voltar ao catálogo
Foto de Pau-ferro

Foto: Mauroguanandi (Public domain) via Wikimedia

Pau-ferro

Caesalpinia ferrea var. parvifolia

Caesalpiniaceae Mata AtlânticaCaatinga
  • 10 a 20 mAltura
  • Grande portePorte
Crescimento rápidoMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: giúna, ibirá-obi, imirá-obi, imirá-itá, jucá, pau-ferro-da-mata, muirá-itá, muirá-obi, muirapixuma, mururé, pau-ferro-do-norte, pau-ferro-verdadeiro, peroba-sobro, quebra-foice, quiriripiranga

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Fabales, dentro da família Caesalpiniaceae (Leguminosae Caesalpinioideae). O nome científico aceito é Caesalpinia ferrea Martius ex Tulasne var. parvifolia Bentham, publicado em 1870. São registrados como sinônimos botânicos Caesalpinia ferrea var. leiostachya Bentham e Caesalpinia leiostachya (Benth.) Ducke. O gênero Caesalpinia presta homenagem ao botânico italiano Andrea Caesalpinio; o epíteto ferrea remete à altíssima densidade da madeira, comparável ao ferro, enquanto parvifolia, do latim parvus (pequeno) e folium (folha), indica as folhas reduzidas em relação ao porte do caule.

Descrição botânica

Árvore semicaducifólia que normalmente mede de 10 a 20 m de altura, com diâmetro de tronco (DAP) entre 40 e 60 cm, mas que pode chegar a 35 m e 150 cm de DAP quando adulta, como ocorre em Pernambuco. Quando cresce isolada, o tronco costuma ser curto e bifurcado; já no interior da mata torna-se reto e cilíndrico, com fuste de até 15 m. A ramificação é dicotômica e simpódica, formando copa irregular e bastante ramificada, de folhagem miúda e verde-clara que contrasta com o marrom dos ramos. A casca tem até 10 mm de espessura: a parte externa é lisa, cinzenta e salpicada de manchas brancas irregulares sobre o fundo escuro do tronco, conferindo grande valor ornamental, e se renova anualmente exibindo tom verde-escuro; a interna é amarelo-clara e escurece em contato com o ar. As folhas são compostas e duplo-pinadas, com 9 a 13 pinas, cada uma com 18 a 32 folíolos pequenos e glabros. As flores, amarelas e brilhantes, são pequenas e formam panículas terminais de até 20 cm. O fruto é uma vagem chata, assimétrica, carnosa, lustrosa e indeiscente, de cor preto-avermelhada que escurece ao amadurecer; quando seco torna-se chocalhante, pois as sementes se desprendem dentro de cada lóculo. Mede de 5 a 10 cm de comprimento por 2 a 4 cm de largura e contém de 2 a 10 sementes, oblongas, marrom-escuras, de superfície rugosa e estriada, muito duras, com 5 a 10 mm de comprimento por 4 a 6 mm de largura.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícolaenergia
Produtos e utilizações

A madeira do pau-ferro é extremamente densa (massa específica aparente de 0,99 a 1,27 g/cm³ a 15% de umidade). Cerne e alburno têm coloração arroxeada, quase preta, percorrida por estrias mais claras de tom castanho. A superfície é irregularmente lustrosa, lisa ao tato e de aspecto fibroso, com textura média e uniforme, grã revessa e cheiro e gosto imperceptíveis. Apresenta boa durabilidade natural, mantendo-se intacta por muitos anos. Em compensação, é de trabalhabilidade difícil, sendo uma das madeiras mais duras de serrar manualmente; por causa das fibras revessas, costuma ser faqueada em vez de desdobrada. Resiste ao ácido azótico (água-forte) e, por isso, é usada por ourives na prova de ouro. Em produtos, a madeira serrada e roliça serve à construção civil e naval em caibros, eixos, esquadrias, tacos, portas e mobiliário fino, sobretudo na forma faqueada. Como combustível, fornece lenha e carvão de boa qualidade e, por seu teor muito alto de lignina, é considerada excelente para a produção de álcool, coque e carvão. Não é adequada para celulose e papel. A forragem da espécie tem bom teor de proteína bruta para alimentação animal.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie secundária inicial, longeva e com boa capacidade de regeneração natural na floresta. Cresce em diferentes regiões fitoecológicas: Floresta Estacional Semidecidual das Terras Baixas, Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), Caatinga/Mata-Seca e brejos de altitude de Pernambuco, onde chega a ocupar o estrato arbóreo superior.

