Foto: Jorge Vallmitjana (Public domain) via Wikimedia
Pau-marfim
Balfourodendron riedelianum
- 6 a 20 m (até 35 m)Altura
- Grande portePorte
Também conhecida como: farinha-seca, farinha-seca-branca, gramixinga, guamuxinga, guarataia, guataia, guataio, guatambu, guatambu-branco, guaximinga, marfim, mucambo, pau-chumbo, pequiá-branco, pereiro-preto, pau-cetim, pau-liso, pequiá-marfim, pequiá-mamão, pequiá-mamona
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Rutales e família Rutaceae. O binômio aceito é Balfourodendron riedelianum, descrito por Engler em 1896, e que já recebeu os sinônimos Esenbeckia riedeliana Engler e Helietta multiflora Engler. O nome do gênero homenageia o escocês John Hutton Balfour, enquanto o epíteto específico lembra Ludwig Riedel, botânico alemão que integrou a Expedição Científica de Langsdorff ao Brasil em 1821; parte de suas coleções está hoje em museus de São Petersburgo, Gênova, Bruxelas, Berlim e Rio de Janeiro, cidade onde ele morreu.
Trata-se de uma árvore caducifólia que costuma medir de 6 a 20 m de altura e ter de 30 a 50 cm de DAP, mas que, já adulta, pode chegar a 35 m e a 100 cm de DAP. Há indícios de diferentes ecótipos, já que não é raro encontrar indivíduos que mantêm a folhagem durante o período de descanso fenológico. O tronco vai de reto e cilíndrico a levemente tortuoso, com fuste de até 15 m, e a ramificação racemosa forma uma copa larga e arredondada, por vezes irregular ou achatada. A casca tem até 20 mm de espessura: por fora é cinza a pardo-acinzentada, lisa a áspera, com muitas lenticelas branco-amareladas dispostas em fileiras longitudinais e pequenas concavidades de 2 a 3 cm que se desprendem — um traço útil para identificar a espécie; por dentro é esbranquiçada, dura e de textura arenosa. As folhas são compostas, trifolioladas, de filotaxia oposta e decussada, com pecíolo de 3 a 12 cm; os folíolos são elípticos e subglabros, de 5 a 12 cm de comprimento por 2,5 a 4,5 cm de largura (podendo alcançar 20 cm na regeneração natural), com o central sempre maior que os laterais, numerosos pontos pretos, domácias nas axilas e pontos translúcidos visíveis contra a luz; manchas fúngicas douradas são comuns e características. As flores são bissexuais, branco-amareladas, de 2 a 3 mm, agrupadas em panícula terminal muito ramificada de 5 a 10 cm; o ovário tem quatro carpelos, quatro lóculos e duas séries de óvulos por lóculo. O fruto é uma trissâmara (nucáceo ou diclésio) indeiscente, lenhosa, coriácea e seca, com quatro asas grandes radiadas verticalmente, verde quando imaturo e amarelo a acinzentado quando maduro, glabro e com peso seco de 0,99 g. A semente é elipsoide, anátropa, com testa negra, tégmen amarelado e embrião espatulado de reservas lipídicas nos cotilédones, mede até 9 mm e ocorre de 1 a 4 por fruto, às vezes com lóculos vazios por aborto.
Uso e ecologia
A madeira do pau-marfim é densa, com massa específica aparente de 0,80 a 0,90 g/cm³ a 15% de umidade e massa específica básica de 0,69 a 0,73 g/cm³. O alburno, branco e levemente amarelado, não se demarca com nitidez do cerne, que vai do branco-palha ao amarelo-pálido uniforme. Tem superfície lisa e medianamente lustrosa, textura fina, grã em geral regular (às vezes irregular ou reversa), gosto levemente amargo e odor imperceptível; combina flexibilidade e tenacidade excelentes. Sua resistência natural ao apodrecimento e a organismos xilófagos é baixa, mas, tratada sob pressão, absorve bem os preservantes. A secagem ao ar costuma não gerar defeitos, enquanto a artificial deve ser lenta para evitar empenamentos e endurecimento superficial; é fácil de serrar, trabalhar, acabar e colar. Logo após o corte, a madeira precisa ser descascada, serrada e estaleirada, pois é muito suscetível a fungos que a depreciam. Lembra a Betula verrucosa da Escandinávia e, nos Estados Unidos, substitui o Acer spp. em diversos usos. É indicada para móveis de luxo, peças internas da construção civil (vigas, caibros, ripas, rodapés, forros, tacos, assoalhos e lambris), marcenaria, molduras, cabos de ferramentas, compensados, lâminas faqueadas decorativas, peças torneadas, cutelaria e artefatos diversos; em ensaios do IPT de São Paulo, foi considerada uma das melhores madeiras nacionais para hélices de avião. Fornece lenha de qualidade variável e é inadequada para celulose e papel (fibras de 1,18 mm; lignina mais cinzas de 26,16%). A forragem contém 22% de proteína bruta e 1,6% de tanino.
É uma espécie secundária tardia e longeva, comum em capoeirões e na floresta secundária, surgindo não raro em meio a pastagens; na Selva Misionera argentina, já foram registradas 480 plantas por hectare em regeneração natural. Ocorre sobretudo na Floresta Estacional Semidecidual, na formação Submontana, onde ocupa o estrato superior, e na Floresta Estacional Decidual. Na Floresta Ombrófila Mista (com araucária) é menos frequente, alcançando o sul do Paraná e chegando perto de Curitiba, no alto da bacia do Rio Ribeira; em Santa Catarina é rara no Vale do Itajaí, domínio da Floresta Atlântica. Quanto à densidade, no Parque Nacional do Iguaçu respondeu por 16,8% das essências de maior valor econômico em três áreas inventariadas da Floresta Estacional Semidecidual, superada apenas pelas canelas; no Paraguai chegou a 9,3% do volume comercial da selva oriental; em Misiones, na Argentina, variou de 5 a 23 exemplares por hectare; e na Floresta Estacional Decidual do noroeste gaúcho foram encontrados oito indivíduos por hectare.
