Foto: Guilherme Siniciato Terra Garbino (CC BY) via GBIF
Pau-brasil
Caesalpinia echinata
- 5 a 15 m (até 30 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: arabutã, brasilete, árvore-do-brasil, ibirapitanga, ibiripitinga, imirá-piranga, muirapiranga, orabutã, pau-pernambuco, pau-rosado, pau-vermelho, pau-de-pernambuco, sapão
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie é a angiosperma dicotiledônea Caesalpinia echinata Lamarck (1785), da ordem Fabales e da família Caesalpiniaceae (Leguminosae Caesalpinioideae). Tem como sinonímia botânica Guillandina echinata (Lam.) Spreng. O gênero homenageia o botânico italiano Andrea Caesalpinio, enquanto o epíteto echinata alude aos acúleos presentes no tronco. O nome tupi da árvore, ibirapitanga, significa madeira-vermelha, e já em 1503 documentos chamavam as novas terras de Terra do Pau-Brasil. A origem da própria palavra brasil, no entanto, é controversa, com mais de vinte interpretações: as hipóteses mais aceitas remontam ao francês bersil (depois brésil), ligado à ideia de brasa, e ao celta bress, raiz do inglês to bless (abençoar), que teria nomeado a lendária ilha Hy Brazil.
Árvore perenifólia que costuma medir de 5 a 15 m de altura e ter DAP de 15 a 50 cm, mas que pode chegar, na fase adulta, a 30 m de altura e 100 cm de DAP. O tronco é em geral curto, tortuoso e coberto de acúleos, com fuste normalmente baixo (excepcionalmente 15 m em floresta primária) e pequenas sapopemas na base. A ramificação é dicotômica e irregular, formando copa ampla e aberta, de folhagem verde-escura brilhante característica e ramos também aculeados. A casca atinge até 10 mm de espessura: a externa é pardo-acinzentada ou pardo-rosada nas áreas descamadas, rugosa por causa das numerosas lenticelas verruciformes que se soltam em placas com grossos acúleos, e a interna é vermelho-escura. As folhas são compostas e alternas, com 6 a 10 pares de pinas também alternas e 10 a 20 folíolos sésseis, havendo espinhos abaixo da ráquis. As flores são amarelo-douradas e perfumadas, com a maior pétala marcada por uma mancha vermelho-escura ao centro, agrupadas em panículas terminais. O fruto é uma vagem capsulada pardo-avermelhada de 5 a 8 cm de comprimento por 2,5 cm de largura, recoberta por cerdas curtas e rígidas, de deiscência explosiva e contendo 1 a 2 sementes. A semente é elíptica, lisa, achatada e de contorno irregular, com cerca de 17 mm de comprimento por 15 mm de largura, castanha e pontuada em diversos tons.
Uso e ecologia
A madeira do pau-brasil é muito densa (1,00 a 1,10 g/cm³ a 15% de umidade), de superfície lustrosa e lisa, textura média e grã irregular ou reversa, levemente aromática e considerada incorruptível por sua alta resistência a fungos; o alburno e o cerne variam de laranja a vermelho-alaranjado, escurecendo para vermelho-violáceo de reflexos dourados com o tempo, e seus anéis distintos permitem datar a árvore. Serrada ou roliça, é empregada em construção civil (ripas, caibros, tabuado), carpintaria, móveis, tornearia, mourões e dormentes, com durabilidade média de 20 anos. Hoje seu uso mais célebre é na fabricação de arcos de violino, graças à grande flexibilidade, sendo ainda exportada em pequena escala para a Alemanha com essa finalidade. A espécie também rende boa lenha, mas é inadequada para celulose e papel. Dela se extrai a tradicional tintura conhecida como brasil ou brasileto, de tom vinho, que serviu para tingir sedas, linhos e algodões e para o corante vermelho brasiliana, além de tintas de escrever e ornamentação de manuscritos; as favas fornecem cerca de 48% de tanino. No campo medicinal, o lenho é tido como adstringente, tônico e secante, há pesquisas na UFPE sobre potencial contra certos tipos de câncer, e usos populares atribuem ao chá das folhas ação contra diabetes e ao pó da casca o alívio de cólicas menstruais.
Espécie clímax e longeva, podendo alcançar cerca de 300 anos, ocupa o estrato médio da floresta. É característica da Floresta Estacional Semidecidual das Terras Baixas (também chamada Floresta Estacional Caducifólia Costeira) e da Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), aparecendo até nas matas de dunas de Natal (RN) e sendo típica das restingas do Rio de Janeiro. Distribui-se de modo reduzido e esporádico pela faixa litorânea: em Pernambuco e na Bahia avança cerca de 50 a 75 km da costa para o interior, e um núcleo remanescente foi localizado em Vitória da Conquista (BA), a 200 km do litoral, o ponto mais distante já registrado para a espécie.
