Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Pau-d'alho
Gallesia integrifolia
- 5 a 20 m (até 30 m)Altura
- Grande portePorte
Também conhecida como: árvore-de-alho, catinga-de-gambá, pau-fedorento, cebolão, gororema, cipó-d'alho, gereba, guarazema, gorarema, imbirema, imburacema, gorazema, guararema, ibiracema, ibirarema, ubirarema, ivirarema, jandiparama, jandiparanduba, muirarema, pau-d'alho-verdadeiro, pau-de-mau-cheiro, ubaeté, ubirarema-pau-d'alho
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Caryophyllales e família Phytolaccaceae. O binômio aceito é Gallesia integrifolia (Sprengel) Harms, registrado em 1849. Ao longo do tempo recebeu outros nomes científicos hoje considerados sinônimos, entre eles Crataeva gorarema Vell., Gallesia gorarema (Vellozo) Moq., Gallezia guararema (Vellozo) Caminhoá e Gallesia scorododendron Casar. O nome do gênero presta homenagem a Gallesio, enquanto o epíteto integrifolia faz referência à folha de bordo inteiro. Em tupi a planta é conhecida como ibirarema, expressão que significa árvore ruim, alusão ao forte odor que exala.
Árvore perenifólia que normalmente mede de 5 a 20 m de altura, com tronco de 40 a 80 cm de diâmetro à altura do peito, podendo alcançar 30 m e mais de 100 cm de diâmetro quando adulta no norte do Paraná e em Alagoas. O tronco é reto, tortuoso ou inclinado, apresenta sapopemas medianas na base e fuste de até 15 m. A ramificação varia de dicotômica a irregular, formando copa ampla e pouco densa, com galhos grossos e retorcidos. A casca, de até 10 mm de espessura, é externamente acinzentada a castanho-parda, lisa e levemente descamante, enquanto a parte interna é esponjosa e de cor branco-palha amarelada. As folhas são simples, alternas, dispostas em espiral, coriáceas, com lâminas ovadas a elípticas de ápice acuminado e mucronulado, base larga e aguda, medindo de 8 a 18 cm de comprimento por 4 a 10 cm de largura; quando amassadas liberam o característico e intenso cheiro de alho, e o pecíolo é fino, anguloso e glabro, com 2 a 8 cm. As flores são pequenas, de cor bege, reunidas em racemos paniculados terminais e axilares de até 20 cm, igualmente odoríferas. Os frutos são sâmaras amarelo-esverdeadas de 2 a 4 cm, achatadas, sésseis, com cálice persistente e ala apical papirácea de 1 a 3 cm; cada fruto traz uma única semente orbicular a oboval, comprimida, de 6 a 7 mm por 5 a 6 mm, levemente tomentosa e de tegumento castanho-avermelhado, enrugado e estriado.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,58 a 0,66 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno pouco distinto e levemente mais claro que o cerne, este branco-amarelado. Tem superfície um pouco áspera e de brilho irregular, textura média a grossa e grã irregular; na peça seca o cheiro e o gosto são imperceptíveis, mas a madeira verde conserva o odor de alho, que se perde ao secar. Sua durabilidade natural é baixa diante de organismos xilófagos quando exposta ao tempo, embora seja bastante permeável a tratamentos preservativos sob pressão. A estrutura é laminada, com tecido esponjoso intercalado ao lenhoso, e as toras precisam ser serradas logo após o corte por serem muito suscetíveis a fungos e carunchos. O uso é restrito devido às camadas de tecido conjuntivo que prejudicam o acabamento, mas a madeira serve para construções rústicas como galpões e paióis, construção civil, casas de madeira, caixotaria, barcos, forros, revestimentos, caixas de concreto, tábuas, sarrafos, embalagens leves, cangas para bois e usos temporários, vindo a substituir o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia). Fornece lenha de qualidade apenas regular, que queima com dificuldade, e presta-se à produção de celulose e papel, sobretudo com madeira recém-cortada. Há pequena presença de cumarina na casca e no lenho. As cinzas, ricas em potassa cáustica, são empregadas no preparo de sabão doméstico de cor preta. A forragem contém de 12,76% de proteína bruta na primavera a 22,45% no verão, com 1,4 a 2,8% de tanino.
