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Foto de Pau-ferro

Foto: Lucas Christofides (CC BY) via GBIF

Pau-ferro

Caesalpinia ferrea Mart. ex Tul. var. ferrea

Fabaceae CaatingaMata AtlânticaCerrado
  • 6 a 10 mAltura
  • Médio portePorte
Crescimento rápidoMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: jucá

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à família Fabaceae (chamada de Leguminosae no sistema de Cronquist), subfamília Caesalpinioideae, gênero Caesalpinia, dentro da ordem Fabales. Seu nome científico é Caesalpinia ferrea Mart. ex Tul. var. ferrea, com primeira publicação registrada em Archiv. Mus. Paris 4: 137. Como sinônimo botânico aparece Caesalpinia ferrea var. cearensis Huber. O nome do gênero homenageia o botânico italiano Andrea Caesalpinio, enquanto o epíteto ferrea remete à dureza da madeira, comparável à do ferro. Já o termo jucá (yucá), do tupi, significa "prisioneiro" — referência ao uso antigo da madeira pelos índios tupi na fabricação de tacapes, armas usadas para golpear inimigos e cativos.

Descrição botânica

Árvore de folhagem sempre-verde (perenifólia), que renova suas folhas anualmente. Os indivíduos maiores chegam a cerca de 6 m de altura e 30 cm de DAP na fase adulta, embora exista em Fortaleza (CE), no Passeio Público, um exemplar imune ao corte com 10 m de altura e 50 cm de DAP. O tronco é baixo e raramente reto, com ramificação dicotômica e galharia irregular, características que tornam o jucá fácil de reconhecer tanto na mata quanto isolado. A casca, de até 0,20 cm de espessura, é externamente acinzentada, lisa, fina e se renova a cada ano. As folhas são compostas, com 2 a 4 pinas, cada uma com 4 a 6 pares de folíolos glabros, oblongos e quebradiços, de pecíolos pubescentes na face inferior; quando jovens têm tom avermelhado, depois verde-claro e, por fim, verde-escuro-acinzentado. As flores, reunidas em panículas terminais, são pequenas, amareladas, perfumadas e trazem uma mancha vermelha no estandarte. O fruto é uma vagem castanho-escura, achatada e encurvada, contendo várias sementes. As sementes têm formato variável (de orbicular a oblonga, por vezes reniforme) e são pouco assimétricas e biconvexas, medindo de 7,1 a 10,41 mm de comprimento, 5,9 a 8,9 mm de largura e 3,3 a 5,0 mm de espessura; o tegumento é castanho (mais claro junto ao hilo), brilhante ou opaco, córneo, com estrias semicirculares partindo do hilo, que é circular, escuro e bem visível.

Uso e ecologia
medicinalmadeireiropaisagismorecuperação de áreasapícolaforrageiro
Produtos e utilizações

Na medicina popular o jucá é muito valorizado: a entrecasca ou os frutos triturados, em infusão ou xarope, são empregados contra contusões, feridas, tosse crônica e asma, e o decocto da casca e da raiz é indicado para enterocolites, diarreias, putrefações intestinais e afecções broncopulmonares. Atribuem-se à planta ações cicatrizante, anti-úlcera, hemostática, antidiabética, expectorante, anti-inflamatória, anti-helmíntica, antibacteriana e cardiotônica, atuando inclusive na redução da ulceração gástrica e na desobstrução das vias respiratórias — efeitos relacionados à presença de taninos e alcaloides. Entre seus constituintes fitoquímicos estão taninos, sitosterol, ácido palmítico, ácido octacosanoico, saponinas, óleo essencial, alcaloides, flavonoides e princípios cardiotônicos. As folhas, perenes, servem de boa forragem, especialmente para caprinos, que consomem plântulas, folhas, flores e frutos. As flores têm potencial apícola, oferecendo néctar e pólen. A madeira, muito densa (1,19 g/cm³), tem cerne extremamente duro de cor roxa a castanha ou vermelho-escura, quase preta, com manchas amareladas, superfície lustrosa e fibrosa, textura média uniforme e grã revessa; difícil de desdobrar mas elástica, presta-se a construção civil, móveis que exigem curvatura, rodas, aros e trabalhos pesados, ainda que o pequeno porte das árvores limite seu aproveitamento. É também excelente para a produção de álcool, coque e carvão. Na Chapada do Araripe, no sul do Ceará, a espécie é tradicionalmente usada na extração de tanino. As fibras, porém, são muito curtas e ricas em lignina, o que as torna inadequadas para a fabricação de papel.

