Foto: Pablo Cauã da Silva Toledo (CC BY) via GBIF
Pau-jacaré
Piptadenia gonoacantha
- 8 a 20 m (até 30 m)Altura
- Grande portePorte
Também conhecida como: angico, angico-branco, camboeteiro, camoeteiro, serreiro, caniveteiro, monjolo, casco-de-jacaré, icarapé, jacaré, jacarezeiro, monjoleiro
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Fabales e família Mimosaceae (Leguminosae Mimosoideae). A espécie é Piptadenia gonoacantha (Martius) Macbride, descrita em 1919. Já recebeu, ao longo do tempo, os sinônimos Acacia gonoacantha Martius, Piptadenia communis Bentham e Piptadenia vulgaris Bentham. O nome do gênero une os termos gregos piptein (cair) e aden (abundantemente), aludindo à queda das folhas; o epíteto gonoacantha combina gonia (ângulo) e acantha (acúleo), referência aos espinhos dispostos sobre as arestas da casca.
Árvore semicaducifólia que geralmente mede de 8 a 20 m de altura, com tronco de 20 a 50 cm de diâmetro (DAP), embora exemplares adultos possam alcançar 30 m e 90 cm de DAP. O tronco é reto, costuma ser tortuoso e exibe cristas aculeadas por toda a sua extensão; o fuste é normalmente curto, podendo apresentar vários troncos quando a árvore cresce isolada, mas atinge até 8 m de comprimento dentro da floresta. A ramificação é cimosa e dicotômica, com copa irregular, estreita e umbeliforme, e acúleos nos ramos finos. A casca, de até 5 mm de espessura, tem face externa marcada por cristas longitudinais ligadas por outras transversais menores, lembrando o couro do jacaré (origem do nome popular), e apresenta acúleos de até 2 cm; é áspera nas árvores jovens e torna-se rugosa ou fissurada com a idade, enquanto a casca interna é amarelada. As folhas são recompostas e paripinadas, com 5 a 9 pares de pinas e 26 a 46 pares de folíolos por pina, e pecíolo canaliculado com uma glândula verruciforme no centro. As flores são pequenas, de cor amarela-bege, agrupadas em espigas axilares de 5 a 9 cm, solitárias ou em conjuntos de 2 a 3 nas axilas superiores. O fruto é um legume seco, coriáceo, plano e deiscente, pardo, de 8 a 15 cm de comprimento por 1,7 a 2,5 cm de largura, contendo de 4 a 10 sementes. As sementes são pardo-amareladas, planas, lisas, ovaladas, sem endosperma e sem ala, medindo em média 9 mm por 8 mm.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,75 a 0,78 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,54 a 0,58 g/cm³). Alburno e cerne não se distinguem e têm cor bege levemente rosada; a superfície é lisa e pouco lustrosa, com textura grossa e grã irregular, sem cheiro ou gosto perceptíveis. Apresenta resistência média ao ataque de organismos xilófagos e é permeável a soluções preservantes sob pressão. Em uso local, presta-se a acabamentos internos, armações de móveis, brinquedos, entalhes, embalagens, miolo de portas, painéis, vigamentos, caibros, forros, tabuados de segunda categoria e mourões de cerca, sempre em situações de baixa exigência de durabilidade. Para energia, é uma das melhores madeiras nativas para lenha e carvão usado em siderurgia, com poder calorífico de 4.622 a 4.962 kcal/kg; queima bem mesmo verde, racha com facilidade e mantém combustão duradoura. Serve também à produção de celulose e papel, com fibras de 0,83 mm. Fornece tanino para curtume, com rendimento de 7,1% na madeira e 11,4% na casca. A forragem tem de 15,1% a 25% de proteína bruta. As flores melíferas conferem alto potencial apícola, com oferta de néctar e pólen.
Trata-se de espécie pioneira ou clímax exigente de luz, embora alguns autores a classifiquem como secundária inicial em vez de pioneira. É comum em vegetação secundária (capoeira, capoeirão e floresta secundária), invade terrenos abandonados e tem comportamento tipicamente gregário. Ocorre sobretudo na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), nas formações Terras Baixas e Submontana, e na Floresta Estacional Semidecidual, onde ocupa o estrato intermediário; é menos frequente na zona de contato com a Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária) e rara no Cerradão. Levantamentos fitossociológicos em Florestas Estacionais Semideciduais de Minas Gerais e São Paulo encontraram de 3 a 18 árvores por hectare.