A classificação sucessional do pau-d'alho é controversa, havendo autores que o consideram pioneiro e outros que o situam entre secundária inicial e secundária tardia. É comum em vegetação secundária, terrenos abertos, planícies aluviais, início de encostas em solos férteis e baixadas úmidas, rebrotando com tanto vigor que chega a se tornar invasor na floresta secundária; trata-se de árvore longeva. É característico da Floresta Estacional Semidecidual Submontana, onde ocupa o estrato emergente, e no norte do Paraná, junto com a peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron), definia a fisionomia da mata. Aparece ainda na Floresta Estacional Semidecidual Aluvial e na Floresta Ombrófila Densa (Mata Atlântica) baixo-montana, nos encraves vegetacionais e serras do Nordeste, no domínio da Caatinga em Minas Gerais e, na Bolívia, em bosques úmidos e montanos estacionais. A densidade caiu muito: em São Paulo já se encontravam até 20 exemplares por hectare, mas levantamentos atuais registram apenas uma árvore por hectare.
A floração ocorre de janeiro a junho em São Paulo, em abril na Bahia, de abril a junho no Paraná e de maio a julho em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de maio a setembro no Paraná, de junho a outubro em São Paulo, de agosto a setembro no Espírito Santo, em setembro em Minas Gerais e em outubro no Mato Grosso do Sul. A produção de sementes não acontece todos os anos, e há indivíduos estéreis que nem florescem nem frutificam. Em plantios, a reprodução começa entre os 10 e os 20 anos de idade.
Planta hermafrodita, polinizada principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento. A casca é apreciada por roedores como a paca (Agouti paca).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando maduros (pardacentos), antes de serem levados pelo vento. Depois da colheita, secam-se ao sol e beneficiam-se à mão; convém recortar a expansão alada da semente para facilitar o armazenamento e a semeadura. A frutificação não é anual. Cada quilo contém de 4.700 a 19.000 sementes. Não há dormência, mas recomenda-se imergir os frutos em água fria por 2 horas antes de semear, para acelerar e uniformizar a germinação. As sementes perdem a viabilidade rapidamente em temperatura ambiente: guardadas em sacos de papel ou plástico na geladeira, mantiveram o poder germinativo por 30 e 60 dias, com queda aos 120 dias; já as liofilizadas conservaram a germinação por 210 dias, o mesmo ocorrendo com sementes seladas a vácuo em câmara fria (3 ºC e 90% de umidade relativa). Em laboratório, a germinação foi melhor em gerbox com vermiculita sob fotoperíodo de dias curtos (12 horas de luz e 12 de escuro).
Indica-se semear em sementeira e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, fazendo a repicagem de 4 a 6 semanas após a germinação. A germinação é epígea e tem início entre 8 e 90 dias após a semeadura; o poder germinativo é baixo em viveiro (10% a 50%) e alto em laboratório (70% a 100%), com autores registrando índices em geral superiores a 80%. As mudas atingem porte adequado para plantio por volta de 4 meses após a semeadura.
Espécie heliófila que não suporta baixas temperaturas. Quando jovem, cresce de forma monopodial com galhos finos; a desrama natural é boa, mas deve ser complementada por podas periódicas quando a cicatrização se mostra regular. Pode ser plantada a pleno sol, tanto em plantio puro, em que se comporta bem, quanto em plantio misto associado a espécies pioneiras ou tutorando espécies secundárias e clímax, brotando da touça após o corte. É recomendada para sistemas silvipastoris, servindo de árvore de sombra para o gado, já que os insetos evitam seu cheiro. Consta da lista de espécies ameaçadas de extinção em São Paulo, e sua conservação genética é feita por populações-base ex situ.
O crescimento é bastante variável, indo de lento a rápido. A maior produtividade volumétrica registrada foi de 15,50 m³/ha/ano aos 10 anos de idade.
A precipitação anual média varia de 1.000 mm em São Paulo a 2.200 mm em Alagoas, com chuvas bem distribuídas no Paraná e no sul da Bahia e concentradas no verão ou no inverno nas demais regiões; a deficiência hídrica é moderada, com estação seca de até 4 meses no Nordeste. A temperatura média anual fica entre 18,3 ºC (Telêmaco Borba, PR) e 26,6 ºC (Caucaia, CE), com média do mês mais frio de 13,5 ºC a 25,7 ºC e do mês mais quente de 21,2 ºC (Morro do Chapéu, BA) a 27,3 ºC (Caucaia, CE); a mínima absoluta chega a -5 ºC em Telêmaco Borba. As geadas variam de 0 a 10 por ano, com máximo de 18 no Paraná, sendo em geral ausentes ou raras. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Af e Aw), o subtropical úmido (Cfa) e o subtropical de altitude (Cwa).
É indicadora de solos quimicamente muito férteis. Surge com frequência em Nitossolo Vermelho (terra roxa), sendo mais abundante em terrenos úmidos e nas margens de rios. Prefere solos férteis e de boas propriedades físicas, ou seja, bem drenados, profundos e de textura areno-argilosa a argilosa.