Foto: w_endo (CC0) via GBIF
Pau-rainha
Centrolobium paraense
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: muiracoatiara, muirapenima, pau-de-rainha
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (antiga Leguminosae) e à subfamília Faboideae, tribo Dalbergieae, o pau-rainha tem como nome científico aceito Centrolobium paraense Tul. Entre seus sinônimos botânicos figuram Centrolobium ochroxylum, Centrolobium orinocense e Centrolobium patinense. O nome do gênero une os termos gregos kentron (esporão) e lobium (vagem), referência ao grande lóbulo do fruto, que é revestido de espinhos pontiagudos lembrando uma espora. Já o epíteto paraense homenageia a antiga Província do Pará, que à época abrangia também o atual Amazonas e o território que hoje corresponde a Roraima. Curiosamente, entre as cinco espécies do gênero presentes no Brasil, esta é a única que não recebe popularmente o nome de araribá.
Trata-se de uma árvore decídua, que perde por completo as folhas durante a estação seca. Os maiores indivíduos chegam a aproximadamente 30 m de altura e 120 cm de diâmetro à altura do peito quando adultos, embora no Cerrado (Lavrado) de Roraima não passem de cerca de 5 m. O tronco é reto e cilíndrico, com sapopemas estreitas ou raízes tabulares, e pode formar fuste de 15 m ou mais. A ramificação é dicotômica e a copa, ampla, arredondada e bem aberta. A casca chega a 15 mm de espessura: a externa é cinza-escura, lisa a um pouco áspera, com fissuras superficiais leves, enquanto a interna é branco-creme e, ao ser cortada, libera uma resina vermelha. As folhas são alternas, compostas e imparipinadas, com estípulas orbiculares e pontudas de 6 mm; o pecíolo alcança 5 cm e há de 6 a 9 pares de folíolos membranáceos, de 7 a 12 cm de comprimento por 5 a 7 cm de largura, de base cordiforme, ápice obtuso ou levemente acuminado e face dorsal densamente coberta de pelos ferrugíneos. As inflorescências são panículas terminais (racemos) cobertas de pelos, com até 15 cm. As flores têm corola amarelada, estandarte com mais de 15 mm nas maiores e cálice de 9,2 mm. O fruto é uma sâmara levemente tomentosa, de 10 a 26 cm de comprimento por 5 a 9 cm de largura, armada com numerosos espinhos aciculares de 1 a 3 cm e esporão estilar de 10 a 13 mm; cada um contém de 1 a 3 sementes. As sementes, alojadas no núcleo seminífero, têm formato reniforme e coloração de alaranjada a marrom-escura, com grande variabilidade de tamanho, forma e cor do tegumento.
Uso e ecologia
A madeira do pau-rainha é considerada de primeira qualidade e, embora ainda pouco conhecida, presta-se à marcenaria de luxo, à fabricação de móveis finos e à construção civil e naval. É também aplicada em carpintaria, em cabos de ferramentas, bengalas, estacas, esculturas e obras hidráulicas, e, na construção civil, em vigas, caibros, escadas, pisos e cavacos. Tem massa específica moderada (0,70 a 0,80 g/cm³ a 15% de umidade; básica de 0,58 g/cm³), grã direita, textura de fina a média, brilho acetinado e cheiro agradável. Os anéis de crescimento são bem demarcados. É de fácil trabalhabilidade, com excelente acabamento no torno, e resiste bem a variações de umidade e temperatura, mas não é muito durável: cerca de 10 anos em ambiente externo, com baixa resistência a fungos e insetos, além de ser difícil de tratar por imunização. A secagem rápida deve ser evitada, pois causa empenamentos e rachaduras. Não serve para celulose e papel. Entre os povos indígenas de Roraima, é apreciada como lenha, graças ao alto poder calorífico. Os frutos verdes, ainda em vagem, são consumidos crus ou assados por populações locais e indígenas do sul do Equador; as sementes contêm cerca de 34,38% de lipídios, teor comparável ao de outras leguminosas alimentares. A planta também fornece um corante de tons avermelhados a roxos, útil para tingimento, e tem emprego medicinal entre indígenas da Amazônia, que usam a madeira cozida contra a hidropisia e o reumatismo e acrescentam pedaços de madeira à água para purificá-la.
Espécie de comportamento pioneiro a secundário inicial, ocorre na mata de terra firme da Amazônia brasileira, tanto no interior da floresta quanto na vegetação secundária, nas bordas de mata e em capoeirões, podendo formar maciços em áreas alteradas. Está associada à Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Amazônica) no Amazonas e em Roraima, ao Cerrado stricto sensu nas ilhas de mata de Roraima e a ambientes fluviais e ripários (mata ciliar) em ambos os estados. Na Colômbia, habita o Bosque Úmido Tropical e o Bosque Muito Úmido Tropical. É grande produtora de folhedo e tem enorme potencial na restauração de ambientes fluviais e ripários, com ou sem inundação temporária, e na recuperação de áreas degradadas. De distribuição endêmica na Amazônia brasileira e seriamente ameaçada de extinção, sobretudo pela exploração descontrolada sem manejo, é considerada prioritária em programas de conservação genética.
