Foto: Emily Franzen (CC BY) via GBIF
Pau-de-balsa
Ochroma pyramidale
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: algodoeiro, algodoeiro-bravo, algodão-bravo, paco-paco, pau-de-jangada, balsa, pata-de-lebre, topa
Botânica
Pertence à família Malvaceae (à qual era atribuída a antiga Bombacaceae no sistema de Cronquist), ordem Malvales, no agrupamento das Eurosídeas II segundo a classificação do APG II. A espécie foi descrita como Ochroma pyramidale (Cav. ex Lam.) Urb., e teve diversos sinônimos ao longo do tempo, como Bombax pyramidale, Ochroma lagopus e Ochroma boliviana, entre outros. O gênero Ochroma deriva do grego e remete ao tom pálido das flores, enquanto o epíteto pyramidale faz alusão ao formato da copa. O nome popular balsa foi atribuído pelos espanhóis ao verem indígenas construírem embarcações com a sua madeira leve.
Árvore perenifólia (sempre-verde) que, quando adulta, alcança cerca de 30 m de altura e 120 cm de diâmetro à altura do peito. O tronco é reto, cilíndrico a quase cônico, sem acúleos e muitas vezes com sapopemas; o fuste é livre de ramos e chega no máximo a 15 m. A ramificação é dicotômica e a copa, aberta, formada por poucos galhos grossos e espalhados. A casca tem até 12 mm de espessura, sendo a externa lisa e de cor cinza-rosada com cicatrizes lineares, e a interna fibrosa, creme-amarelada ou às vezes rosada. As folhas são simples, alternas e grandes (10 a 40 cm de comprimento por 10 a 35 cm de largura), de consistência sub-íntegra a cartácea, dentadas, com 3 a 5 lobos profundos, base cordada e ápice curtamente acuminado; a face superior é opaca e glabra, e a inferior densamente recoberta por pelos estrelados ferrugíneos. O pecíolo, cilíndrico e piloso, mede de 10 a 25 cm e traz duas estípulas largas e arredondadas. As flores são brancas ou esbranquiçadas, solitárias ou terminais, grandes (10 a 20 cm de comprimento por 7 a 9 cm de diâmetro), com pedicelos de 4 a 11 cm e nascidas em pedúnculos largos e grossos nas pontas dos ramos. Os frutos são cápsulas sublignificadas e alongadas (10 a 25 cm por 2,5 a 5 cm), que se abrem em cinco valvas escuras e glabras liberando um tufo de lã marrom envolvendo numerosas sementes; lembram os de Ceiba pentandra (sumaúma), porém mais compridos, e fornecem paina semelhante. As sementes são castanho-escuras, com 2 a 5 mm de comprimento e cerca de 1,5 mm de diâmetro, com um extremo acuminado e envoltas em abundante fibra algodonosa.
Uso e ecologia
A madeira do pau-de-balsa, quando jovem, é uma das mais leves comercializadas (0,07 a 0,35 g/cm³, mais leve que a cortiça), com massa específica básica de 0,247 g/cm³. O cerne é castanho-pálido a avermelhado e o alburno quase branco-palha, com manchas acinzentadas ou róseas; tem grã direita, textura fina, é insípida, inodora, aveludada ao tato e de lustre acentuado. É fácil de trabalhar, colar e impregnar, embora não segure bem pregos e parafusos e tenha baixa durabilidade natural, apodrecendo rápido em contato com o solo; ainda assim apresenta boa resistência mecânica e flutua na água. Por essas qualidades, é empregada em balsas, barcos e jangadas para navegação fluvial, na construção aeronáutica, em aeromodelismo e nautimodelismo, boias salva-vidas, painéis e forros, maquetes, brinquedos, isolamento térmico e acústico, fôrmas de chapéus e até diafragmas de microfones, substituindo a cortiça em muitas aplicações. Por ser leve, barata e não transmitir cheiro ou sabor, é uma das madeiras mais usadas em caixas para transporte de alimentos no mundo todo. Foi com troncos dessa espécie que se construiu a jangada Kon-Tiki, na travessia do Peru à Polinésia, e a madeira também serviu em aviões bombardeiros ingleses na Segunda Guerra Mundial; o Equador é hoje o principal produtor mundial de balsa. A planta também é recomendada para celulose e papel, produz carvão de qualidade inferior (teor de cinzas de 0,18%, carbono fixo de 11,91% e lignina de 18,05%), e fornece fibras da casca interna usadas como soga, além da paina (kapok) que envolve as sementes, aproveitada no enchimento de colchões, almofadas e travesseiros. Na medicina popular, o decocto da casca do tronco é usado para febre, o das raízes contra diarreias e cólicas, a folha com óleo de rícino como loção para reumatismo e dores articulares, o suco do fruto contra problemas respiratórios como bronquite, tosse seca e gripe, e a infusão de flores e casca como emético na medicina mexicana.
Espécie pioneira, típica das fases iniciais da sucessão secundária na zona tropical. Por ser heliófila, não se desenvolve no interior da floresta, mas é comum nas formações secundárias. Colonizadora, regenera-se com facilidade em clareiras naturais ou abertas pelo homem, formando às vezes povoamentos puros, sobretudo após exploração e queima da floresta. Ocorre na Floresta Ombrófila Densa de terra firme do bioma Amazônia e é acompanhante típica de ambientes fluviais e de mata ciliar, sempre perto dos rios; na Colômbia, é encontrada no bosque muito úmido tropical.
