Foto: Celso Henrique Varela Rios (CC BY) via GBIF
Pau-terra-grande
Qualea grandiflora
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: catuaba-roxa, pau-terra, pau-terra-macho, pau-terra-da-folha-graúda, pau-terra-da-folha-larga, pau-terra-de-folha-larga, pau-terra-do-campo, pau-terra-do-cerrado, pau-terra-de-folhas-grandes, pau-terra-verdadeiro, uvapuva-do-campo, ariauá
Botânica
A espécie foi descrita por Martius como Qualea grandiflora, com publicação em Nov. Gen. Sp. (1:133, t.79, 1824). Pertence à família Vochysiaceae e ao gênero Qualea, integrando a ordem Myrtales segundo o sistema APG II (no antigo arranjo de Cronquist, era colocada em Polygalales), dentro do clado das rosídeas entre as angiospermas. O nome do gênero deriva de "qualé", como esses vegetais eram chamados pelos povos nativos das Guianas, enquanto o epíteto grandiflora faz referência ao grande tamanho de suas flores. Já a denominação popular pau-terra alude à coloração vermelho-castanha do tronco, lembrando a cor da terra.
Trata-se de uma planta decídua que varia de arvoreta a árvore, podendo os exemplares maiores chegar a cerca de 30 m de altura e 70 cm de DAP (diâmetro medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco é tortuoso, com fuste em geral curto, de até 5 m. A ramificação é dicotômica e a copa, pequena, exibe galhos grossos; os ramos jovens têm tonalidade escuro-avermelhada. A casca chega a 20 mm de espessura: a porção externa (ritidoma) é suberosa e se desprende, de cor cinza-chumbo a castanha, com fissuras e cristas sinuosas e descontínuas, ao passo que a casca interna pode liberar goma. As folhas são opostas e cruzadas, com limbo oblongado de 10 a 20 cm de comprimento por 3,9 a 8,2 cm de largura, rígidas, de base arredondada e ápice acuminado, tomentosas na face inferior e com nervuras salientes; nos ramos de plantas mais velhas surgem folhas menores, coriáceas, dispostas no mesmo plano, cujas nervuras inferiores correm paralelas às margens; o pecíolo mede de 6,7 a 11,6 mm. As inflorescências formam racemos terminais ou axilares de 10 a 15 cm, ou pequenos cachos isolados nas axilas foliares. As flores são hermafroditas, irregulares e vistosas, alcançando até 8 cm de diâmetro, com pétalas amarelo-ouro inodoras e um lábio branco sobre fundo amarelo-claro. O fruto é uma cápsula lenhosa oblongo-ovóide, loculicida, trivalvar e deiscente, de 7,6 a 9,7 cm de comprimento por 3 cm de diâmetro, contendo numerosas sementes. As sementes, de até 3 cm, são providas de alas apicais membranáceas.
Uso e ecologia
Sua madeira é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,88 g/cm³ e massa específica básica de 0,685 g/cm³, textura média, macia ao corte e relativamente resistente ao cupim. É empregada regionalmente na fabricação de mourões e dormentes, mas não serve para celulose e papel. Como combustível, fornece lenha de boa qualidade e matéria-prima para carvão, com rendimento de carbonização de 34,46%, carbono fixo de 78,385% e poder calorífico superior do carvão de 7.387 kcal/kg. A casca e os frutos rendem matéria tintorial. Na medicina popular, o cozimento da entrecasca é aplicado topicamente como antisséptico no tratamento de feridas, ulcerações e doenças de pele, e a casca também é usada em lavagens contra inflamações de úlceras e feridas. A planta é melífera, e sua aparência ornamental a torna atraente para o paisagismo, embora cresça devagar.
