Foto: alves.v.s (CC BY-SA) via GBIF
Pau-cigarra
Senna multijuga
- 2 a 10 m, podendo chegar a 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: acácia, aleluia, aleluia-amarela, caquera, piúna, aleluia-da-serra-do-mar, amarelinha, amarelinho, angico-branco, árvore-da-cigarra, caaobi, cobi-preto, cabi, canafístula, canafrista, canela-paula-teixeira, cássia-aleluia, cigarreira, manduirana-de-folha-mole, pau-amendoim, pau-de-cigarra, pau-de-fava, pau-de-pito, canjão, cássia-verrugosa, farinha-seca, canudeiro, cássia-murici, fedegoso, canudo-de-pito, carnaval, cássia, cássia-amarela, cássia-multijuga, chuva-de-ouro, cobi, copaiba-angelim, faveirinha-branca, pau-cachimbo, pau-fava, mari-mari-pequeno
Botânica
Pertencente à família Caesalpiniaceae (Leguminosae Caesalpinioideae), a espécie recebeu a combinação Senna multijuga das mãos de H. S. Irwin e Barneby, em 1982, tendo como sinônimo botânico Cassia multijuga, descrita originalmente por L. C. Rich. O gênero Senna deriva de uma antiga denominação dada a plantas de uso medicinal, enquanto o epíteto multijuga remete ao elevado número de jugas (pares de foliólulos) que compõem suas folhas. Junto a outras espécies do gênero, integra um grupo de cerca de 250 representantes de distribuição pantropical.
Árvore caducifólia que normalmente mede de 2 a 10 m de altura, com DAP de 20 a 30 cm, mas que na fase adulta pode alcançar 20 m e 60 cm de DAP. O tronco é curto, de reto a um pouco tortuoso, com fuste de até 5 m. A copa, baixa, arredondada e de contorno irregular, sustenta uma ramificação espalhada e desordenada, com ramos jovens cobertos de lenticelas. A casca chega a 5 mm de espessura; por fora apresenta-se cinza, lisa a pouco áspera, salpicada de manchas claras e marcada por cicatrizes dos pecíolos, sendo verde-acastanhada internamente. As folhas são compostas, com ráquis de até 30 cm ou mais e 18 a 44 pares de folíolos opostos, oblongos, de faces de cores distintas, ápice mucronado, medindo de 1 a 3 cm de comprimento por 5 a 10 mm de largura, com a face superior glabra ou levemente pubescente; o pecíolo é canaliculado, de 0,5 a 2,0 cm. A floração é um espetáculo à parte: flores perfumadas, de amarelo-vivo a amarelo-ouro, com cerca de 4 cm de diâmetro, agrupadas em panículas terminais de até 30 cm que recobrem por completo a copa. O fruto é um legume reto e achatado lateralmente, castanho-escuro, deiscente e marginado, de 9,4 a 18,2 cm de comprimento por 1 a 2 cm de largura, dividido por inúmeras lâminas transversais e abrigando de 20 a 32 sementes. Estas são planas, lustrosas, comprimidas e dispostas em fila única, de cor pardo-esverdeada, medindo de 5 a 8 mm por 1 a 1,5 mm.
Uso e ecologia
A madeira é leve (0,45 a 0,51 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno castanho-claro e cerne castanho-escuro nem sempre bem definido, superfície pouco lustrosa, textura grossa, sabor e gosto imperceptíveis e durabilidade reduzida. Localmente, é empregada em construção civil em peças como esquadrias, estacas, forros e tabuados, além de servir para fósforos, móveis populares e mourões de pouca durabilidade. Embora não sirva para celulose e papel, rende lenha e carvão de qualidade aceitável. A casca fornece corante muito procurado em tinturaria e também tanino aproveitado em curtumes, e o tronco, depois de ferido, libera resina. Como forragem, apresenta 13% de proteína bruta e 9% de tanino, sendo de qualidade apenas mediana. No paisagismo é amplamente usada em jardins e na arborização de ruas e rodovias de muitas cidades brasileiras, como Botucatu (SP), Foz do Iguaçu (PR), Manaus (AM) e Santa Maria (RS), por ser uma ornamental de porte médio, com copa de cerca de 5 m de altura e 4 m de diâmetro.
Trata-se de espécie pioneira a secundária inicial, ou mesmo clímax exigente de luz. Bastante agressiva, coloniza com vigor a vegetação secundária, surgindo em abundância em capoeirinhas e capoeiras, onde por vezes chega a formar povoamentos quase homogêneos. É encontrada em diversas formações florestais: na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), comum nas variantes Aluvial, das Terras Baixas e Montana; na Floresta Estacional Semidecidual; na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária); e também na restinga. Em um trecho de Floresta Atlântica em São Paulo, foram registradas oito árvores por hectare. Por produzir folhedo em boa quantidade, contribui para conter o avanço de gramíneas invasoras, o que reforça seu valor na recuperação de áreas degradadas, incluindo a reabilitação de mineração de bauxita em Minas Gerais, solos alterados pela exploração do xisto e a restauração de terrenos degradados na Serra do Mar.
