Foto: Thomaz Ricardo Favreto Sinani (CC BY) via GBIF
Pau-bosta
Sclerolobium aureum
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: craveiro, cravoeiro, sucupira-preta, pau-pombo, angá, gonçalo-do-campo, tatarema, angá-uçu, carvoeiro, fede-fede, ingá-do-cerrado, pau-fede, sucupira, taxi-preta
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (antiga Leguminosae) e à subfamília Caesalpinioideae, a espécie tem como nome científico aceito Sclerolobium aureum (Tul.) Benth., publicado pela primeira vez em Mart. Fl. Bras. 15(2): 51, em 1876. Tachigali aurea Tul. é tratada como sinônimo botânico. No arranjo do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), está classificada na ordem Fabales, dentro do clado Eurosídeas I. O nome do gênero combina os termos gregos scleros (duro, seco) e lobium (vagem, fruto), enquanto o epíteto aureum deriva do latim para dourado, aludindo à tonalidade das flores. Já a designação popular pau-bosta faz alusão ao cheiro característico da madeira.
Árvore de comportamento perenifólio (sempre-verde), com troca foliar gradual. Os exemplares de maior porte chegam a cerca de 15 m de altura e 25 cm de DAP na fase adulta. O tronco varia de reto a um pouco tortuoso, com fuste em geral curto, de no máximo 7 m. A ramificação é dicotômica e a copa reúne ramos terminais pilosos e acinzentados. A casca alcança até 15 mm de espessura; a porção externa (ritidoma) tem cor cinza a castanho-clara, marcada por fissuras e cristas sinuosas e descontínuas que delineiam blocos aproximadamente retangulares. As folhas são compostas, paripinadas, alternas e espiraladas, formadas por 10 a 16 folíolos dispostos de modo alterno ou oposto; cada folíolo mede de 6 a 11 cm de comprimento por 3 a 5 cm de largura, tem formato oval-lanceolado e assimétrico, ápice obtuso, base assimétrica e margem inteira; a nervação é broquidódroma, com a nervura central proeminente na face inferior. Os pecíolos chegam a 4 cm de comprimento e possuem pulvino, os peciólulos são curtos e as estípulas, caducas; os folíolos são coriáceos, concolores e pilosos nas duas faces. A inflorescência forma-se em panícula de espigas terminal e multiflora. As flores têm coloração amarelo-gema, até 0,5 cm de diâmetro e cinco pétalas livres. O fruto é uma criptosâmara oblonga, comprimida, indeiscente e de pedúnculo curto, com até 5 cm de comprimento; ao amadurecer fica cinza e abriga uma única semente. As sementes são elípticas, marrons e medem até 1,5 cm.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,70 g/cm³ a 15% de umidade. O alburno, de tom bege-amarelo-claro, distingue-se pouco do cerne, que é amarelo-claro-oliváceo e de aspecto irregular. Apresenta textura média, grã direita e odor desagradável, sendo bastante resistente e durável. Por causa desse odor, seu emprego em madeira serrada e roliça restringe-se às regiões de ocorrência, onde é usada em móveis rústicos e, sobretudo, em obras externas como dormentes, pontes, mourões, estacas e cruzetas. Para celulose e papel, a madeira é considerada inadequada. Como combustível, fornece lenha e carvão de boa qualidade. No Cerrado mineiro, a árvore demonstra potencial apícola.
Trata-se de uma espécie secundária inicial, típica e exclusiva do Cerradão do Centro-Oeste. Tem frequência média ao longo de sua extensa área de ocorrência, embora se distribua de forma um tanto descontínua e irregular. No bioma Cerrado, aparece em formações de Savana ou Cerrado stricto sensu — no Distrito Federal, em Goiás, no Maranhão, em Mato Grosso, em Minas Gerais, no Piauí, em São Paulo e em Tocantins —, podendo alcançar até 147 indivíduos por hectare; e em Savana Florestada ou Cerradão, em Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí e São Paulo, com até dois indivíduos por hectare. No Pantanal, é encontrada no Pantanal Mato-Grossense, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ocorre ainda em ambientes fluviais ou ripários (mata ciliar) no Distrito Federal e em Minas Gerais, em contato entre Floresta Amazônica e Cerrado em Mato Grosso, e em floresta inundável em Tocantins. Em levantamento de florestas ciliares do Brasil extra-amazônico, Rodrigues e Nave a registraram em apenas dois dos 43 estudos analisados (4,3%).