Aspectos ecológicos

Trata-se de espécie pioneira que não chega a formar matas puras, mas surge em agrupamentos. Na Caatinga aparece com frequência junto a cumaru (Amburana cearensis var. cearensis), angico (Anadenanthera colubrina var. cebil), pau-d'arco-roxo (Handroanthus impetiginosus), mofumbo (Combretum leprosum), juazeiro (Ziziphus joazeiro) e jurema-preta (Mimosa tenuiflora). Por outro lado, está ausente das matas de pau-branco (Auxemma oncocalyx) e das áreas dominadas pela jurema (Piptadenia stipulacea) no sertão. Na Caatinga (Savana-Estépica) de Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte ocorre com até 15 indivíduos por hectare. No bioma Mata Atlântica é encontrada na Floresta Estacional Decidual das Terras Baixas do Rio Grande do Norte e na Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas do Rio de Janeiro, além de ambientes ripários, brejos de altitude, carrasco e da Floresta Estacional Decidual submontana de Goiás.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: ocorre de março a outubro na Bahia, de maio a junho no Ceará e de junho a setembro no Rio Grande do Norte. Frutos maduros foram observados em agosto, em Pernambuco.

Fauna associada

Espécie hermafrodita, tem suas flores visitadas pelas abelhas mamangava (Xylocopa spp.), que buscam pólen e néctar e atuam na polinização. A dispersão de frutos e sementes é autocórica, do tipo barocórica, ou seja, ocorre por gravidade.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos maduros mudam de verde para marrom-escuro, quase preto, e podem ser colhidos diretamente da árvore ou recolhidos do solo limpo logo após a queda. As sementes são extraídas manualmente, quebrando-se o fruto com cassetete ou martelo, ou por meio de trituradora de grãos adaptada. Cada quilo reúne de 2.000 a 2.500 sementes, e mil sementes pesam cerca de 160,20 g. Como apresentam forte dormência tegumentar, recomenda-se quebrá-la por imersão em água fervente por 15 a 30 minutos após retirada do fogo, ou em ácido sulfúrico concentrado (95% a 98%) por 60 minutos; há registros de bons resultados com apenas 1 minuto em ácido sulfúrico. De comportamento fisiológico ortodoxo, as sementes conservam o poder germinativo por 12 meses, seja em câmara fria (4 ºC) ou à temperatura ambiente.

Produção de mudas

Indica-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 10 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno. A repicagem, quando necessária, deve ocorrer de 2 a 3 semanas após a germinação ou quando as plântulas tiverem de 5 a 7 cm. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa entre 3 e 72 dias; a faculdade germinativa fica entre 0,5% e 30% com sementes não tratadas e sobe para 61% a 99% com sementes tratadas. Em solo de Fortaleza (CE), a espécie formou endomicorrizas, mas não nódulos bacterianos, respondendo à inoculação de fungo micorrízico e ao superfosfato simples em até 374%.

Características silviculturais

Espécie heliófila, não suporta temperaturas baixas. Costuma apresentar acamamento parcial do caule, ramificação pesada e bifurcações desde a base, sendo recomendável o uso de tutores para mantê-la ereta; a derrama natural é insatisfatória, exigindo podas de condução e dos galhos, e a planta rebrota da touça ou da cepa. Pode ser cultivada em plantio puro a pleno sol ou em plantio misto, associada a espécies de crescimento rápido para melhorar a forma do fuste. Em sistemas agroflorestais, com manejo e consórcio adequados, contribui para o melhoramento do solo e do microclima, além de fornecer forragem e madeira.

Crescimento e produção

Há poucas informações sobre o desempenho da espécie em plantios, mas seu crescimento é considerado lento.

Clima

A precipitação média anual varia bastante, de 316 mm no Sertão dos Inhamuns (sudoeste do Ceará) a 1.500 mm na Paraíba, com regime de chuvas periódicas. A deficiência hídrica vai de forte (norte do Piauí, oeste da Bahia, norte de Minas Gerais) a muito forte durante quase todo o ano no interior do Nordeste, sendo permanente na depressão do Rio São Francisco e no interior da Paraíba e do Rio Grande do Norte. A temperatura média anual fica entre 21 ºC (Triunfo, PE) e 27,6 ºC (Serra Negra do Norte, RN), com mínima absoluta de 10,1 ºC, registrada em Paulo Afonso (BA), em 11 de dezembro de 1971; geadas são ausentes. Segundo Köppen, ocorre nos climas As (tropical com verão seco), Aw (tropical com inverno seco), BSh (semiárido quente) e Cwa (subtropical com inverno seco e verão quente, em Campo Maior, PI).

Solos

Adapta-se a uma ampla variedade de condições, mas tem preferência por solos profundos e de textura argilosa, ou por solos de tabuleiro e coluviões profundos.