Foto: Breno Figueiredo (CC BY) via GBIF
Pau-branco-do-sertão
Auxemma oncocalyx
- até 12 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: louro-branco, pau-branco, pau-branco-preto, frei-jorge, freijó
Botânica
Pelo sistema de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Lamiales e família Boraginaceae. Seu nome aceito é Auxemma oncocalyx (Fr. All.) Baill., gênero exclusivo da Caatinga, cujo nome remete à ideia de "secura". Já foi descrita também como Auxemma gardneriana Miers., Auxema oncocalyx (Fr. All.) Taub. e Cordia oncocalyx Fr. All.
Árvore semidecídua que, na fase adulta, chega a cerca de 12 m de altura e 45 cm de diâmetro à altura do peito. Como sua madeira é muito procurada, é raro encontrar exemplares que não tenham brotado de tocos de árvores antigas; por isso, costuma surgir ramificada já entre 20 e 30 cm do solo, formando vários troncos. A ramificação é dicotômica e a copa, densamente ramificada. A casca chega a 15 mm de espessura: a externa é esbranquiçada, flexível, difícil de destacar e coberta por lenticelas salientes parecidas com verrugas, de 1 a 3 mm, dispostas de modo irregular e que podem soltar lâminas; a interna é bege-clara e escurece para castanho ao contato com o ar, liberando um exsudato aquoso e transparente, sem cheiro nem sabor marcantes. As folhas são simples, alternas, de formato elíptico a oblongo ou oblongo-obovado, com bordo inteiro ou serreado da metade para a ponta e textura membranácea; medem de 12 a 35 cm de comprimento por 4 a 12 cm de largura, têm ápice agudo, glândulas salientes e espalhadas na face superior, raros pelos na face inferior ao longo das nervuras, e pecíolo cilíndrico de até 4 cm. As flores reúnem-se em panículas densas do tipo tirso; são pequenas, brancas, pentâmeras e levemente perfumadas, com cálice campanulado de 0,2 a 0,3 cm (piloso por fora, glabro por dentro, com cinco dentes) e corola campanulado-infundibuliforme de cerca de 0,75 a 1 cm. O fruto é uma drupa elipsoide a piriforme de 1,5 a 2 cm, envolvida por uma vesícula pentangular formada pelo cálice que cresce em forma de balão cônico inflado, de 5 a 8 cm, abrigando de 1 a 4 sementes ásperas e elíptico-acuminadas.
Uso e ecologia
A madeira tem densidade aparente de 0,70 g/cm³, com cerne cor de chocolate, em tons pardo-arroxeados a violáceos que clareiam para pardo após exposição ao ar, e alburno estreito (15 a 20 mm), pardo-claro a amarelado e bem diferenciado do cerne. Tem superfície lustrosa e lisa, sem cheiro ou sabor, textura grossa e grã direita. É resistente a fungos e insetos, sobretudo cupins, fácil de trabalhar e de bom acabamento. Tanto serrada quanto roliça, presta-se a móveis, assoalhos, tabuados, vigamentos, caixilhos, caixas para cereais, carpintaria, construções pesadas, pontes, dormentes, estacas, mourões, pranchas e instrumentos agrícolas; no Ceará, é a madeira nativa mais empregada na construção civil. Também fornece lenha e carvão de boa qualidade, embora seja inadequada para celulose e papel. Os ramos servem de forragem bem aceita pelo gado, com 15,3% a 17,2% de proteína bruta. A casca, de propriedade adstringente, é usada em cozimentos e banhos para tratar feridas e ferimentos.
É uma espécie secundária tardia, típica da Caatinga, onde tem distribuição restrita, porém contínua no Ceará. É comum em capoeiras, onde aparece com formas deformadas que rebrotaram de tocos das matas antigas. No bioma Caatinga, ocupa a savana-estépica do semiárido no Ceará, em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte, com frequência de 37 a 152 indivíduos por hectare; é a árvore mais característica do sertão cearense, indo da base das serras até a faixa litorânea. Na Mata Atlântica, surge na floresta ombrófila densa submontana do sul do Ceará, em densidade bem menor (0 a 2 indivíduos por hectare). Também ocorre em campo rupestre, em Minas Gerais.