Floração e frutificação

A floração acontece de outubro a maio em São Paulo, de dezembro a fevereiro em Pernambuco, em janeiro em Minas Gerais e em abril no Rio de Janeiro; quando plantada no Paraná, floresce de janeiro a março. A frutificação ocorre de fevereiro a junho em Pernambuco, de maio a dezembro em São Paulo, de maio a outubro em Minas Gerais e de agosto a setembro no Rio de Janeiro; em plantios no Paraná e no Rio Grande do Sul, frutifica de julho a setembro. Em locais adequados, a planta começa a se reproduzir por volta dos 3 anos de idade.

Fauna associada

É planta hermafrodita, polinizada sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, principalmente barocórica (pela ação da gravidade), além de zoocórica. As flores são melíferas, o que torna a espécie de interesse apícola.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos passam de verde a marrom muito escuro, quase preto, ao amadurecer. Como são indeiscentes, a colheita pode ser feita recolhendo-os do chão em área previamente limpa. A extração das sementes é manual, quebrando-se o fruto com cassetete ou martelo, embora também seja possível usar uma trituradora de grãos adaptada para sementes arbóreas. As sementes representam apenas 1% a 5% do peso bruto dos frutos colhidos, e há de 4.500 a 12.000 sementes por quilo. A dormência tegumentar é variável e exige tratamento pré-germinativo: imersão em água aquecida a 80ºC, retirando-se do fogo e deixando por 15 minutos; imersão em ácido sulfúrico p.a. por 5 minutos; ou escarificação química com ácido sulfúrico concentrado por 15 minutos, que rendeu até 92,91% de germinação. Outra opção é a escarificação mecânica seguida de embebição em água. Para grandes quantidades, recomenda-se a escarificação em pedra abrasiva seguida de 24 horas de embebição, prática eficaz para obter boas taxas de germinação, sobrevivência e emergência das plântulas. As sementes têm comportamento ortodoxo no armazenamento e, pelo baixo teor de óleo (em média 3,30%, além de 3,46% de cinzas, 8,09% de proteínas e 7,80% de amido), apresentam bom potencial de conservação a médio e longo prazo; em ambiente não controlado, mantiveram a viabilidade por 60 dias.

Produção de mudas

Recomenda-se semear duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 15 cm de altura por 9 cm de diâmetro, ou em tubetes de polipropileno grandes, a uma profundidade de cerca de 2 cm; as sementes podem ser colocadas com o hilo para baixo ou em posição natural de queda, sendo esta última a mais prática. Quando preciso, a repicagem é feita 2 a 3 semanas após a germinação ou quando as plântulas alcançam 5 a 7 cm. A germinação é epígea e começa entre 5 e 91 dias após a semeadura; sem o tratamento de dormência, torna-se irregular e lenta. O poder germinativo chega a 95% em sementes tratadas e cai para até 45% nas não tratadas. As mudas permanecem no viveiro por pelo menos 6 meses e devem ser conduzidas a pleno sol. A adubação mineral com NPK combinada ao adubo orgânico 'orgamin' favoreceu de forma significativa o desenvolvimento das mudas nessa fase. As raízes não se associam a Rhizobium. Na propagação vegetativa, a borbulhia alcançou 68,3% de êxito e a garfagem, 38,3%.

Características silviculturais

Espécie heliófila, o pau-ferro não tolera baixas temperaturas quando jovem, embora o plantio de mudas altas em locais frios, como na área urbana de Curitiba (PR), tenha se mostrado viável. Costuma apresentar acamamento parcial do caule, ramificação pesada e bifurcações desde a base, sendo recomendável o uso de tutores para mantê-la ereta; a desrama natural é insatisfatória e exige podas de condução e de galhos. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, com bom desempenho em solo fértil, ou em plantio misto com espécies de crescimento rápido, que ajudam a melhorar a forma do fuste. Rebrota da touça após o corte, sobretudo na fase jovem.

Crescimento e produção

O ritmo de crescimento vai de lento a rápido, podendo atingir produtividade volumétrica de até 17,20 m³ por hectare ao ano. O crescimento lento observado em Campo Mourão (PR) não tem explicação definida.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 700 a 1.800 mm na Bahia, com chuvas periódicas concentradas no verão ou no inverno e deficiência hídrica moderada, com estação seca de até 6 meses. A temperatura média anual fica entre 20,2ºC (Vitória da Conquista, BA) e 26,6ºC (Fortaleza, CE), e a mínima absoluta registrada foi de 7,3ºC, em Vitória da Conquista. Não há geadas em sua área natural. Pela classificação de Köppen, ocorre naturalmente em climas tropicais (Af e Aw) e subtropical de altitude (Cwa); a variedade leiostachya é cultivada como ornamental em clima subtropical úmido (Cfa) e temperado úmido (Cfb).

Solos

Na natureza, ocorre em várzeas úmidas de boa drenagem e textura franca a argilosa. Em experimentos, apresentou melhor crescimento em solos férteis, bem drenados e de textura franca a argilosa.