Pau-violeta
Dalbergia cearensis
- até 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: violeta, jacarandá-cega-machado, jacarandá-violeta, violete, violete-cipó, violete-rabo-de-macaco, violeto, cabiúna, coração-de-negro
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (subfamília Faboideae, tribo Dalbergieae), a violeta foi descrita como Dalbergia cearensis Ducke, com primeira publicação em Arquivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (vol. 4, p. 73). Conta com a sinonímia botânica Dalbergia variabilis Vogel var. bahiensis Hoehne. O nome do gênero homenageia o médico sueco N. Dalberg, enquanto o epíteto cearensis remete ao Ceará, estado onde foi coletado o material que serviu de referência para a espécie. Já o nome popular violeta tem origem na coloração do cerne de sua madeira. No comércio internacional, é conhecida como brazilian kingwood, kingwood e violetwood.
A violeta é uma planta decídua que varia de árvore a arbusto. Os exemplares de maior porte podem alcançar por volta de 10 m de altura e 40 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo) quando adultos; na Caatinga, porém, costuma ficar abaixo de 5 m de altura, com cerca de 10 cm de diâmetro. O tronco é ereto e relativamente reto, com fuste em geral curto, de até 1,50 m. A ramificação é dicotômica, a copa é rala e de galhos retorcidos, e os ramos da parte superior tendem a ser escandentes. A casca é delgada, com até 5 mm de espessura; a porção externa é parda, mas adquire tom acinzentado pela presença de líquens crustáceos, mostra-se bastante fissurada e não descama, embora a casca mais velha (ritidoma) se solte em placas alongadas, retangulares e grossas. As folhas compostas reúnem de 5 a 7 folíolos ovados a oval-lanceolados, membranáceos, de base arredondada e ápice afinado, com nervuras pouco marcadas; são glabros e medem de 2,5 cm a 5,5 cm de comprimento por 1,5 cm a 2,5 cm de largura. As flores nascem em panículas axilares pequenas e delicadas, de 3 cm a 4 cm de comprimento; são branco-amareladas, miúdas (3 mm a 4 mm), perfumadas como jasmim e sem pedicelo. O fruto é um legume samaroide, com uma asa achatada e uma única semente no centro, medindo de 3,5 cm a 8 cm por 0,8 cm a 1 cm; é indeiscente e tem cor que vai do creme ao marrom. A semente lembra um pequeno feijão: oval, levemente achatada, castanha, rugosa, com cerca de 8 mm de comprimento por 4 mm de largura.
Uso e ecologia
A madeira da violeta é o seu principal produto. Muito densa (1,20 g/cm³ a 15% de umidade) e imputrescível, apresenta cor que vai do rosa ou vermelho-claro ao castanho-escuro, com alburno amarelo-creme, textura fina e uniforme e grã reta (que pode ficar irregular nos anéis de crescimento). Durante a secagem tende a rachar, mas, depois de seca, mantém-se estável. Seu trabalho é satisfatório, desde que com ferramentas bem afiadas; recomenda-se testar a colagem antes, pois a superfície pode estar encerada, e fazer furos-guia para pregos e parafusos. Bem acabada, ganha um brilho notável. Por ser um dos pau-rosa de padrão e cor admiráveis, mas vindo de uma árvore pequena e com alburno muito contrastante (sujeito a fendas radiais), seu aproveitamento rende mais quando planejado, evitando desperdício. É empregada em móveis finos, painéis, estojos para rádios, além de bijuterias combinadas a metais nobres, cinzeiros, pesos para papel, suportes de livro, objetos de adorno, cabos de faca e tacos; também serve para folheados, marchetaria, incrustações decorativas e torneados. A madeira ainda fornece lenha e carvão de boa qualidade, que liberam aroma agradável semelhante ao cravo-da-índia quando queimados. Não é indicada para celulose e papel.
