Pequizeiro
Caryocar brasiliense Cambess
- até 11 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: pequi, pequi-do-cerrado, piqui, pequiá, pequiá-verdadeiro, saco-de-bode, pitiá
Botânica
Pela classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), o pequizeiro pertence às angiospermas, clado das eurosídeas I, ordem Malpighiales (tratada como Theales no sistema de Cronquist), família Caryocaraceae e gênero Caryocar. A espécie é Caryocar brasiliense Cambess, descrita na Flora Brasiliensis Meridionalis (vol. 1: 322, tab. 67) em 1828. O nome do gênero une os termos gregos caryon (núcleo ou noz) e kara (cabeça), aludindo ao fruto arredondado, enquanto o epíteto brasiliense remete à origem brasileira da planta. Já o nome popular pequi nasce do tupi py (pele) e qui (espinho), referência aos espinhos presentes no caroço.
Trata-se de planta perenifólia que pode se apresentar como arbusto, arvoreta ou árvore. Os exemplares mais desenvolvidos chegam a cerca de 11 m de altura e 83 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, aferido a 1,30 m do solo) quando adultos; em Emas, perto de Pirassununga (SP), porém, dificilmente passa de 1,50 m. O tronco é retorcido, com fuste curto que não ultrapassa 5 m. A ramificação é cimosa e a copa, ampla e arredondada, com ramos jovens cobertos por pelos. A casca atinge até 10 mm de espessura, sendo a externa (ritidoma) acinzentada e marcada por fissuras e cristas sinuosas e descontínuas. As folhas são compostas, de filotaxia oposta, normalmente trifolioladas e raramente monofolioladas; os pecíolos chegam a 21 cm e são velutinos, com o último par de folhas muitas vezes subséssil e peciólulos de até 7 mm, sem estipelas. Os folíolos medem de 11,5 cm a 17 cm de comprimento por 8,5 cm a 16 cm de largura, variando de oval-elípticos a largamente elípticos, com margem crenada a serreada, face superior esparsamente velutina (raramente glabra) e face inferior com pelos concentrados nas nervuras; os folíolos laterais têm base oblíqua. A inflorescência forma racemos corimbosos reunidos no ápice da raque, com pedúnculo velutino de 8 cm a 18 cm e bractéolas de 2 mm a 5 mm de comprimento por 2 mm de largura. As flores são hermafroditas, actinomorfas, vistosas, de cor esverdeada a branca, com 5 cm a 7 cm de diâmetro e numerosos estames brancos. O fruto é uma drupa grande, de casca fina e verde-acinzentada, podendo ultrapassar 10 cm de diâmetro, com 4 a 6 lóculos; o mesocarpo é fibroso e rico em tanino, a polpa é gordurosa, comestível e de cor amarelada a alaranjada, e o endocarpo é duro, lenhoso e coberto de espinhos, separando-se eventualmente em mericarpos com uma semente. A semente é uma amêndoa oleaginosa, castanha e reniforme, com espinhos de cerca de 4 mm.
Uso e ecologia
Na alimentação, o pequi é muito valorizado pela população rural, que reconhece nele um alimento de primeira ordem, resumido no dito popular: “ano de muito pequi, ano de muita criança”. É bastante usado no Centro-Oeste e marca presença na culinária goiana, com destaque para a galinhada com pequi, prato típico em que se combina ao arroz e ao frango, resultando em receita saborosa, colorida e nutritiva. As sementes têm valor comercial, são comestíveis e lembram o amendoim no sabor, além de servirem para licores; tanto da polpa quanto da semente é possível extrair óleo. Os frutos são comercializados em mercados de Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Goiânia (GO) e São Paulo (SP), e a polpa em conserva, produzida pela agroindústria e com selo de qualidade, já chega a supermercados, feiras e mercearias. As folhas e os frutos também alimentam o gado no Cerrado, embora os espinhos do endocarpo possam causar ferimentos. Como planta melífera, fornece pólen às abelhas. A madeira é densa, com massa específica aparente de 0,86 g.cm-3 e básica de 0,611 g.cm-3, alburno bege-escuro e cerne amarelo-pardo; é imputrescível e resiste até à poluição dos detritos de currais, sendo aproveitada em móveis rústicos, caibros, dormentes, postes, esteios de curral e mourões. Não serve para celulose e papel, mas produz carvão de excelente qualidade, com poder calorífico de 7.571 kcal.kg-1. A maceração da madeira ainda fornece tanino e uma tintura castanho-escura usada em tingimento artesanal. Para fins medicinais, as sementes são tidas como tônicas e béquicas, as cascas atuam como febrífugas e o óleo da polpa, rico em vitaminas A e E, recebe atribuições anti-abortivas e afrodisíacas, sendo também usado na fabricação de sabão caseiro. O óleo da semente, misturado em partes iguais a mel de abelha e banha de capivara, é empregado popularmente contra resfriados, bronquites e edema pulmonar; no interior do Piauí e do Ceará, combinado ao mel de jandaíra, é indicado como calmante da coqueluche e como anti-inflamatório em casos de edema pulmonar.