A floração varia conforme a região: de agosto a dezembro no Paraná, de setembro a janeiro em São Paulo, de setembro a fevereiro no Rio Grande do Sul, de outubro a janeiro em Santa Catarina e de março a abril em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de maio a setembro em São Paulo, em junho no Rio Grande do Sul, de junho a outubro no Paraná e de novembro a dezembro em Minas Gerais. O início da reprodução ocorre por volta dos 4 anos em plantios sobre solo fértil, ou cerca dos 15 anos em condições naturais.
A planta é hermafrodita e a polinização provavelmente envolve diversos insetos pequenos. Os frutos do pau-marfim são dispersos pelo vento (anemocoria), o que lhes garante grande alcance.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser recolhidos no chão quando mudam do verde para o amarelo-acinzentado. Como é o fruto que funciona como unidade de dispersão, recomenda-se cortar manualmente suas asas; retirar as sementes de dentro deles é possível, mas trabalhoso. Cada quilo reúne de 5.600 a 15.000 sementes, embora seja mais usual contar frutos, de 2.200 a 2.900 por quilo no Brasil (2.052 na Argentina). Para superar a dormência, indica-se mergulhar os frutos com as asas cortadas em água fria por 24 horas, já que o corte facilita a entrada de umidade; também se sugere escarificação mecânica e estratificação. Quanto à conservação, frutos com poder germinativo inicial de 37% guardados por 12 meses germinaram 7% em ambiente não controlado e 31% em câmara fria; a semente é classificada como de comportamento ortodoxo.
Sugere-se semear dois frutos por saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno. Como germinam até quatro plântulas por fruto, a repicagem é sempre necessária e deve ocorrer de 2 a 3 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa entre 27 e 150 dias após a semeadura, com taxa de 20% a 80% (média de 50%). O crescimento em viveiro é lento e as mudas ficam aptas ao plantio cerca de 8 meses depois da semeadura. Recomenda-se usar substrato com matéria orgânica e fertilizantes. Na propagação vegetativa, a enxertia por borbulhia atingiu 100% de êxito, contra apenas 38% pela garfagem; na Argentina, obtiveram-se bons resultados com micropropagação.
Trata-se de espécie semi-heliófila a esciófila: nos primeiros estágios tolera sombreamento de intensidade média e, quando jovem, suporta razoavelmente o frio; árvores adultas em mata natural resistem a até -8 ºC. Na fase jovem cresce de forma monopodial mesmo a pleno sol, formando fustes bem definidos, com galhos em pseudoverticilos; a desrama natural é plenamente satisfatória em plantios mistos e razoável nos puros, mas, para obter toras destinadas à laminação, convém podar os galhos. Pode ser plantada a pleno sol em pequenos plantios puros, em áreas sem geada e solos férteis, com bom desempenho, ou em plantio misto associada a pioneiras de crescimento inicial mais rápido. É citado o consórcio com Pinus taeda, de crescimento médio regular, e o plantio em linhas dentro de faixas de 2 a 3 m abertas na vegetação secundária, em regiões de geadas severas como o sul do Paraná, onde sobrevive bem, ainda que cresça menos. Rebrota da touça após o corte. Em termos genéticos, a espécie consta da lista de plantas ameaçadas no Paraná, na categoria rara; em São Paulo, sua conservação é feita por populações-base ex situ e in situ. A grande variabilidade entre indivíduos observada nos plantios aponta bom potencial de ganho com melhoramento, e os testes de procedências da Embrapa Florestas mostraram o melhor desempenho para Tenente Portela (RS) e o pior para Teixeira Soares (PR).
O ritmo de crescimento é de lento a moderado, e a maior produtividade volumétrica registrada em plantios foi de 12 m³/ha/ano aos 26 anos. Já foram desenvolvidas equações de volume comercial com e sem casca para os municípios paranaenses de Foz do Iguaçu e Guaíra. O reflorestamento com a espécie é economicamente viável a taxas de juros inferiores a 9% ao ano; acima disso, é preciso buscar alternativas para melhorar a relação custo-benefício, como a doação de mudas pelo poder público em vez da compra pelo produtor e o arrendamento da terra em vez de sua aquisição.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.000 mm, em São Paulo, a 2.200 mm, em Santa Catarina, com chuvas uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto no norte e noroeste do Paraná) e concentradas no verão no Centro-Oeste e no Sudeste. A deficiência hídrica é nula no Sul e moderada no Sudeste, com estação seca pouco marcada, chegando a três meses no sul do Mato Grosso do Sul. A temperatura média anual oscila entre 16,2 ºC (Castro, PR) e 22,3 ºC (Jaú, SP); a média do mês mais frio vai de 12,4 ºC a 18,7 ºC e a do mês mais quente de 20,4 ºC (Castro, PR) a 25,5 ºC (Foz do Iguaçu, PR), com mínima absoluta de -8,4 ºC em Castro. As geadas variam de 0 a 13 por ano em média, com máximo absoluto de 35 na Região Sul. Os tipos climáticos de Köppen correspondentes são o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o temperado úmido (Cfb).
Em condições naturais, o pau-marfim cresce em solos de alta fertilidade química e boas propriedades físicas — profundos, bem drenados e de textura franca a argilosa —, mas também tolera terrenos pedregosos e úmidos.