Foto: Tiago Lubiana (CC0) via GBIF
Pau-de-cutia
Esenbeckia grandiflora
- geralmente 2 a 5 m, podendo chegar a 12 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: mucambo, cocão, três-folhas, cotia, pau-de-cotia, canela-de-cutia, cutia, cutia-amarela, guarantã, guaxupita, pau-cotia, pau-cutia, pau-de-arco, pitiguará, canela-de-cotia, guamixira, zé-pires
Botânica
Seguindo a classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Eurosídeas II e ordem Sapindales, dentro da família Rutaceae e do gênero Esenbeckia. O binômio é Esenbeckia grandiflora Martius (Mart.), descrito pela primeira vez em 1831 (Nov. gen. sp. pl. 3: 85). Tem como sinônimo botânico Polembryum jussieui Schott. O nome do gênero homenageia os irmãos alemães Christian Gottfried e Theodor Friedrich Ludwig Nees von Esenbeck, botânicos de destaque; já o epíteto grandiflora vem do latim grandis (grande) e flora (flor), referência às suas flores avantajadas.
Trata-se de uma planta que varia de arbustiva a arbórea, de folhagem perene (sempre-verde). Em geral mede entre 2 e 5 m de altura, mas os exemplares de maior porte alcançam cerca de 12 m de altura e 20 cm de DAP na fase adulta. O tronco costuma ser pouco tortuoso, com fuste curto ou ausente, e a ramificação é fina, racemosa e quase horizontal, dando origem a uma copa alongada e pequena, de folhagem verde-escura e rala. A casca atinge até 10 mm de espessura, sendo a parte externa (ritidoma) escura, áspera, fina e bastante fibrosa. As folhas são simples, alternas e ocasionalmente subopostas; o folíolo é coriáceo, séssil, de formato oboval a elíptico, com ápice agudo (às vezes emarginado), margem inteira, base aguda e nervação broquidódroma, medindo de 5,5 a 18 cm de comprimento por 2,6 a 6 cm de largura, com a face superior glabra e a inferior glabra a hirsuta. O pecíolo, cilíndrico e geniculado no ápice, tem de 5 a 18 mm, enquanto o peciólulo, túrgido, mede cerca de 1 mm. A inflorescência é uma panícula pauciflora subterminal e estrigosa, com eixo principal de 5 a 12 cm. As flores, de cerca de 14 mm de diâmetro, variam de creme-esverdeadas a avermelhadas, com sépalas de 1,5 a 2 mm e pétalas lanceolado-ovadas a ovadas de 4 a 5 mm. O fruto é lenhoso e subgloboso, achatado no sentido dorso-ventral, com 25 a 30 mm de diâmetro e cerca de 20 mm de altura, recoberto de espinhos triangulares de base robusta com 3 a 5 mm. As sementes são ovoides, castanho-escuras a pretas na ponta, medindo aproximadamente 1 cm por 0,5 cm.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa, de cerne amarelo-limão e uniforme quando recém-cortado, que escurece para um tom amarelo-dourado ao ser exposto ao ar. A superfície é lustrosa, embora um pouco áspera ao toque, com cheiro próprio e agradável, textura média e uniforme e grã direita e ondulada. Por oferecer certa resistência, é bastante empregada em varais de carroça e na fabricação de cabos de ferramentas como martelos, pás e machados. As flores têm potencial apícola pela produção de pólen. Quanto à composição química, recomenda-se investigar a presença do alcaloide esenbeckinum, identificado em Esenbeckia intermedia.
É classificada como espécie secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. Apresenta ampla e marcante dispersão, sendo comum em florestas de encostas íngremes e em topos de morro. Em uma capoeira baixa em Piracicaba (SP) registrou-se o recrutamento de cinco indivíduos por hectare com altura igual ou superior a 50 cm. Ocorre em diversas formações: na Amazônia, em Floresta Ombrófila Densa de terra firme, no Pará; na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Decidual (rara no oeste catarinense), Floresta Estacional Semidecidual (chegando a 17 indivíduos por hectare), Floresta Ombrófila Densa e Floresta Ombrófila Mista (com araucária); e no Cerrado, em cerrado stricto sensu no Distrito Federal, onde parece ser rara e restrita a encostas. Também aparece em matas ciliares (até 18 indivíduos por hectare), florestas higrófilas, ecótono savânico-florestal, afloramentos rochosos e restingas.
A floração ocorre de novembro a fevereiro em Santa Catarina, de janeiro a abril no Paraná e em maio no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de junho a setembro no Distrito Federal, em julho no Paraná e de setembro a fevereiro no Rio Grande do Sul.
Espécie hermafrodita, polinizada por moscas (miofilia). A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, ou seja, ocorre por gravidade.
Plantio e silvicultura
Os frutos, ainda verde-claros, devem ser colhidos diretamente da árvore antes de abrirem naturalmente e, depois, expostos ao sol para concluir a abertura e soltar as sementes. Como a deiscência é explosiva, convém envolver os frutos com tela fina para não perder as sementes. Cada quilo reúne de 9.500 a 12.500 sementes. A pré-hidratação funciona como tratamento pré-germinativo, adiantando o início da germinação e tornando-a mais rápida. As sementes têm comportamento fisiológico ortodoxo e mantêm a viabilidade por mais de 4 meses em armazenamento.
A semeadura pode ser feita em canteiros, sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno; quando as mudas dos canteiros atingem de 4 a 6 cm, devem ser repicadas para recipientes individuais. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência começa entre 8 e 30 dias após a semeadura, geralmente com taxa alta (76% a 100%). As mudas ficam prontas para o plantio em 8 a 12 meses. Como a espécie tem raiz pivotante, a retirada das mudas é difícil, por isso o transplante deve ser feito quando as plantas estiverem com 10 a 15 cm de altura.
É uma espécie umbrófila, bastante tolerante à sombra, mas sensível ao frio, não suportando geadas enquanto jovem. Tanto em plantios quanto em populações naturais surgem indivíduos com brotação intensa ao longo do tronco, o que causa engrossamento e defeitos no fuste. Recomenda-se evitar plantios puros a pleno sol, pois nessas condições as árvores costumam bifurcar-se e deformar-se, exigindo poda.
Há poucos registros sobre o desenvolvimento da espécie, mas o crescimento é considerado lento.
A precipitação média anual varia de 1.200 mm, no Espírito Santo e em Minas Gerais, a 3.200 mm, em São Paulo, com chuvas uniformes no Sul do país e periódicas no restante da área. A deficiência hídrica vai de nula, no Sul, a moderada nas demais regiões. A temperatura média anual oscila entre 17,6 °C (Ponta Grossa, PR) e 26,1 °C (Marabá, PA), com mínima absoluta de -6 °C registrada em Ponta Grossa. As geadas variam de frequentes no Paraná (até 22 por ano, média de 9) a ausentes na maior parte da área. Pela classificação de Köppen, abrange os tipos Af, Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
A espécie mostra-se, aparentemente, indiferente às características físicas do solo.