pioneira a secundária inicial. Em plantios, costuma se comportar como invasora, formando um sub-bosque irregular, e com frequência coloniza áreas que passaram por algum distúrbio, como ocorre em Assis (SP), onde se regenera em pastagens de Brachiaria decumbens; sua presença, porém, é descontínua e irregular. Em Paraopeba (MG), registrou-se aumento expressivo de sua densidade relativa em áreas de Cerrado entre 1990 e 1995. Ocupa diversos ambientes: na Amazônia, a Floresta Ombrófila Densa do Amapá e do Pará; na Mata Atlântica, a Floresta Estacional Semidecidual submontana de Minas Gerais; no Cerrado, o Cerradão (com até 87 indivíduos por hectare) e o Cerrado stricto sensu (chegando a 540 indivíduos por hectare), além do Campo Cerrado paulista, podendo alcançar 1.021 indivíduos por hectare em Luiz Antônio (SP); na Caatinga, a savana-estépica arbustiva-arbórea da Bahia; e o Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Aparece ainda em matas ciliares do Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo, em babaçuais e campos de murundu de Mato Grosso e em florestas de brejo e inundáveis. No Paraná, consta da lista vermelha das plantas ameaçadas de extinção, na categoria em perigo.
Flores podem ser encontradas em qualquer mês do ano, mas a floração se concentra entre setembro e março; em São Paulo ocorre de abril a novembro, no Paraná de abril a maio e no Distrito Federal de maio a dezembro. A frutificação também é registrada o ano todo, com maior intensidade de junho a abril; os frutos amadurecem de março a outubro no Distrito Federal, de maio a junho no Paraná, em agosto em Minas Gerais e de novembro a janeiro em Mato Grosso. Em solos férteis, a reprodução tem início cerca de 32 meses após o plantio.
A espécie é hermafrodita e predominantemente alógama; a polinização cruzada é favorecida pela elevada autoincompatibilidade genética e pela protandria e protoginia das flores, que duram de 2 a 4 dias e são sempre protogínicas, com a fase masculina retardada em algumas horas ou para o dia seguinte. A polinização é feita por abelhas e, sobretudo, por besouros (cantarofilia) da família Staphylinidae, atraídos pela câmara floral que funciona como abrigo, fonte de alimento e local de acasalamento. A dispersão de frutos e sementes é essencialmente realizada por aves, entre elas anambés, saíras, pombas, periquitos, surucuás e sanhaços.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando maduros ou apanhados no chão após a queda natural; em seguida, mantê-los em saco plástico ajuda a amolecê-los e facilita a extração das sementes. Cada árvore produz de 300 a 1.500 frutos, e há de 10 mil a 22 mil sementes por quilo. Recomenda-se escarificar ou lixar a ponta oposta ao embrião para elevar a germinação. As sementes têm pouca durabilidade e devem ser semeadas logo após a colheita.
Indica-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno médios (120 cm³). A repicagem, quando necessária, pode ser feita de 3 a 5 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência iniciando de 20 a 100 dias após a semeadura e poder germinativo baixo, de até 50%. As mudas permanecem no viveiro por um mínimo de 10 a 12 meses.
Trata-se de espécie esciófila, que tolera temperaturas moderadamente baixas. Seu hábito segue o modelo arquitetural de Roux, com tronco monopodial ortotrópico e galhos plagiotrópicos inseridos de forma contínua. Desenvolve-se melhor em plantios mistos e apresenta boa brotação da touça, o que permite manejá-la pelo sistema de talhadia.
Há poucos dados sobre o cultivo da espécie, mas sabe-se que seu crescimento é lento.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.000 mm, na Bahia, Ceará e Minas Gerais, a 2.500 mm, no Pará e em Pernambuco, com chuvas uniformemente distribuídas no sudoeste paulista, uniformes ou periódicas na costa baiana e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica varia de nula a forte conforme o local e a estação. A temperatura média anual fica entre 17,9 ºC (Franca, SP) e 27,7 ºC (Santarém, PA); a média do mês mais frio entre 15,3 ºC (Diamantina, MG / Franca, SP) e 26 ºC (Manaus, AM); e a do mês mais quente entre 19,7 ºC (Franca, SP) e 27,7 ºC (João Pessoa, PB). A mínima absoluta registrada foi de -5,3 ºC, em Guaíra (PR), em 6 de agosto de 1963. Geadas são raras no sul de Mato Grosso do Sul, sul de Minas Gerais, extremo noroeste do Paraná e oeste de São Paulo. Segundo Köppen, os climas associados incluem Am, Aw, BSh, Cfa, Cwa e Cwb.
Na maior parte de sua área, a espécie cresce em solos fortemente ácidos (pH em torno de 4,8), com alta saturação de alumínio (78%), baixos teores de cálcio e magnésio, fósforo muito baixo e textura arenosa. Já na Serra dos Carajás, no Pará, ocorre em terrenos mais profundos e ricos em matéria orgânica.