Hermafrodita, floresce de maio a agosto em Roraima e de junho a julho no Amazonas. Os frutos amadurecem de janeiro a março em Roraima e de junho a julho no Amazonas, e no Equador foram coletados em setembro. Em plantios, o ciclo reprodutivo começa a partir dos 6 anos de idade.
A polinização é feita por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes ocorre por gravidade e pelo vento. Na natureza, a abertura do tegumento lenhoso e a liberação das sementes dependem da ação de cupins, que atacam a casca dura, ou do fogo, fatores que permitem a entrada de água e favorecem a germinação.
Plantio e silvicultura
A colheita deve ser feita quando a sâmara muda da cor verde para o marrom-escuro, recolhendo-se os frutos na própria árvore ou no chão. Para extrair as sementes, costuma-se romper o tegumento com facão, serra-fita ou tesoura de poda, cortando do lado do esporão, onde as valvas estão unidas; esse método, porém, é lento, impreciso e provoca muitas perdas. A Embrapa Roraima desenvolveu uma alternativa eficiente: um esmeril adaptado, com a serra coberta por uma chapa de vinco central que limita a profundidade do corte, rompendo apenas o tegumento sem atingir as sementes. Há cerca de 3.305 sementes por quilo (na Colômbia foram registradas de 12.000 a 12.500). Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes mantêm-se viáveis por até 1 ano, desde que permaneçam dentro dos frutos.
A semeadura pode ser feita com os frutos sem a asa ou com as sementes já extraídas, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes grandes de polipropileno; quando preciso, a repicagem é feita de 1 a 2 semanas após a germinação. Não se recomenda semear o fruto inteiro, mesmo sem a asa, pois ele forma uma barreira que impede a passagem de água e retarda a germinação; o ideal é romper o tegumento e separar as sementes para obter mudas uniformes e em maior número. A germinação é epígea e fanerocotiledonar, com hipocótilo alongado, e a emergência ocorre entre 6 e 60 dias após a semeadura, conforme se use fruto ou semente. A germinação das sementes soltas é baixa, de 0% a 19%, mas deixando-se a semente dentro do fruto cortado chega a 45%, possivelmente porque o tecido fibroso do núcleo seminífero retém bem a água; o alto teor de lipídios e de ácido linoleico das sementes também pode estar ligado à baixa germinação por favorecer a oxidação. As mudas atingem porte de plantio cerca de 6 meses após a semeadura. Como substrato, recomenda-se misturar 1/3 de solo de floresta da área de ocorrência natural (fonte de bactérias fixadoras de nitrogênio), 1/3 de areia e 1/3 de adubo orgânico, como esterco bovino. Em viveiro, a planta forma nódulos esféricos de Rhizobium nas raízes, de coloração marrom, mas tais nódulos não foram encontrados em plantas crescendo em floresta primária.
Espécie heliófila, exige luz para completar o ciclo reprodutivo, embora tolere sombreamento na fase jovem; não suporta baixas temperaturas. A maioria dos indivíduos cresce de forma monopodial, com tronco reto, poucas ramificações, fuste bem definido e boa derrama natural, exigindo apenas a poda dos galhos nas árvores bifurcadas. Por ser tropical, recomenda-se evitar plantios homogêneos, a fim de reduzir pragas e doenças; o ideal é o plantio misto a pleno sol, consorciado com outras espécies ou em faixas abertas na vegetação secundária, plantando-se em linhas. A planta rebrota da touça, o que permite o manejo por talhadia. É usada na arborização de pastagens no Equador e em sistemas agroflorestais em Roraima.
Indivíduos plantados em Curuá-Una (PA) e em Roraima apresentaram crescimento juvenil bastante rápido, com desenvolvimento reto. Em plantios homogêneos na Colômbia, no espaçamento de 3 m x 3 m, o desempenho foi bom, com incremento de cerca de 1,5 m por ano em altura e de 1,5 a 2,0 cm por ano em diâmetro. A espécie está entre as de maior potencial genético e madeireiro a serem incorporadas em programas de seleção e melhoramento.
A precipitação média anual varia de 1.500 mm em Roraima a 2.700 mm na região de Barcelos (AM), com chuvas periódicas concentradas entre maio e agosto. A deficiência hídrica vai de pequena a moderada no sul de Roraima e em Barcelos, sendo moderada no oeste de Roraima. A temperatura média anual é de 26 ºC, com média de 24 ºC no mês mais frio e 29 ºC no mais quente; a mínima absoluta registrada foi de 10,7 ºC, em Barcelos, em 1989. Não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, o clima é Ami (tropical úmido a sub-úmido) no Amazonas e em Roraima, e Awi (tropical com inverno seco) no oeste de Roraima.
Na natureza, ocorre em solos ácidos, de fertilidade variável e textura argilo-arenosa.