A floração vai de março a agosto no Ceará e de maio a agosto no Rio Grande do Norte. Os frutos amadurecem entre junho e agosto, quando a árvore já perdeu toda a folhagem, e permanecem sobre ela por mais algum tempo.
A espécie é monoica, mas autoincompatível, só formando frutos por polinização cruzada entre formas distintas, pois apresenta heterostilia do tipo distilia. A polinização fica a cargo de duas espécies de moscas da família Syrphidae, que a visitam com frequência. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, facilitada pelo cálice que cresce e envolve o fruto, ajudando-o a ser levado pelo vento.
Plantio e silvicultura
A planta produz, todo ano, grande quantidade de sementes viáveis. Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair, ou apanhados do chão logo após a queda, removendo-se em seguida o envoltório paleáceo que recobre a semente. Cada quilo reúne de 625 a 750 sementes. Como o tegumento impõe forte dormência, recomenda-se imergir as sementes em solução branda de soda cáustica a 30% por três dias, a fim de eliminar o verniz que as reveste, deixar a umidade penetrar no tecido suberoso e amolecê-lo, favorecendo a germinação. Armazenadas, mantêm viabilidade por mais de 10 meses.
As sementes devem ser semeadas logo após a colheita e o preparo, em canteiros semissombreados com substrato de solo argiloso adubado com esterco bem curtido. Por serem grandes, também podem ir direto para saquinhos ou tubetes grandes; em qualquer caso, cobrem-se com cerca de 1 cm de terra peneirada e regam-se diariamente. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), lenta e difícil, levando de 70 a 100 dias, e costuma ter taxa baixa. Em meio de cultura M&S, no entanto, registraram-se 96% de germinação após 15 dias em todas as concentrações, com melhor resultado na diluição a 25% (plântulas com 12,5 cm) e 100% de sobrevivência na aclimatação. O desenvolvimento das mudas é lento, e elas ficam prontas para o plantio definitivo entre 8 e 10 meses.
É uma espécie heliófila e bastante sensível ao frio. No plantio costuma assumir forma irregular, ramificando-se já desde a base e formando touceiras de 2 a 3 troncos, o que exige desbrota e desrama para constituir o fuste. Recomenda-se plantio misto associado a espécies pioneiras de crescimento rápido. Por causa da germinação difícil e demorada somada ao corte indiscriminado decorrente de sua grande utilidade, a espécie vem desaparecendo do Nordeste e necessita, com urgência, de um programa de preservação.
Há poucos registros de crescimento em plantios, mas, em campo, o desenvolvimento das plantas é lento.
A precipitação média anual varia de 750 mm, no Rio Grande do Norte, a 1.100 mm, em Minas Gerais, com chuvas periódicas concentradas no verão e no outono e deficiência hídrica acentuada, com até seis meses de seca. A temperatura média anual fica entre 22,4 ºC (Montes Claros, MG) e 27,2 ºC (Mossoró, RN); a média do mês mais frio vai de 19,4 ºC (Montes Claros, MG) a 26 ºC (Morada Nova, CE), e a do mês mais quente, de 24,4 ºC (Montes Claros, MG) a 28,7 ºC (Mossoró, RN), com mínima absoluta de 6,5 ºC em Montes Claros (MG). Não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, o clima é Bsh (tropical semiárido) no Ceará e no Rio Grande do Norte e Aw (tropical com verão chuvoso e inverno seco) no sul do Ceará e no norte de Minas Gerais.
Cresce naturalmente em solos de fertilidade química regular a boa, medianamente profundos e que não sejam muito secos.