A floração varia conforme a região: de setembro a dezembro em São Paulo (com gemas reprodutivas iniciando-se já em fevereiro), de setembro a novembro no Rio de Janeiro, de outubro a novembro em Sergipe e de dezembro a maio em Pernambuco; no Rio Grande do Norte foram observadas 2 a 3 florações por ano e, em plantios do norte e oeste do Paraná, de setembro a março. Os frutos amadurecem de outubro a janeiro em Pernambuco e Sergipe, de outubro a fevereiro em São Paulo, em novembro no Espírito Santo e de novembro a dezembro em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. A reprodução começa por volta dos 3 anos no Nordeste e dos 4 anos em árvores plantadas em São Paulo.
Planta hermafrodita, é polinizada sobretudo por abelhas e por diversos pequenos insetos. A dispersão de frutos e sementes é autocórica, predominantemente barocórica, favorecida pela deiscência explosiva das vagens.
Plantio e silvicultura
Sementes colhidas na quinta semana após a floração germinaram entre 28% e 58%, enquanto as colhidas da sexta à oitava semana renderam de 80% a 100% de germinação e maior vigor, marcando a maturidade fisiológica, ainda antes da deiscência dos frutos. O ponto ideal de coleta é a pré-dispersão, quando os frutos passam de verde a castanho; depois devem ir para ambiente ventilado, onde as vagens abrem e liberam as sementes. Cada quilo reúne de 1.980 a 5 mil sementes. A espécie não apresenta dormência, mas a imersão em água fria por 24 horas acelera a germinação. As sementes são recalcitrantes: em câmara fria (19 ºC) restaram apenas 10% de germinação após 150 dias, e em câmara seca (19 ºC) a germinação foi quase nula aos 60 dias.
Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes grandes de polipropileno; como substrato em tubetes sugere-se serragem de poda e partes iguais de serapilheira de pínus com vermiculita, embora terra de subsolo favoreça a germinação e o crescimento em diâmetro. Quando necessária, a repicagem ocorre 2 a 3 semanas após a germinação. A germinação é epígea, inicia-se entre 4 e 60 dias e tem poder germinativo de 50% a 95%, mais alto logo após a colheita; as mudas ficam aptas ao plantio cerca de 8 meses depois. O sombreamento de até 50% acelera o crescimento das mudas. As raízes não formam associação com Rhizobium, e a espécie também pode ser propagada por estacas de raiz.
Espécie semi-heliófila, tolera o sombreamento, mas não suporta baixas temperaturas. Tem hábito irregular, sem dominância apical, com fuste curto e tortuoso, ramificações desde a base e bifurcações, além de desrama natural insatisfatória, exigindo poda de condução e de galhos. O plantio puro a pleno sol não é recomendado, ainda que em Rio Formoso (PE) tenha havido intensa regeneração natural; prefere-se o plantio misto com espécies secundárias, ou em faixas abertas na vegetação matricial e em linhas na vegetação secundária. A árvore rebrota da touça após o corte. Estudos nutricionais com mudas no espaçamento 2 x 3 m mostraram efeito significativo do nitrogênio e da interação nitrogênio-potássio no crescimento em altura e diâmetro. Vale lembrar que a espécie consta da lista oficial da flora brasileira ameaçada de extinção, fruto da exploração intensa desde o período colonial, e demanda urgentes ações de conservação, sobretudo in situ.
O desenvolvimento é lento e irregular. A maior produtividade volumétrica registrada em plantios foi de 1,35 m³/ha/ano, em Dois Vizinhos (PR), calculada a partir de valores médios de altura e DAP.
A precipitação média anual vai de 1.100 mm no Rio de Janeiro a 2.500 mm em Pernambuco, ficando acima de 750 mm no Planalto de Conquista (BA), com chuvas periódicas concentradas no verão. A deficiência hídrica é nula a pequena na faixa costeira da Bahia e em áreas de Alagoas e Pernambuco, e de pequena a moderada no litoral de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e partes do Rio Grande do Norte. A temperatura média anual varia de 20,2 ºC (Vitória da Conquista, BA) a 26,2 ºC (Natal, RN), com mínima absoluta de 7,3 ºC em Vitória da Conquista e ausência de geadas. Pela classificação de Köppen, predominam os tipos tropicais Af, Am, As e Aw.
Cresce naturalmente nos tabuleiros do Plio-pleistoceno do Grupo Barreiras, em solos em geral de baixa fertilidade química natural, bem drenados e de textura entre arenosa e franca.