Foto: Jonathan Lorencetti Ehlert (CC BY-SA) via GBIF
Pau-alazão
Eugenia multicostata
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: alazão, lazão, pau-mulato, araçá-mulato, araçá-pitanga, araçá-vermelho, araçazeiro-vermelho, pau-brasil-falso, pau-brasil-do-litoral, catarina
Botânica
Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, ao clado das Rosídeas, à ordem Myrtales e à família Myrtaceae, subfamília Myrtoideae, dentro do gênero Eugenia. O binômio aceito é Eugenia multicostata Legrand, descrito originalmente em 1961. O nome do gênero homenageia Francisco Eugênio de Saboia-Carignan, o Príncipe de Saboia, militar imperial de grande prestígio e protetor das artes. Já o epíteto multicostata faz referência ao fruto provido de costas ou alas, semelhante ao da pitanga (Eugenia uniflora).
Trata-se de uma árvore perenifólia (sempre-verde) que, em exemplares adultos de maior porte, alcança cerca de 30 m de altura e 60 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, tomado a 1,30 m do solo). O tronco costuma ser tortuoso, retorcido e nodoso, com fuste de até 15 m. A ramificação é cimosa e farta, originando uma copa ampla e densa, glabra, com os brotos novos das pontas apenas levemente pubescentes. A casca é bastante delgada, com no máximo 5 mm de espessura; sua superfície externa (ritidoma) é lisa e exibe tonalidades que vão do alaranjado-avermelhado ao castanho-avermelhado ou mulato, muito típicas e que criam belos contrastes contra o fundo escuro da mata. As folhas são simples, opostas, de verde intenso, subcoriáceas a coriáceas, obovadas ou obovado-lanceoladas e longamente cuneiformes, medindo de 6 a 12 cm de comprimento por 2,5 a 5 cm de largura, com pecíolo de 10 a 12 mm e ápice arredondado ou com acúmen muito obtuso e curto; as nervuras laterais são numerosas e salientes. As inflorescências formam pseudo-racemos terminais de 5 a 15 cm, com 3 a 6 pares de pedúnculos unifloros dispostos sobre 1 a 3 eixos apicais de aproximadamente 3,5 cm. As flores são hermafroditas, com botões globosos de 5 a 8 mm, bractéolas muito fugazes e sépalas ovado-oblongas de cerca de 5 mm. O fruto é uma baga oblonga e sulcada longitudinalmente (costada), de até 4 cm de comprimento por 2,5 cm de diâmetro, que ao amadurecer fica vermelha e lembra a pitanga, porém de maior tamanho. As sementes têm os cotilédones unidos externamente, por vezes quase soldados por completo.
Uso e ecologia
A madeira do pau-alazão é densa (massa específica aparente de 0,92 g/cm³), com cerne acinzentado e indistinto do alburno, textura fina e grã direita; é dura ao corte e resistente a organismos xilófagos. De qualidades mecânicas medianas, presta-se ao desdobro em serraria e ao fabrico de cabos de ferramentas e implementos agrícolas, peças torneadas e carrocerias, além de render lenha de boa qualidade. Não é apropriada, contudo, para a produção de celulose e papel. Os frutos maduros, avermelhados, são comestíveis e saborosos, embora a frutífera exija espaços amplos para o cultivo. A espécie também tem potencial melífero, fornecendo néctar e pólen. Pelo elevado valor ornamental, é indicada para arborização urbana, e por suas características compõe bem plantios mistos voltados a áreas de preservação permanente.
Em termos sucessionais, o pau-alazão situa-se entre as espécies de sub-bosque e as secundárias tardias. Tem preferência por encostas suaves ou pequenas depressões e apresenta distribuição irregular. É árvore típica e exclusiva da Floresta Ombrófila Densa, onde ocupa os estratos dominantes e codominantes. No bioma Mata Atlântica, está presente na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Pluvial Atlântica) em suas formações das Terras Baixas (sul de São Paulo e Vale do Itajaí, em SC, onde é frequente), Submontana (SP e PR) e Montana (PR), além de aparecer em mata ciliar no ambiente fluvial do Paraná.
A floração vai de julho a janeiro em Santa Catarina, concentrando-se sobretudo entre agosto e setembro. Os frutos amadurecem de outubro a dezembro, também em Santa Catarina.
As flores são polinizadas principalmente por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes ocorre essencialmente por zoocoria, com destaque para os roedores.
Plantio e silvicultura
Para a obtenção das sementes, os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair, ou recolhidos do chão logo após a queda; em seguida retira-se a polpa, e a semente costuma soltar-se com facilidade. Cada quilo reúne cerca de 1.200 sementes. Não há necessidade de tratamento pré-germinativo. As sementes são recalcitrantes e não se prestam ao armazenamento, perdendo rapidamente a viabilidade.
A semeadura deve ser feita diretamente em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. A germinação é hipógea e as plântulas, criptocotiledonares; a emergência começa entre 30 e 50 dias após a semeadura, com taxa próxima de 50%, e as mudas ficam aptas ao plantio após cerca de 6 meses de viveiro.
Espécie esciófila, que suporta geadas fracas. Possui ramificação monopodial e não faz derrama natural. Por aceitar bem o sombreamento, é recomendada para plantios mistos, e tem a capacidade de rebrotar da touça.
As informações sobre o desempenho em plantios ainda são escassas, mas o crescimento da espécie é reconhecidamente lento.
A precipitação média anual vai de 1.200 mm, em Santa Catarina, a 2.000 mm, em São Paulo e no Paraná, com chuvas uniformes ao longo do ano e ausência de deficiência hídrica em toda a área de ocorrência. A temperatura média anual fica entre 18,5 °C (Rio do Sul, SC) e 20,6 °C (Morretes, PR); a média do mês mais frio varia de 14,1 °C (Rio do Sul, SC) a 18 °C (Sete Barras, SP), e a do mês mais quente, de 22 °C (Sete Barras, SP) a 24,7 °C (Florianópolis, SC). A mínima absoluta registrada foi de -5,5 °C, em Rio do Sul (SC), e as geadas são raras, de 0 a 2 por ano. Na classificação de Köppen, predominam os tipos Af (tropical úmido a superúmido), do litoral sul de São Paulo ao Paraná, e Cfa (subtropical úmido com verão quente), no leste do Paraná e de Santa Catarina e no extremo nordeste do Rio Grande do Sul.
A espécie prefere planícies aluviais e encostas de declive suave, em solos úmidos, profundos e férteis.