O pequizeiro é uma espécie pioneira e heliófila. É pouco comum encontrar exemplares jovens em desenvolvimento na natureza. No bioma Cerrado, aparece no cerrado stricto sensu na Bahia, em Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, podendo alcançar até 95 indivíduos por hectare; também ocorre em cerradão (Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rondônia e São Paulo) e em campo cerrado (Paraná e São Paulo). No bioma Pantanal, registra-se no Pantanal Mato-Grossense com até 35 indivíduos por hectare e em Mato Grosso do Sul. Na Mata Atlântica, surge na Floresta Estacional Semidecidual, formação Montana, em Minas Gerais. Ainda é encontrada em ambientes ripários, campo de murundu (Uberlândia, MG), campos rupestres (Serra da Bocaina, MG, onde é frequente) e carrasco (Serra do Ambrósio, MG).
A floração ocorre de junho a outubro no Distrito Federal, de setembro a novembro em Minas Gerais e de setembro a dezembro em Mato Grosso do Sul e São Paulo. Os frutos amadurecem de outubro a fevereiro em Mato Grosso do Sul e de dezembro a maio em São Paulo.
A polinização é feita principalmente por morcegos: a cada anoitecer abrem-se apenas 2 ou 3 flores da inflorescência, que logo passam a secretar néctar em abundância. Os estames se distendem antes dos estiletes, mecanismo que tenderia a evitar a autofertilização, embora a espécie possa apresentar autopolinização e seja muito visitada por abelhas do gênero Trigona, o que sugere também a entomofilia. A dispersão é zoocórica, conduzida sobretudo por um marsupial (Didelphis albiventris) e pela gralha-do-cerrado (Cyanocorax cristatellus), e os frutos são intensamente predados pela fauna.
Plantio e silvicultura
Os frutos maduros caem ao chão e, com o impacto, o pericarpo se abre e expõe o mesocarpo, formado por uma polpa amarela rica em óleo, vitaminas e proteínas, e por um envoltório de finas agulhas que protege a amêndoa, chamado putâmen. Cada árvore produz de 500 a 2.000 frutos, e há de 145 a 200 sementes por quilo. Recomenda-se a estratificação em camadas sucessivas de areia lavada como tratamento pré-germinativo, lembrando que inibidores presentes no putâmen reduzem bastante a porcentagem e a velocidade de germinação. A viabilidade das sementes em armazenamento é curta.
A semeadura deve ser feita diretamente no recipiente, já que a espécie não suporta a repicagem. Como as mudas permanecem cerca de 1 ano no viveiro após a germinação até atingir o porte de plantio, e devido ao tamanho avantajado das sementes, indicam-se sacos de polietileno. O sistema radicial inicial é fascicular, diferindo das espécies típicas de solos secos, e a faculdade germinativa fica em torno de 70%. A planta apresenta baixa incidência de micorriza arbuscular. A propagação vegetativa por enxertia já foi obtida por alporquia, em plantas de 4 anos tratadas com 2.000 ppm de IBA, com anelamento por 30 dias e o ramo envolto em vermiculita úmida, sendo destacado após 15 dias; também é viável produzir mudas por cultura in vitro do embrião.
Espécie heliófila, o pequizeiro não tolera geadas, que podem destruir toda a parte aérea de plantas jovens. Necessita de podas de condução e de galhos. Rebrota com vigor a partir da touça após corte, fogo ou seca provocada por geada, podendo ser conduzida pelo sistema de talhadia, e é recomendada para sistemas agroflorestais (SAFs). Quanto à conservação genética, integra a lista vermelha de plantas ameaçadas de extinção no Paraná, na categoria vulnerável, e em Mato Grosso; atualmente é considerada ameaçada de extinção em razão da destruição do Cerrado para o cultivo de soja e a formação de pastagens, sobretudo em Goiás.
Há poucos registros sobre o desenvolvimento do pequizeiro em plantios, mas seu crescimento é considerado moderado.
A precipitação média anual varia de 900 mm, na Bahia, a 2.250 mm, em Rondônia, com chuvas bem distribuídas no Paraná (exceto no norte do estado) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica vai de pequena a moderada no inverno nos planaltos do centro e do leste de São Paulo e no sul de Minas Gerais, é moderada no sul de Rondônia, de moderada a forte no oeste de Minas Gerais, norte de Goiás e centro de Mato Grosso, e forte no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 17,6 ºC (Jaguariaíva, PR) e 25,6 ºC (Cuiabá, MT); a média do mês mais frio varia de 13,2 ºC (Jaguariaíva, PR) a 22,9 ºC (Goiás, GO) e a do mês mais quente, de 20,0 ºC (Diamantina, MG) a 27,4 ºC (Cuiabá, MT), com mínima absoluta de -7,1 ºC (Campo Mourão, PR). O número de geadas anuais vai de 0 a 12, com máximo absoluto de 28 no Paraná, mas predominam locais sem geadas ou com geadas raras. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Aw na Bahia, Distrito Federal, nordeste de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, noroeste de Minas Gerais, Rondônia e São Paulo; Cfa na região de Jaguariaíva (PR), onde é raro; Cwa no Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais e São Paulo; e Cwb na Chapada Diamantina (BA) e no sudoeste de Minas Gerais.
Cresce naturalmente em solos de baixa fertilidade química, mas não acumula alumínio nas folhas.