A floração varia conforme a região: de junho a novembro em Minas Gerais, de julho a janeiro no Distrito Federal, de setembro a dezembro no Maranhão e de dezembro a fevereiro em São Paulo. Os frutos amadurecem entre março e abril em Minas Gerais, de junho a agosto no Maranhão e de setembro a outubro no Distrito Federal.
Espécie hermafrodita, tem a polinização realizada principalmente por abelhas e por uma variedade de pequenos insetos. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
Os frutos (vagens) devem ser coletados na própria árvore quando assumem coloração amarelo-palha e começam a cair naturalmente; em seguida, são mantidos em local arejado para que a extração das sementes seja feita manualmente. Cada quilo reúne de 4.800 a 11.200 sementes. As sementes apresentam dormência tegumentar, que pode ser superada por diferentes métodos: retirada de uma pequena parte do tegumento na extremidade oposta ao eixo embrionário; escarificação em ácido sulfúrico concentrado por 10 minutos; ou imersão em água a 80 ºC por 2 minutos, no caso de sementes nuas. Quanto à conservação, têm comportamento fisiológico ortodoxo.
Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 10 cm de diâmetro ou em tubetes grandes de polipropileno (288 cm³). Quando necessária, a repicagem é feita de 2 a 3 semanas após a germinação, com as plântulas medindo cerca de 4 cm. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa entre 25 e 60 dias após a semeadura; sem tratamento para superar a dormência, ela ocorre de modo irregular, podendo se estender por até 6 meses, com taxa geralmente de até 50%. Inoculada com estirpes de Rhizobium de crescimento rápido, a espécie forma nódulos brancos.
Planta heliófila, não suporta baixas temperaturas. Em plantio denso, manifesta dominância apical bem definida; já em espaçamentos amplos (3 m x 3 m), exige desrama ou poda dos galhos. O cultivo recomendado é a pleno sol, em plantios puros e densos, sendo possível também o plantio misto, no tutoramento de espécies secundárias tardias ou de clímax.
São escassas as informações disponíveis sobre o crescimento desta espécie.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 890 mm, na Bahia, a 1.800 mm, em Goiás, com chuvas de regime periódico. O déficit hídrico é variável: de pequeno a moderado no inverno do Planalto Central paulista; moderado no inverno do centro-norte e sudeste de Minas Gerais; de moderado a forte no norte do Maranhão, no oeste da Bahia e na depressão do sudoeste de Mato Grosso; e forte no norte do Piauí e no sul do Maranhão. A temperatura média anual fica entre 19,4 ºC (Lavras, MG) e 26,5 ºC (Bom Jesus do Piauí, PI); a do mês mais frio, entre 15,8 ºC e 25,5 ºC; e a do mês mais quente, entre 22,1 ºC e 28,9 ºC, nas mesmas localidades. A menor temperatura já registrada foi de -3,7 ºC, em Coxim (MS), em 20 de julho de 1975. As geadas inexistem na maior parte da área de ocorrência, sendo raras no Planalto Central de São Paulo e em Mato Grosso do Sul. Pela classificação de Köppen, predominam os tipos Aw (tropical com inverno seco) no Distrito Federal, nordeste de Goiás, nordeste e sul do Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, sul do Piauí e Tocantins; Cwa (subtropical com inverno seco e verão quente) em Goiás, Minas Gerais e São Paulo; e Cwb (subtropical de altitude, com inverno seco e verão ameno) no sul de Minas Gerais.
Desenvolve-se no Cerradão sobre solos arenosos, ácidos, bem drenados e de baixa fertilidade. Adapta-se a solos de textura arenosa a argilosa e tolera terrenos terraplenados (subsolo).