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Foto de Pau-sangue

Foto: David A. Rodríguez Arias (CC BY) via GBIF

Pau-sangue

Pterocarpus rohrii Vahl

Fabaceae Mata AtlânticaAmazôniaCerradoCaatingaPantanal
  • até 32 mAltura
  • Muito grandePorte
MadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: sangueiro, pau-sangue-casca-fina, sangue-de-galo, folha-miúda, mututi, mututi-branco, aldrago, dragociana, folha-larga, índio-que-chora, pau-vidro, sacambu-branco, sangue-de-aldrago

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Fabaceae (antiga Leguminosae) e à subfamília Faboideae (Papilionoideae), o sangueiro tem como nome científico aceito Pterocarpus rohrii Vahl, descrito em 1791. São tratados como sinônimos os nomes Pterocarpus violaceus Vog. e Pterocarpus steinbachianus Harms. No esquema do APG II, a espécie integra o clado das eurosídeas I e a ordem Fabales (que o sistema de Cronquist enquadrava em Rosales). O nome do gênero une os termos gregos ptero (asa) e carpus (fruto), referência ao fruto alado que se dispersa pelo vento, enquanto o epíteto rohrii presta homenagem ao botânico inglês Ernest Rohri.

Descrição botânica

Árvore perenifólia que, na fase adulta, pode chegar a cerca de 32 m de altura e 100 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é cônico e um tanto tortuoso, com fuste de até 15 m e base provida de grandes sapopemas tabulares. A ramificação é dicotômica e a copa, cônica e abaulada, exibe galhos pardacentos, roliços, anelados e canaliculados, ásperos por causa das cicatrizes; os ramos terminais são cilíndricos, glabros, lenticelados e com estípulas caducas. A casca atinge até 5 mm de espessura: a parte externa (ritidoma) é cinzenta, rugosa e coberta de lenticelas, soltando-se em placas grandes e irregulares; ao se cortar a casca interna, escorre uma seiva pegajosa cor de sangue, de consistência média e sabor amargo. As folhas são alternas e imparipinadas, com 3 a 12 folíolos opostos; o pecíolo cilíndrico e puberulento mede de 2 a 5,5 cm e a raque, de 3 a 19 cm; cada folíolo tem de 6,5 a 15 cm de comprimento por 3,5 a 7 cm de largura, é elíptico, com textura submembranácea a subcoriácea, ápice agudo a acuminado, base obtusa a cuneada, ambas as faces glabras e venação broquidódroma. A inflorescência forma racemos ou panículas axilares ou terminais de 9 a 13 cm, com pedúnculo e pedicelos pilosos. As flores, aromáticas, medem de 1,0 a 1,5 cm, têm corola amarela com uma mancha violácea em uma das pétalas e duas bractéolas na base do cálice. O fruto é uma sâmara de 4 a 8 cm de diâmetro, orbicular, comprimida, cartácea, lisa e reticulada, castanho-escura na maturação, com um pequeno esporão remanescente do estilete na margem; abriga de 1 a 3 sementes na porção central mais espessa, cercada por uma asa larga percorrida por nervuras que partem do centro. A semente é inseparável do fruto, dividida por um septo longitudinal e tem formato de feijão curvo em forma de bico.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasapícola
Produtos e utilizações

A madeira do sangueiro tem densidade moderada (massa específica aparente de 0,55 g/cm³), cerne branco-palha e uniforme, alburno indistinto, superfície lisa e medianamente lustrosa, textura média, grã direita e ausência de cheiro ou gosto marcantes. Apresenta baixa resistência ao apodrecimento e ao ataque de cupins de madeira seca. É empregada em acabamentos internos, como rodapés, guarnições e molduras, além de peças torneadas, embalagens, portas, painéis, fôrmas de concreto, caixotaria, tabuado, compensados e artigos esportivos. Rende boa pasta celulósica, sendo recomendada para a produção de papel, e na Bahia é indicada para carvoaria. A árvore também é muito ornamental, tanto pela folhagem brilhante e delicada quanto pela florada breve mas vistosa, o que justifica seu emprego no paisagismo e na arborização urbana — já praticado em Camanducaia (sul de Minas Gerais) e em diversas cidades paulistas — e seu uso em plantios mistos com nativas. Além disso, é uma espécie valiosa para a recuperação de áreas degradadas de preservação permanente.

