Foto: Jens-Christian Svenning (CC BY) via GBIF
Peroba-rosa
Aspidosperma polyneuron
- 15 a 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: amargoso, guatambu-amarelo, pau-caboclo, peroba-verdadeira, pereiro, peroba-comum, peroba, peroba-açu, peroba-mirim, perobeira, peroba-amarela, peroba-amargosa, peroba-branca, peroba-miúda, peroba-osso, peroba-paulista, peroba-rajada, peroba-de-são-paulo, peroba-do-rio, perobinha, perova, sobro
Botânica
Pelo sistema de Cronquist, a peroba-rosa é uma angiosperma da classe das dicotiledôneas, ordem Gentianales e família Apocynaceae. A espécie foi descrita por Mueller Argoviensis e é registrada como Aspidosperma polyneuron. Entre seus sinônimos botânicos estão Aspidosperma dugandii, Aspidosperma peroba e Aspidosperma venosum. O nome do gênero une as palavras gregas aspis (escudo) e sperma (semente), em referência à ampla asa circular que envolve a semente, enquanto polyneuron remete às numerosas nervuras. A denominação peroba-rosa nasceu da tonalidade rósea que a madeira exibe logo após o beneficiamento.
Árvore perenifólia que costuma medir de 15 a 25 m de altura e de 50 a 100 cm de DAP, mas pode chegar, quando adulta, a 50 m de altura e 390 cm de DAP. O tronco é cilíndrico, reto ou um pouco tortuoso, com fuste retilíneo que em geral mede de 12 a 20 m e excepcionalmente alcança 30 m. A ramificação é cimosa e concentra-se apenas no topo do tronco, formando uma copa alta, densa e corimbiforme, cujos râmulos trifurcados são tão característicos que permitem reconhecer a espécie mesmo a grandes distâncias. A casca é grossa, com até 50 mm de espessura; por fora é cinzenta a castanho-grisácea, áspera e profundamente fissurada no sentido longitudinal, e, ao ser raspada, revela um interior intensamente róseo e uma camada viva amarelada, formando dois estratos bem distintos. As folhas são simples e alternas, de forma variável (oblongas a obovado-elípticas), por vezes brilhantes na face superior, com ápice arredondado e margem inteira, atingindo até 8 cm de comprimento por 3 cm de largura; são firmemente membranáceas ou subcoriáceas, com nervuras secundárias bem próximas e paralelas. As flores são tubulares, de cor branco-amarelada a creme, pequenas e numerosas, reunidas em curtas panículas terminais de 1 a 4 cm, pouco perceptíveis na floresta. O fruto é um folículo deiscente, elipsóide, séssil e em geral achatado, semilenhoso, de 2,5 a 6 cm de comprimento por 1 a 2 cm de largura, com uma crista mais ou menos saliente, coloração pardo-escura e cobertura densa de lenticelas bem visíveis, abrigando de 2 a 5 sementes. As sementes são elípticas, de 2 a 4 cm de comprimento por 8 a 10 mm de largura, com núcleo seminífero basal do qual parte uma asa membranácea parda; são albuminosas e, quando jovens, apresentam alta taxa de poliembrionia.
Uso e ecologia
É, sem dúvida, a espécie de maior valor econômico entre as do gênero Aspidosperma. De resistência mecânica e retratibilidade médias, sua madeira teve grande emprego na indústria moveleira e, sobretudo, na construção civil, em caibros, ripas, forros, marcos de portas e janelas, venezianas, portões, rodapés, molduras e tábuas, além de vigamentos, esquadrias, obras externas, vagões, móveis escolares, carrocerias, cabos de ferramentas, folhas faqueadas e parquê. Na construção naval, era usada inclusive em canoas feitas do tronco inteiro, e na carpintaria tem aplicação quase irrestrita, em vigas, escadas, tacos e móveis pesados. Sem tratamento preservante, dormentes dessa madeira duram, em média, 6 anos. A madeira é moderadamente densa, com massa específica de 0,66 a 0,85 g/cm³ a 15% de umidade (650 a 870 kg/m³ seca ao ar). O alburno é amarelado quando exposto ao sol, e o cerne vai do róseo-amarelado ao amarelo-queimado levemente rosado, sendo mais comum o tom vermelho-rosado, uniforme ou com veios e manchas escuras. A superfície é lisa ao tato e sem lustre, de textura fina e grã direita ou reversa; quando rajada de preto, é bem reversa e recebe o nome de peroba-mirim. Praticamente não tem cheiro, o gosto é levemente amargo, é flexível, mas racha com facilidade. Tem baixa durabilidade natural: é pouco resistente ao ataque de organismos xilófagos, com vida média inferior a 9 anos em contato com o solo; estacas de cerne mostraram-se não resistentes a fungos, porém resistentes a cupins. A baixa permeabilidade dificulta o tratamento sob pressão. Por oxidar pouco os metais (perde apenas para a teca, Tectona grandis), pode substituí-la na construção naval. Hoje, toda a peroba-rosa usada no Brasil é importada do Paraguai, onde ainda é abundante. Como a grã reversa faz a madeira rachar ao ser pregada, os carpinteiros recorrem a artifícios como amassar a ponta do prego ou pré-furar até dois terços da espessura da peça antes de pregar. Como combustível, fornece lenha de boa qualidade, com poder calorífico de 4.750 kcal/kg. Não serve para celulose e papel (fibras de 1,35 mm e lignina com cinzas de 26,47%). Na casca e no lenho há alcalóides e cumarina; o lenho contém saponinas em maior quantidade que a casca e pouco óleo essencial. Na medicina popular, a casca, amarga e adstringente, é preparada em chás contra a febre.