A floração varia conforme a região: de agosto a janeiro no Distrito Federal; de agosto a fevereiro no Rio Grande do Sul; de setembro a janeiro no Paraná; de outubro a janeiro em São Paulo; de novembro a janeiro em Minas Gerais; e de dezembro a março no Rio de Janeiro. Os frutos amadurecem de maio a setembro no Paraná, de maio a outubro em Minas Gerais, de junho a novembro no Rio de Janeiro, de junho a dezembro em São Paulo e de julho a agosto no Distrito Federal. Em plantios sobre solos de alta fertilidade química, a reprodução começa por volta dos 3 anos de idade.
A polinização é feita principalmente por abelhas, com destaque para Apis mellifera, Melipona marginata (manduri), Melipona quadrifasciata (mandaçaia), Plebeia droryana e Plebeia remota (mirins), Plebeia saiqui, Scaptotrigona bipunctata (tubuna), Scaptotrigona depilis (tubiba), Scaptotrigona postica (mandaguari) e Tetragonisca angustula (jataí); também participam borboletas, mariposas e sirfídeos (Diptera: Syrphidae). A dispersão é autocórica, sobretudo barocórica (por gravidade), com participação anemocórica (pelo vento).
Plantio e silvicultura
Os frutos são colhidos quando começam a mudar de cor e devem ser abertos em local ventilado para a retirada das sementes. Cada quilo reúne de 12 mil a 20 mil sementes. Não há dormência, mas recomenda-se imersão em água por 30 a 36 horas para embebição. As sementes têm comportamento recalcitrante, conservando a viabilidade por apenas cerca de 6 meses em ambiente não controlado. Em laboratório, a faixa ótima de germinação fica entre 20ºC e 25ºC, no escuro.
Recomenda-se semear de preferência em sementeiras e repicar as plântulas para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, de 2 a 3 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa entre 4 e 34 dias após a semeadura, com alto poder germinativo (até 98%, em média 80%); as mudas ficam aptas ao plantio cerca de 4 meses depois da semeadura. As raízes associam-se a Rhizobium, formando nódulos coralóides com atividade da nitrogenase; como a sobrevivência costuma ser baixa em diversos plantios, recomenda-se inocular as mudas no viveiro com estirpes específicas de Rhizobium, já disponíveis.
Espécie heliófila que não tolera frio intenso. Seu hábito é variável e irregular, com tendência a multitroncos e acamamento do caule; em um povoamento avaliado, 41,3% das árvores tinham fuste único, 37,3% bifurcação, 15,8% quatro troncos, 0,9% cinco e 0,2% seis troncos na altura do DAP. A desrama artificial não é economicamente viável para obter madeira de uso mais nobre. Indica-se o plantio puro a pleno sol; também pode ser feito plantio misto a pleno sol com espécie de crescimento semelhante para melhorar a forma do fuste, como em consórcio bem-sucedido com grevílea (Grevillea robusta) no norte do Paraná, ou para proteger e tutorar nativas secundárias-clímax, como o guarantã (Esenbeckia leiocarpa). Rebrota com vigor da touça após o corte, podendo ser conduzida por talhadia em vários cortes. Presta-se a sistemas agroflorestais silviagrícolas, ao sombreamento de cafezais, à arborização de culturas e a barreiras e cercas vivas.
O crescimento é rápido, alcançando até 25 m³/ha/ano aos 8 anos e 30,80 m³/ha/ano aos 11 anos. Estima-se rotação de 6 a 8 anos para lenha e carvão e de cerca de 15 anos para madeira.
A precipitação anual de ocorrência vai de 1.000 mm na Bahia a 2.000 mm no Rio de Janeiro e no Paraná. As chuvas são bem distribuídas ao longo do ano na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e concentradas no verão nas demais áreas. Há deficiência hídrica moderada no inverno no sudeste de Minas Gerais e no norte do Paraná, com estação seca de até 4 meses. A temperatura média anual varia de 16,4ºC (Maringá, PR) a 26ºC (Itiúba, BA), comumente entre 18ºC e 22ºC; a média do mês mais frio fica entre 12,3ºC e 21,1ºC e a do mês mais quente entre 19,4ºC e 26,4ºC, com mínima absoluta de -5,5ºC (Rio do Sul, SC). O número de geadas vai de 0 a 12 por ano (máximo absoluto de 28 na Região Sul), predominando locais sem geadas ou com geadas raras. Os tipos climáticos de Köppen incluem tropical (Af e Aw), subtropical de altitude (Cwa e Cwb), subtropical úmido (Cfa) e, em menor escala, temperado úmido (Cfb).
Ocorre naturalmente em solos bastante variados, desde os de baixa fertilidade química, pedregosos e tidos como imprestáveis até os de boa fertilidade; no sudeste de São Paulo aparece em solo de origem calcária. Em plantio, desenvolve-se melhor em solos de fertilidade química média a alta, bem drenados e com textura areno-argilosa a argilosa.