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Foto de Pereiro

Foto: Rapper Ouriço (Public domain) via Wikimedia

Pereiro

Aspidosperma pyrifolium

Apocynaceae CaatingaCerradoMata AtlânticaPantanal
  • até 9 mAltura
  • Pequeno portePorte
MedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: pereiro-do-sertão, pereiro-branco, pau-pereira, pau-pereiro, pereiro-preto, peroba, peroba-rosa, trevo, peroba-branca, pereiro-vermelho, peroba-paulista, pereira, pereira-preta, pereira-roxa, pereiro-de-saia, piquiá-preto

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pela classificação adotada pelo APG II, o pereiro pertence às angiospermas, no clado das euasterídeas I, ordem Gentianales, família Apocynaceae, gênero Aspidosperma. A espécie foi descrita por C. Martius como Aspidosperma pyrifolium, com publicação original em 1824 (Flora 7(1) Beil. (4): 136). Entre os sinônimos mais citados na literatura estão Aspidosperma refractum Mart., Aspidosperma bicolor Mart. e Aspidosperma molle Mart., embora a planta possua sinonímia bastante extensa, reunida em Marcondes-Ferreira. O nome do gênero, Aspidosperma, faz referência ao formato da semente, envolta por uma ampla asa em forma de escudo: vem da junção de aspis (escudo) e sperma (semente). Já o epíteto pyrifolium remete à semelhança da casca, da cor e do modo de ramificação com a pereira (Pyrus communis), árvore de climas frios e temperados — ou seja, planta de folhas semelhantes às de Pyrus.

Descrição botânica

Trata-se de uma planta de porte arbustivo a arbóreo e comportamento decíduo, embora em certas localidades mantenha total ou parcialmente a folhagem durante a estação seca. Os exemplares de maior porte chegam, na idade adulta, a cerca de 9 m de altura e 30 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). No Sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte, costuma apresentar-se em forma quase sempre "nanificada", isto é, com porte anão típico daquela região; já na Bolívia pode alcançar até 25 m de altura e 90 cm de DAP. O tronco é tortuoso e com bifurcações na porção superior, geralmente de fuste curto. A ramificação é dicotômica e a copa, pequena em relação ao tronco, exibe ramos tortuosos, castanhos, glabros e com algumas lenticelas, sendo pubérulos a tomentosos quando bem jovens. Em áreas mais secas, como na região dos Cariris Velhos (PB), a copa fica larga e os ramos pendem quase até o solo — origem do nome popular "pereiro-de-saia". No Brasil, a casca atinge até 20 mm de espessura (até 30 mm na Bolívia); a superfície externa (ritidoma) é esbranquiçada a cinza, rígida, com fendas longitudinais e transversais que lembram placas retangulares de 1 cm a 10 cm de comprimento por 1 cm a 2 cm de largura, deixando depressões ao se desprenderem. Seu gosto fortemente amargo facilita identificar a planta mesmo sem folhas, flores ou frutos. A casca interna (casca viva) é castanho-clara, formada por várias lâminas finas, e exsuda látex sem odor marcante quando incisada. As folhas são simples, alternas ou subopostas, ovais a obovadas, de consistência membranácea a cartácea, glabras ou pilosas (pubérulas a tomentosas quando jovens); têm base arredondada a obtusa, ápice obtuso, agudo ou acuminado, lâmina de 3,5 cm a 10 cm de comprimento por 3 cm a 5 cm de largura, face superior glabra ou pilosa e face inferior discolor; o pecíolo mede de 1,5 cm a 3 cm. A inflorescência é um dicásio modificado, subterminal e reduzido, quase subfasciculado, com 10 a 15 flores. As flores são pequenas, de corola esbranquiçada e actinomorfa, com fragrância muito agradável que se espalha pela Caatinga, sobretudo à noite. O fruto é um folículo piriforme, lenhoso e castanho, de 4 cm a 6 cm de comprimento por 3,5 cm de largura, que ao abrir-se em duas valvas libera de 4 a 5 sementes. As sementes são orbiculares e levemente cordiformes, com cerca de 14,77 mm de comprimento, 12,99 mm de largura e 1,15 mm de espessura, de superfície lisa e cor amarelo-escura tendendo ao marrom, circundadas por uma asa também amarelo-escura.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícolaenergia
Produtos e utilizações

A madeira é densa (massa específica aparente de 0,75 g/cm³ a 0,95 g/cm³; massa específica básica de 0,68 g/cm³), com alburno marrom-claro nitidamente separado do cerne marrom-roxo por uma zona de transição abrupta. Apresenta odor pouco perceptível, sabor indistinto, brilho elevado, grã reta ou entrecruzada e textura fina, com veteado de arcos sobrepostos definidos por linhas escuras dos anéis de crescimento. É resistente, macia, muito durável e de fácil trabalho, indicada para construções, estruturas pesadas, carpintaria, móveis grosseiros (apesar de lascar com facilidade), carrocerias, pisos, parquete, tacos, lambris, tornearia e chapas decorativas; suas dimensões reduzidas, porém, limitam o uso na construção civil. Não serve para celulose e papel. Como combustível, tem teor de cinzas de 0,72 g/100 g e poder calorífico de 18.672,1 kJ/kg. A planta é apreciada por caprinos — que consomem plântulas, folhas novas e maduras, flores e frutos — conforme relato de 20 de 32 produtores rurais entrevistados na região de Xingó (AL, BA e SE). Tem interesse apícola, sobretudo no Ceará, pela produção de néctar e pólen. Na medicina caseira, o cozimento da casca é usado em banhos para baixar febres intermitentes; amarga, a casca tem efeito tônico e emético e é empregada como remédio estomacal, além de servir, na veterinária, no tratamento de ectoparasitoses (sarnas, piolhos e carrapatos) de animais domésticos. Foram isolados alcaloides indólicos monoterpênicos com possível atividade antimalárica.