Trata-se de espécie secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. Sua regeneração natural sob o dossel é satisfatória, e ela ocupa todos os estratos da floresta com importância relativa semelhante, chegando a formar agrupamentos densos, os chamados perobais, que antigamente cobriam extensas áreas e permitiam a extração de até 400 m³ de peroba por alqueire, hoje muito reduzidos pela exploração intensiva. No estrato superior os indivíduos distribuem-se de forma aleatória; nos inferiores, formam agregados. Não se estabelece em pastos ou terrenos abertos. É árvore extremamente longeva, podendo passar de 1.200 anos. Como espécie característica da Floresta Estacional Semidecidual, nas formações montana e submontana, dominava de forma marcante certas florestas: nos solos de Arenito Caiuá do oeste e noroeste paranaense e sudeste do Mato Grosso do Sul, chegava a representar de 30% a 60% do estrato emergente, e nas terras roxas estruturadas do norte do Paraná, de 60% a 80%. Ocorre ainda na Floresta Estacional Decidual, na Floresta Ombrófila Densa (amazônica) do extremo noroeste de Mato Grosso, em menor escala na Floresta Ombrófila Mista (com araucária) do sul do Paraná, onde é rara, e esporadicamente na Caatinga mineira, no Pantanal Mato-Grossense e nas matas de tabuleiro. Em levantamento à margem do Rio do Peixe (SP), registraram-se de 6 a 36 árvores por hectare.
A floração vai de setembro a janeiro em São Paulo, ocorre em novembro em Minas Gerais e de novembro a dezembro no Paraná. Os frutos amadurecem em maio em Minas Gerais, de junho a novembro em São Paulo, de julho a setembro no Espírito Santo e de julho a outubro no Paraná. Na região de Bauru (SP) observaram-se frutos durante quase todo o ano, mas no estado de São Paulo é comum haver anos sem frutificação, com grandes safras de sementes apenas a cada 2 a 4 anos; no Paraguai, floração e frutificação acontecem a cada 2 a 3 anos. A maturidade reprodutiva começa por volta dos 20 a 30 anos de idade.
A planta é hermafrodita e a polinização é feita, provavelmente, por mariposas. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, realizada pelo vento.
Plantio e silvicultura
Como a peroba-rosa libera as sementes quase imediatamente após o fruto mudar do verde para o marrom-escuro, a colheita deve ser feita antes da dispersão, para não perder o material. A operação é trabalhosa por causa da altura das árvores, exigindo cinto de segurança e esporões para subir à copa e o uso de podões ou ganchos metálicos. Depois de coletados, os frutos ficam em ambiente ventilado até abrirem e liberarem as sementes. Cada quilo reúne de 3.600 a 14.000 sementes, que não apresentam dormência. O comportamento é recalcitrante: em ambiente não controlado, a viabilidade se perde em 6 meses, mas pode chegar a 8 anos em câmara fria a 5ºC. Em laboratório, a germinação se dá melhor a 20ºC em papel mata-borrão verde ou vermiculita nº 3, e a 25ºC em papel mata-borrão verde ou branco.