A floração vai de abril a agosto, em geral na estação mais seca, e a frutificação, com amadurecimento dos frutos, de junho a outubro, na estação úmida, com produção anual de grande quantidade de sementes. Em plantio no Distrito Federal, a frutificação se deu de agosto a dezembro. O início do processo reprodutivo ocorre entre 3 e 5 anos de idade.
A polinização é feita sobretudo por morcegos, entre eles Sturnira lilium, Phyllostomus discolor, Glossophaga sericina, Artibeus jamaicensis, A. lituratus, A. phaeotis e Carollia perspicillata, na Costa Rica, e Eonycteris spelaea, na Indonésia. As sementes, aderidas à pluma, são amplamente dispersas pelo vento.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos na própria árvore assim que começam a abrir espontaneamente, momento percebido pela presença dos bastões de pluma cor de creme no lugar das cápsulas alongadas; em seguida são deixados ao sol para completar a abertura. Separar manualmente as sementes da pluma é trabalhoso, e a pluma pode ser limpa por flutuação ou queima. A germinação é melhor e mais rápida em sementes colhidas de frutos negros ou de árvores com 17 meses de plantio e diâmetro pequeno a médio. Cada quilo contém de 70 mil a 142 mil sementes. As sementes têm certa dormência tegumentar, ausente quando recém-colhidas; entre os tratamentos para superá-la estão a imersão em água de coco por 12 horas, a escarificação manual seguida de imersão em água por 6 horas, a escarificação com ácido sulfúrico por 25 minutos, a imersão em água fervente por 4 minutos (que elevou a germinação de 4,4% para 75%) e o uso de água quente a 80 ºC até esfriar ou de ácido sulfúrico por ½ a 1 minuto; o ácido ainda dissolve a paina, reduzindo a mão de obra. Uma técnica recomendada é espalhar as sementes com a paina sobre uma peneira metálica de orifícios do diâmetro das sementes, atear fogo na fibra e deixar as sementes caírem em um recipiente com água. De comportamento ortodoxo, as sementes conservam-se em recipientes selados a 4 a 5 ºC e 5% a 6% de umidade, mantendo a viabilidade por até 5 anos. Em laboratório, recomenda-se germinação em papel de filtro a 30 ºC, mas a vermiculita rendeu maior percentual e velocidade de germinação.
Recomenda-se semear em sementeiras e repicar para sacos de polietileno ou tubetes médios. A repicagem deve ser feita quando as plântulas atingem 7 cm de altura, cerca de 20 dias após o início da germinação, e a espécie não tolera poda de raízes. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 5 e 18 dias após a semeadura e índices geralmente altos, de 62% a 89% para sementes tratadas e até 24,5% para não tratadas; as mudas chegam a 20 cm de altura por volta de 70 dias após a semeadura. No viveiro, devem ficar em canteiros semi-sombreados, evitando-se excesso de umidade.
Espécie heliófila que, mesmo assim, precisa de sombra lateral para se desenvolver melhor, e é sensível a baixas temperaturas. As sementes são indiferentes à luz, germinando tanto em clareiras quanto sob dossel. A árvore segue a arquitetura do modelo de Koriba, com tronco modular ortotrópico, e dispensa desrama por sua autopoda, já que a cicatrização é lenta e favorece fungos e insetos. É indicada para plantios puros ou mistos a pleno sol, em espaçamento inicial de 5 m x 5 m; quando as raízes das mudas estão danificadas, recomenda-se o plantio direto com 15 sementes por cova em solo preparado e sem ervas daninhas, selecionando-se depois uma única muda por cova. Também se desenvolve por regeneração natural em meio a outras espécies, desde que sua copa se forme acima do dossel concorrente. Em sistemas agroflorestais, é recomendada em consórcio com outras culturas, inclusive leguminosas.
De crescimento rápido, pode alcançar de 5 a 7 m de altura aos 2 anos, ou 24 m de altura e 71 cm de DAP aos 7 anos. O incremento médio anual em volume varia de 17 a 30 m³/ha/ano, e o turno de exploração fica entre 6 e 10 anos, sugerindo-se manejo em espaçamentos amplos e rotações muito curtas. É cultivada em países asiáticos (Sri Lanka, Malásia, Indonésia e Índia) e africanos (Zimbábue e Camarões); no Brasil há experiências promissoras, principalmente em Mato Grosso, em solos de média a alta fertilidade.
A precipitação anual de ocorrência vai de 1.500 mm a 3.700 mm no Brasil, com extremos de 1.000 a 4.000 mm na Venezuela, em regime que varia de chuvas bem distribuídas, no noroeste do Amazonas, a periódicas no restante da área. A deficiência hídrica é nula no noroeste do Amazonas e de pequena a moderada no Acre, Amazonas, Pará e Roraima; a espécie tolera até 5 meses de seca, desde que a umidade relativa do ar não caia abaixo de 75%. A temperatura média anual fica entre 24,8 ºC (Belterra, PA) e 26 ºC (Benjamin Constant, AM) no Brasil, e entre 20 e 30 ºC fora do país, com mínima absoluta registrada de 6 ºC (Rio Branco, AC, em agosto de 1975). Não tolera geadas. Na classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af no noroeste do Amazonas, Am no Pará e em Roraima e Aw no Acre.
É bastante exigente quanto ao solo, atingindo crescimento ideal apenas em terrenos profundos, de alta fertilidade, bem úmidos e arejados, sem água estagnada, com boa drenagem, textura franco-arenosa e pH de neutro a alcalino. O material de origem provavelmente vem de formações aluviais ou de produtos de erosão arenosos a levemente argilosos, derivados de rochas ricas em elementos alcalinos.