Aspectos ecológicos

Classificada como secundária inicial, é uma planta de crescimento lento que forma agrupamentos nos espaços mais desprovidos de outra vegetação e exibe xeromorfismo acentuado. Está associada ao bioma Caatinga (Savana-Estépica), em Alagoas, Bahia, Ceará, norte de Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, com frequência de até 98 indivíduos por hectare; em Cabaceiras (PB) foram registrados 118 indivíduos na borda e 154 no interior de uma área. No Cerrado, ocorre no Cerrado stricto sensu (Minas Gerais e Pernambuco) e no Cerradão (Bahia e Piauí). Na Mata Atlântica, está presente na Floresta Estacional Decidual montana (Minas Gerais e Paraíba) e na Floresta Estacional Semidecidual submontana (Minas Gerais). No Pantanal Mato-Grossense, aparece nas áreas de Chaco. Também habita matas ciliares (Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba e Pernambuco), brejos de altitude nordestinos, campos de dunas no Ceará, campos rupestres em Minas Gerais, carrascos em Pernambuco, inselbergs no semiárido baiano e formações de Seridó (Caatinga arbustiva e rala) no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. É frequentemente infestada por uma cochonilha (Ceroplastes sp., Coccidae) de carapaça cerosa espessa, que os sertanejos fundem para fabricar velas de qualidade aceitável; em contrapartida, possui alta resistência natural a fungos causadores da podridão-mole.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: ocorre de agosto a setembro em Minas Gerais; em setembro no Piauí; de setembro a novembro na Bahia; de outubro a novembro no Distrito Federal; em novembro em Alagoas e no Piauí; de outubro a março no Ceará; de dezembro a março em Pernambuco; e em janeiro no Rio Grande do Norte. Os frutos amadurecem de agosto a setembro no Distrito Federal, de agosto a outubro no Ceará e de dezembro a janeiro em Minas Gerais.

Fauna associada

Planta hermafrodita, é polinizada essencialmente por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão de frutos e sementes é anemocórica (pelo vento); é comum o fruto permanecer preso ao ramo mesmo depois de o vento ter levado todas as sementes, persistindo de um ano para o outro.

Plantio e silvicultura
Sementes

Como os frutos liberam as sementes quase logo após mudarem do verde para o castanho-claro, a colheita deve anteceder a dispersão para evitar perdas; depois, são mantidos em local ventilado para que se abram e liberem as sementes. Há cerca de 3 mil sementes por quilo, e mil sementes com asa pesam aproximadamente 125,50 g (Souza e Lima). Não é preciso tratamento pré-germinativo. De comportamento fisiológico ortodoxo, as sementes mantêm viabilidade por mais de 4 meses e permanecem viáveis sobre o solo seco por muitos meses, até as primeiras chuvas. Em germinador, a germinação atinge 86% entre 3 e 9 dias.

Produção de mudas

Recomenda-se semear diretamente em recipientes, como sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou tubetes de polipropileno de tamanho grande. Se necessária, a repicagem é feita de 4 a 6 semanas após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência iniciando entre 5 e 27 dias após a semeadura e poder germinativo elevado, chegando a 97%.

Características silviculturais

Espécie heliófila, deve ser cultivada a pleno sol e não suporta baixas temperaturas. Na Caatinga arbustiva é rara e ocorre na forma nanificada, com copa de ramos baixos próximos ao solo formando uma espécie de "saia" ao redor da base do caule; do centro dessa estrutura ergue-se, mais tarde, o caule principal, que entre 1,0 m e 1,5 m de altura desenvolve uma nova copa — daí o nome "pereiro-de-saia". É indicada para plantio misto, consorciada com outras espécies xerófilas, e rebrota com vigor após o corte, mesmo na Caatinga. Em sistemas agroflorestais, é recomendada em Minas Gerais para sombreamento de pastagens, oferecendo sombra média graças à copa irregular de 5 m a 6 m de diâmetro.

Crescimento e produção

Há poucas informações sobre o desempenho da espécie em plantios, mas seu crescimento é reconhecidamente lento. Sampaio e Silva elaboraram equações alométricas para estimar a biomassa aérea viva e a área de projeção da copa.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 260 mm, em Cabaceiras (PB), a 1.500 mm, no Distrito Federal, sob regime de chuvas periódicas. A deficiência hídrica é de moderada a forte no oeste da Bahia e no Pantanal Mato-Grossense, forte no norte de Minas Gerais e em parte do Nordeste, e de forte a muito forte durante quase todo o ano no sertão nordestino — a planta é xerófila e altamente resistente a estiagens fortes e prolongadas. A temperatura média anual situa-se entre 21 °C (Triunfo, PE) e 27,6 °C (Serra Negra do Norte, RN); a média do mês mais frio fica entre 18 °C (Triunfo, PE) e 26 °C (Morada Nova, CE / Picos, PI), e a do mês mais quente entre 22,5 °C (Brasília, DF) e 30,9 °C (Picos, PI). A mínima absoluta registrada foi de 1,4 °C, em Corumbá (MS), em 18 de julho de 1975. As geadas são ausentes na maior parte da área e raras em Mato Grosso do Sul. Segundo Köppen, os climas predominantes são As, Aw, Bsh e Cwa.

Solos

Cresce naturalmente na zona do sertão baixo, em várzeas, baixios e meias-encostas, em solos de tabuleiro ou não, geralmente rasos e de textura argilosa, inclusive entre pedras e rochedos. Em Brasília (DF), ocorre sobre solo calcário.