Recomenda-se semear em recipientes — sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou tubetes grandes de polipropileno. Quando necessária, a repicagem é feita de 4 a 6 semanas após a germinação, que é epígea e começa entre 14 e 60 dias depois da semeadura, com poder germinativo de 35% a 70%. A formação da muda é bastante lenta, levando no mínimo 9 meses. Convém adubar e sombrear os canteiros durante a produção. Quanto à propagação vegetativa, há protocolos de embriogênese somática desenvolvidos por Ribas e colaboradores, além de trabalhos de micropropagação e indução de calos em explantes conduzidos por Carvalho e colaboradores.
A peroba-rosa é semi-heliófila: no início pede sombreamento de intensidade moderada e, com o tempo, passa a tolerar luz. Quando jovem é medianamente tolerante ao frio, e em florestas naturais árvores adultas suportam mínimas de até -6ºC no Centro-Sul do Paraná. Seu crescimento em altura sempre se faz por três brotos, dos quais dois são suprimidos e um prevalece; este, por sua vez, emite outros três, de modo que mesmo nas plantas adultas os galhos terminam em três pequenos ramos. A desrama natural e a cicatrização são boas, sobretudo em plantio denso; já em espaçamentos mais largos (3 m x 3 m), é preciso fazer desrama artificial por causa das bifurcações próximas ao solo. A espécie é inadequada para plantio puro a pleno sol, mesmo em solo quimicamente fértil, podendo chegar a 100% de mortalidade. O ideal é o plantio misto associado a pioneiras, havendo bons resultados em consórcio com grevílea (Grevillea robusta) e com calabura (Muntingia calabura), ambos em São Paulo; nesses casos, as perobas circundadas por essas espécies crescem mais do que em plantios homogêneos, o que indica a necessidade de uma vizinha estimuladora para favorecer o crescimento e a qualidade do tronco. Também pode ser implantada em vegetação matricial arbórea de capoeira, capoeirão ou floresta secundária, com abertura de faixas e plantio em linhas. Após o corte, não rebrota dos tocos. Em conservação genética, a situação é preocupante: a espécie está em extinção no norte do Paraná e em Mato Grosso, onde é classificada como vulnerável, e integra as listas de conservação ex situ e in situ no Brasil e na Venezuela — neste último país é tida como muito ameaçada no estado de Zulia —, exigindo programas urgentes. Testes de procedências e progênies feitos em São Paulo revelaram variações de altura. É indicada para a recuperação de ecossistemas e a restauração de matas ciliares em locais sem inundação, além do uso paisagístico em parques.
O desenvolvimento inicial é muito lento, mas, a partir dos 12 anos, a produção em volume já classifica a espécie como de crescimento moderado, podendo atingir 5,90 m³/ha/ano. Em condições ideais, o incremento médio anual em altura nas duas primeiras décadas é de cerca de 50 cm.
A precipitação anual média vai de 850 mm na Bahia a 2.400 mm em Mato Grosso. As chuvas são bem distribuídas ao longo do ano no centro-sul do Paraná e no sul da Bahia, e principalmente periódicas, concentradas no verão, nas demais regiões. A deficiência hídrica varia de nula, naquelas duas regiões, a moderada, com seca de até 5 meses em São Paulo, na Bahia e no centro-oeste mineiro. A temperatura média anual fica entre 17,6ºC (Ponta Grossa, PR) e 25,6ºC (Cuiabá, MT); a média do mês mais frio entre 13,5ºC (Ponta Grossa e Telêmaco Borba, PR) e 22ºC (Cuiabá), e a do mês mais quente entre 21,4ºC (Ponta Grossa) e 27,4ºC (Cuiabá). A mínima absoluta registrada foi de -6ºC em Ponta Grossa. As geadas variam de 0 a 9 por ano, com máximo absoluto de 22 no Paraná. Pela classificação de Köppen, os tipos climáticos são tropical (Am e Aw), subtropical úmido (Cfa) no norte e noroeste do Paraná, temperado úmido (Cfb), menos frequente, no centro-sul paranaense, e subtropical de altitude (Cwa e Cwb).
A peroba-rosa alcança grande porte em Latossolo Vermelho distroférrico (latossolos férteis) e em Nitossolo Vermelho eutroférrico (terra roxa estruturada), ambos derivados da decomposição de basalto e diabásio. Em solos mais pobres, como os de origem arenítica e os espigões mais secos, seu porte é menor. Prefere solos bem drenados, de textura areno-argilosa a argilosa.