Trata-se de uma espécie secundária tardia, considerada endêmica da Caatinga. Nos ambientes onde vive, convive com espécies como pau-d'arco-roxo (Handroanthus impetiginosus), angico (Anadenanthera colubrina var. cebil), catingueira (Caesalpinia pyramidalis), jucá (Caesalpinia ferrea) e marmeleiro (Croton sonderianus), formando, nos terrenos de tabuleiro, agrupamentos de baixa densidade. Aparece na Floresta Estacional Decidual da vegetação de tabuleiros do Ceará e na Savana Estépica (Caatinga do sertão árido) de Pernambuco, Ceará, Minas Gerais e Piauí, onde chega a até cinco indivíduos por hectare. Ocorre ainda no carrasco do Ceará, no contato carrasco/caatinga do Piauí, no contato savana/floresta estacional decidual da Bahia e em encraves vegetacionais do semiárido nordestino.
A floração acontece de outubro a dezembro no Ceará e de novembro a dezembro em Pernambuco. Os frutos amadurecem em maio, na Bahia.
A polinização é feita por abelhas e diversos pequenos insetos. A dispersão das sementes ocorre pelo vento (anemocoria). As flores têm potencial apícola, oferecendo néctar e pólen.
Plantio e silvicultura
As vagens devem ser colhidas direto da árvore assim que começam a amadurecer ou secar, evitando o ataque de insetos. Cada quilo reúne de 2.000 a 2.500 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. De comportamento fisiológico ortodoxo, conservam-se viáveis por até 3 anos quando protegidas da exposição ao sol.
Indica-se semear em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, em tubetes grandes de polipropileno ou, eventualmente, em sementeiras para posterior repicagem. Por causa do sistema radicial da espécie, há quem recomende a semeadura direta no campo. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 5 e 8 dias após a semeadura e poder germinativo variável, de 15% a 70%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 6 meses depois da semeadura. As raízes da violeta estabelecem associação simbiótica com certas bactérias.
Heliófila e sensível ao frio, a violeta mostra grande variação de forma em plantios, do fuste bem conformado ao inadequado, e tem capacidade de rebrotar da touça. A forma das plantas pode melhorar com técnicas como espaçamentos mais estreitos, podas de formação e desrama; a aplicação de podas de formação sucessivas, já a partir do primeiro ano, ajuda a reduzir o número de bifurcações. Recomenda-se o plantio misto, consorciado com espécies de crescimento rápido, como o angico (Anadenanthera colubrina var. cebil). Ainda que não cresça rápido, pode ser cultivada em faixas arbóreas mistas entre plantações (sistemas agroflorestais).
Há poucos dados sobre o desempenho da violeta em plantios, mas sabe-se que seu crescimento é lento. O ritmo mais demorado, contudo, não deve desestimular o cultivo, já que o alto valor da madeira compensa a espera, podendo se tornar fonte extra de renda para os moradores do semiárido. A espécie encontra-se em risco de extinção no Ceará, ou prestes a se tornar rara a ponto de praticamente desaparecer. Outrora presente na Caatinga e no sopé das serras do Ceará e de Pernambuco, além de raras ocorrências no Vale do Paraguaçu, no agreste baiano, hoje é rara, mas ainda pode ser localizada em uma área de Caatinga no sopé da serra de Ibiapaba, de Ubajara (CE) até os municípios de Mucambo, Frecheirinha e Coreaú.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 570 mm, em Pernambuco, a 1.100 mm, no Piauí, com chuvas periódicas e forte deficiência hídrica no Nordeste e no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual fica entre 25,2 ºC (Barbalha, CE) e 27 ºC (Floriano, PI); a do mês mais frio, entre 23,8 ºC (Barbalha, CE) e 25,3 ºC (Quixeramobim, CE); e a do mês mais quente, entre 26,8 ºC (Barbalha, CE) e 30,2 ºC (Floriano, PI). A menor temperatura já registrada foi de 12,3 ºC, em Floresta (PE), em agosto de 1974. Não ocorrem geadas. Pela classificação de Köppen, predominam os tipos Aw (tropical com inverno seco), na Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pernambuco e Piauí, e BSh (semiárido quente), no Ceará, em Pernambuco e no sudeste do Piauí.
Cresce naturalmente tanto em áreas sedimentares quanto cristalinas, preferindo solos de textura arenosa de coluvião ou em baixadas das serras, incluindo aluviões fluviais secos.