Foto: (c) Leonel Roget, some rights reserved (CC BY), uploaded by Leonel Roget (cc-by) via iNaturalist
Pau-ferro-do-sul
Myracrodruon balansae
- 5 a 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: aroeirão, maracanã, pau-ferro, urundai
Botânica
Pelo Sistema de Classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Sapindales e família Anacardiaceae. O nome aceito é Myracrodruon balansae (Engler) D. A. Santin, publicado na Revista Brasileira de Botânica em 1991, tendo como sinônimo Astronium balansae Engler. O termo Myracrodruon deriva de myra, que significa bálsamo, enquanto balansae homenageia o botânico Balansa, responsável por onze anos de coletas de plantas no Paraguai.
Árvore semicaducifólia que costuma medir de 5 a 15 m de altura e ter de 20 a 40 cm de DAP, mas que pode chegar a 25 m e, em casos excepcionais, atingir 130 cm de DAP na fase adulta. O tronco vai de reto a ligeiramente tortuoso, com sapopemas na base, e o fuste alcança até 8 m de comprimento, podendo excepcionalmente chegar a 15 m. A ramificação é racemosa e dicotômica, formando copa rala e de contorno irregular. A casca tem até 20 mm de espessura: a parte externa é cinza-escura, dura, áspera, profundamente sulcada e dividida em placas irregulares, com fissuras longitudinais e transversais; a interna é bege, com tons rosados perto da superfície, e libera de forma irregular uma seiva roxa e amarga. As folhas são compostas, alternas e imparipinadas, com 13 a 22 cm de comprimento e de 7 a 15 folíolos opostos, lanceolados (3 a 6 cm de comprimento por 1 a 2 cm de largura), subcoriáceos, de margem serreada e ápice acuminado, discolores e com tonalidade laranja-avermelhada no começo da primavera; o pecíolo é fino e subquadrangular, e os folíolos, ao serem amassados, exalam uma resina incolor com forte cheiro de terebintina. As flores costumam ser unissexuais: as masculinas têm cerca de 4 a 5 mm e as femininas são bem menores (1 a 2 mm), todas amarelo-esverdeadas e reunidas em panículas racemosas densas e axilares de 8 a 15 cm, ou em tirsos mais curtos que as folhas. O fruto é uma drupa subglobosa e pontiaguda, de cor castanho-escura, medindo de 3 a 4 mm de comprimento por 2,5 a 3 mm de diâmetro, com cinco sépalas espatuladas persistentes e uma única semente. A semente é amarelo-alaranjada, bastante pequena e marcada por listras membranáceas.
Uso e ecologia
A madeira é muito densa, com massa específica aparente de 1,10 a 1,25 g/cm³ a 15% de umidade. O alburno é amarelado e o cerne, rosa-claro quando recém-cortado, escurece até o vermelho ao ser exposto ao sol, com veios mais escuros. A textura é fina, homogênea e nitidamente entrelaçada, com grã que varia de crespa a oblíqua. Destaca-se por sua durabilidade quando em contato com a terra e a água, comprovada por postes que resistem desde a época das antigas missões jesuíticas; por isso, dispensa tratamentos preservantes, embora seja muito difícil de impregnar. A secagem é lenta e exige estacionamento à sombra, e a trabalhabilidade é considerada difícil, já que se trata de madeira dura de serrar e pregar. Por ser resistente à flexão e ao impacto, presta-se à construção geral, carpintaria rural, carroçarias, pisos, estacas para pontes, dormentes, postes, palanques, mourões e peças torneadas ou talhadas. A lenha é de boa qualidade, com poder calorífico de 4.500 kcal/kg, mas a espécie não serve para a produção de celulose e papel. A casca contém até 16% de extrato tanante, aproveitado em curtumes. A árvore também é indicada para recuperação de ecossistemas degradados, restauração de mata ciliar em áreas com inundações rápidas e periódicas e revegetação de solos fracos e erodidos.