Aspectos ecológicos

Classificada como secundária inicial a secundária tardia, a espécie aparece tanto em floresta primária densa quanto em formações secundárias. Na Mata Atlântica habita a Floresta Estacional Decidual do vale do Rio São Francisco (BA); a Floresta Estacional Semidecidual submontana e montana de Minas Gerais, Paraná e São Paulo (3 a 6 indivíduos por hectare); a Floresta Ombrófila Densa das terras baixas, submontana e montana na Bahia, Espírito Santo, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e São Paulo (até 4 por hectare); e a restinga da Paraíba, onde é rara. Na Amazônia ocorre na Floresta Ombrófila Aberta do Acre e na Floresta Ombrófila Densa de terra firme do Amapá, Amazonas e Pará (cerca de 1 por hectare). No Cerrado figura na savana de Roraima; na Caatinga, na savana-estépica da Bahia; e no Pantanal Mato-Grossense, em Mato Grosso. Também é encontrada em ambientes ripários do Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Paraná e Rondônia (até 3 por hectare), em brejos de altitude de Pernambuco e em cabrucas (Floresta Atlântica raleada sob cacau) no sul da Bahia.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: ocorre em outubro no Piauí; de outubro a dezembro no Paraná; de outubro a janeiro no Rio de Janeiro; em novembro em Minas Gerais; e de dezembro a março em Pernambuco. Os frutos amadurecem de maio a junho no Paraná, onde permanecem por mais alguns meses na árvore; em setembro no Rio de Janeiro; de setembro a outubro no Espírito Santo; e em novembro em Minas Gerais.

Fauna associada

Espécie monóica, é polinizada sobretudo por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, feita pelo vento, favorecida pela asa que envolve a sâmara.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore ou recolhidos do chão; como a extração das sementes é praticamente inviável, costumam ser semeados inteiros. Cada quilo reúne de 1.530 a 2.400 frutos. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. À temperatura ambiente, a viabilidade das sementes supera os 6 meses. Em ensaios de laboratório, a germinação foi de 20%.

Produção de mudas

Indica-se semear uma única semente por saco de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno; a repicagem pode ser feita de 1 a 4 semanas após a germinação. A germinação é cripto-hipógea, com emergência iniciando entre 16 e 50 dias após a semeadura e percentual variável em viveiro, de 30% a 70% para frutos novos. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 7 meses depois da semeadura. As raízes não estabelecem associação simbiótica com Rhizobium.

Características silviculturais

Heliófila a esciófila, a espécie não suporta baixas temperaturas. Costuma apresentar forma ruim, sem dominância apical clara, com caule acamado e ramificação pesada, e não faz desrama natural satisfatória, exigindo podas de condução e de galhos frequentes e periódicas. Pode ser conduzida em plantio misto a pleno sol, associada a pioneiras para melhorar o fuste, ou no enriquecimento em linhas de florestas secundárias; rebrota da touça ou da cepa. No sul da Bahia, é mantida no sistema de cabruca, sob plantação de cacau em meio à Floresta Atlântica raleada.

Crescimento e produção

Há poucos registros de crescimento em plantios. Segundo Lorenzi, o desenvolvimento em campo é apenas moderado, alcançando com facilidade 2,50 m de altura aos 2 anos. Em Linhares (ES), porém, o crescimento foi ruim e a mortalidade, elevada (87,5%). Em Rio Formoso (PE), num plantio com espaçamento 2 x 2 m, aos 13 anos restavam 40% das plantas, com altura média de 8,80 m e DAP médio de 10,5 cm.

Clima

A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 800 mm, no Rio de Janeiro, a 3.200 mm, no litoral paulista, com chuvas bem distribuídas na faixa costeira de SC, PR e SP, regulares ou periódicas no sul da Bahia e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula nas faixas costeiras do Sul e do Sudeste e varia de pequena a forte conforme o local. A temperatura média anual situa-se entre 19,3 ºC (Juiz de Fora-MG e São Paulo-SP) e 26,7 ºC (Manaus-AM); a mínima absoluta registrada foi de -4,6 ºC, em Brusque (SC). As geadas vão de 0 a 3,7 por ano em média, podendo chegar a sete no nordeste do Paraná e no leste de SC, mas predominam locais sem geadas ou com geadas raras. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Am, As, Aw, BShw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.

Solos

Ocorre naturalmente em várzeas muito úmidas e planícies alagadiças, além do início de encostas, preferindo, portanto, terrenos úmidos.