A floração concentra-se de dezembro a abril no Paraná, no Rio Grande do Sul e em São Paulo; de janeiro a março em Santa Catarina; de janeiro a agosto no Rio de Janeiro; e de março a abril em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de abril a agosto no Rio Grande do Sul, de abril a setembro em Minas Gerais, de maio a julho no Paraná, de maio a setembro em São Paulo, de julho a novembro no Rio de Janeiro e de agosto a outubro no Espírito Santo. Em plantios, a reprodução tem início por volta dos 4 anos de idade.
Planta hermafrodita, tem na polinização papel central das abelhas, acompanhadas por vários insetos de pequeno porte. A dispersão das sementes é sobretudo autocórica e barocórica, ou seja, ocorre pela própria abertura do fruto e pela ação da gravidade, e as sementes passam a integrar o banco do solo. A árvore atrai a fauna de modo curioso: tatus cavam buracos junto à base do tronco em busca de ninfas de cigarra abrigadas no solo, e em Minas Gerais suas folhas, flores e frutos alimentam o muriqui (Brachyteles arachnoides).
Plantio e silvicultura
Para a colheita, os frutos são expostos ao sol até abrirem, e a retirada das sementes é feita à mão, já que elas não se desprendem sozinhas. Cada quilo reúne de 64.000 a 92.592 sementes. Como há dormência tegumentar, recomenda-se um dos seguintes tratamentos pré-germinativos: imersão em água em temperatura ambiente por 12 horas para embebição; escarificação química com ácido sulfúrico por 5 a 35 minutos; ou imersão em água a 100ºC retirada do fogo, seguida de embebição por 24 a 48 horas. Observou-se que populações distintas apresentam graus diferentes de dormência, variação intrapopulacional que distribui a germinação ao longo do tempo no banco de sementes, possivelmente com função adaptativa. Em condições não controladas, a viabilidade dura cerca de 60 dias, mas há registros de mais de 6 meses em armazenamento e até de germinação após 158 anos de conservação.
Indica-se semear em sementeiras e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio, fazendo a repicagem de 3 a 5 semanas após o começo da germinação. A germinação é epígea e tem início entre 10 e 40 dias após a semeadura; o poder germinativo chega a 94% quando se supera a dormência e cai para até 40% sem esse tratamento. As mudas atingem 20 cm de altura cerca de 4 meses depois da semeadura, e mudas de raiz nua pegam bem no campo. As raízes formam micorrizas arbusculares, mas não se associam a Rhizobium. A espécie também pode ser multiplicada por estacas caulinares.
Heliófila e com tolerância apenas mediana ao frio, possui hábito variável e muito ramificado, com galhos laterais robustos, bifurcações e brotações desde a base; como a desrama natural é deficiente, exigem-se podas de condução e de galhos. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, em plantio misto voltado tanto à produção de madeira quanto à recuperação de ecossistemas degradados, e ainda em vegetação matricial arbórea, em faixas largas (4 m) abertas em capoeira alta (cerca de 20 m) e plantada em linhas, situação em que ganha forma bem melhor. Rebrota após o corte, tanto do colo quanto de diferentes alturas do tronco.
O desenvolvimento é rápido: a maior produtividade volumétrica anotada em plantios foi de 15,55 m³/ha/ano, aos 86 meses.
A precipitação média anual varia de 1.000 mm, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, a 2.700 mm em São Paulo. As chuvas são bem distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná), no litoral paulista e em parte do litoral fluminense, e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica vai de nula, no litoral entre o sul da Bahia e o norte de Santa Catarina, a forte, no oeste da Bahia, passando por graus pequenos a moderados no planalto paulista, no sul de Minas e no Pará, e moderado no norte do Espírito Santo, onde a seca pode durar até 3 meses. A temperatura média anual fica entre 18,5ºC (Ouro Preto, MG) e 26ºC (Santarém, PA); a do mês mais frio, entre 13,9ºC e 25,4ºC nessas mesmas localidades; e a do mês mais quente, entre 21,7ºC e 27ºC. A mínima absoluta registrada foi de -3,5ºC em Londrina (PR). As geadas variam de 0 a 3 por ano em média, com máximo de 7 no Sul, embora predominem condições sem geada ou com geadas raras. Segundo Köppen, abrange os climas tropical (Af e Aw), subtropical úmido (Cfa) e subtropical de altitude (Cwa e Cwb).
Adapta-se a solos úmidos de drenagem regular e a terrenos que permaneçam encharcados por curtos períodos. É bastante frequente nos solos arenosos da planície quaternária litorânea.