Classificada como secundária inicial, é uma espécie comum na vegetação secundária e bastante longeva. Na sua área natural, no Rio Grande do Sul, chega a dominar a vegetação ou a formar bosques quase puros e descontínuos, conhecidos como pau-ferral. Do ponto de vista fitoecológico, ocupa o estrato emergente da Estepe Arborizada, no Planalto Sul-Rio-Grandense, e também a Estepe Parque, no Planalto da Campanha Gaúcha. Fora do Brasil, é encontrada no Chaco paraguaio, em geral associada a Schinopsis balansae, e no Parque Chaqueño, na Argentina.
No Rio Grande do Sul, a floração acontece de novembro a janeiro e os frutos amadurecem entre janeiro e fevereiro. Em plantios, o início do processo reprodutivo ocorre entre 15 e 20 anos de idade.
Trata-se de planta polígama-dióica, com proporção de cerca de dois indivíduos masculinos para cada feminino. A polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte, enquanto a dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, realizada pelo vento.
Plantio e silvicultura
A colheita é feita direto na árvore, assim que os frutos mudam de cor, sendo eles levados para um local ventilado onde as sementes são retiradas à mão. Cada quilo reúne cerca de 15.625 sementes, equivalentes a aproximadamente 150.000 frutos frescos. Como as sementes não têm dormência, não é preciso aplicar tratamentos para superá-la. De comportamento recalcitrante, elas conservam a viabilidade por pelo menos 12 meses em ambiente sem controle ou em câmara seca à temperatura ambiente, com umidade relativa de 50%. Em laboratório, a germinação é favorecida a 25 ºC, tendo a areia como melhor substrato.
Recomenda-se semear em sementeiras e, depois, repicar as mudas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes grandes de polipropileno; a repicagem deve ocorrer de 5 a 10 semanas após a germinação. A germinação é do tipo fanero-epígea e começa entre 4 e 34 dias após a semeadura, com poder germinativo bastante variável conforme o ano de coleta e a árvore-mãe (de 15% a 96% em laboratório e de 40% a 70% em viveiro). As mudas atingem o tamanho ideal para o plantio cerca de 9 meses após a semeadura. Mudas de raiz nua com até 1 m de altura pegam bem no campo. Em substrato com alto teor de alumínio, observou-se, no viveiro da Embrapa Florestas em Colombo (PR), desuniformidade entre as plântulas, atraso de crescimento e mortalidade considerável.
Espécie heliófila e tolerante a temperaturas baixas. Apresenta acamamento do caule, boa desrama natural e boa cicatrização. O plantio puro a pleno sol é o método recomendado, e a árvore rebrota da touça após o corte. Vale registrar que a espécie vem sofrendo intensa erosão genética e já corre risco de extinção; diante de sua importância econômica, um programa de conservação é considerado urgente.
No Brasil, o crescimento é tido como moderado. Já na Argentina, a espécie é classificada como de crescimento rápido, alcançando produtividade volumétrica de até 18 m³/ha/ano.
A precipitação média anual varia de 1.100 a 2.000 mm no Brasil e parte de 600 mm na Argentina, com regime de chuvas periódicas marcado por verão seco e inverno chuvoso e pequena deficiência hídrica no verão. A temperatura média anual fica entre 19 ºC e 23 ºC; a do mês mais frio, entre 14 ºC e 18 ºC; e a do mês mais quente, de 24 ºC a 26 ºC no Brasil e de 20 ºC a 25 ºC na Argentina e no Paraguai. A mínima absoluta registrada foi de -4,2 ºC, em Santa Rosa. No Rio Grande do Sul ocorrem, em média, de 0 a 7 geadas por ano, podendo chegar a 20. O clima predominante é o subtropical úmido (Cfa) na classificação de Köppen, com tendência ao tipo mediterrâneo no extremo sul do estado.
Em condições naturais, a espécie cresce em solos rasos e litólicos de cor escura, pedregosos, com afloramentos rochosos, de profundidade mediana e textura argilosa, próprios de sítios com dificuldade de drenagem. Em experimentos, no entanto, desenvolve-se melhor em solos de alta fertilidade química, bem drenados e de textura argilosa.