Classificada como secundária inicial, a espécie está amplamente distribuída por todo o Cerrado do Centro-Oeste, aparecendo tanto em formações primárias quanto secundárias e em geral com grande número de indivíduos. Está presente em 88% da área do Bioma Cerrado e, no Triângulo Mineiro, registrou o segundo maior valor de importância. No Cerrado stricto sensu (savana) chega a 374 indivíduos por hectare em diversos estados, enquanto na Savana Florestada (cerradão) a densidade é bem menor, de até sete por hectare. No Pantanal Mato-Grossense, onde ocupa as ilhas de Cerrado, alcança até 20 indivíduos por hectare, e na Amazônia surge na Floresta Ombrófila Aberta de Rondônia. Ocorre ainda em ambientes ripários, campo cerrado, campo de murundu e campos rupestres ou de altitude.
A floração se estende de agosto a abril no Distrito Federal, acontece em outubro no Piauí, de outubro a janeiro em Minas Gerais, de outubro a fevereiro no Mato Grosso do Sul, de dezembro a janeiro em São Paulo e de dezembro a março em Goiás. Os frutos amadurecem de julho a agosto em Minas Gerais, de julho a setembro no Mato Grosso do Sul, de agosto a setembro em São Paulo e de agosto a outubro no Distrito Federal.
A polinização é feita basicamente por mariposas noturnas. A dispersão das sementes é anemocórica, ou seja, realizada pelo vento. Os frutos também servem de alimento a aves da família dos psitacídeos.
Plantio e silvicultura
A colheita deve ser feita diretamente na árvore assim que os frutos começam a abrir; em seguida, são postos ao sol para concluir a deiscência naturalmente. Cada quilo reúne de 5.200 a 8.300 sementes. Por apresentarem dormência tegumentar acentuada, exigem tratamento de 5 minutos em ácido sulfúrico concentrado, seguido de lavagem em água corrente a cerca de 25 °C por 24 horas. A viabilidade em armazenamento é baixa, mantendo-se por menos de 2 meses.
Indica-se semear duas sementes por recipiente, usando sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência ocorre entre 25 e 50 dias após a semeadura, com taxa de germinação em torno de 15% a 20%. As mudas ficam aptas ao plantio aproximadamente 10 meses depois da semeadura. A espécie também pode ser multiplicada por propagação vegetativa in vitro, com bons resultados.
Trata-se de planta heliófila, que não suporta temperaturas baixas. Na fase juvenil cresce de forma monopodial com ramificação discreta, e como a desrama natural é deficiente, recomenda-se realizar poda. Pode ser estabelecida em plantio puro a pleno sol ou em plantio misto; rebrota bem da touça, o que permite manejá-la pelo sistema de talhadia.
Não existem registros sobre o desempenho da espécie em plantios, mas seu crescimento é considerado moderado.
A precipitação média anual varia de 950 mm, em Minas Gerais, a 2.000 mm, no Pará, com chuvas bem distribuídas no centro-oeste do Paraná e sudoeste de São Paulo e regime periódico nas demais regiões. A deficiência hídrica oscila de nula a forte conforme a localidade, sendo mais acentuada no inverno do oeste de Minas Gerais e centro do Mato Grosso, além do oeste baiano, Ceará, norte do Maranhão e Piauí. A temperatura média anual fica entre 17,6 °C (Jaguariaíva, PR) e 27,5 °C (São Bernardo, MA); a do mês mais frio varia de 13,2 °C a 25,8 °C e a do mês mais quente de 20,0 °C a 29,2 °C, com mínima absoluta de -7,1 °C em Campo Mourão, PR. As geadas vão de 0 a 12 por ano em média (até 28 no centro-sul paranaense), sendo raras ou ausentes na maior parte da área. Segundo Köppen, predominam os climas Aw, Cfa, Cwa e Cwb conforme a região.
Em seu ambiente natural, cresce em solos secos, bem drenados e de baixa fertilidade química. Tolera altos teores de alumínio (acima de 1.000 mg/g), acumulando o elemento sem prejuízo aparente, e mostra notável capacidade de adaptação em comparação a outras espécies do Cerrado, ocorrendo tanto em solos distróficos quanto mesotróficos.