Foto: Alexis López Hernández (CC BY) via GBIF
Pata-de-vaca
Bauhinia ungulata
- até 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: mororó, capa-bode, mororó-verdadeiro
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), Bauhinia ungulata pertence à família Fabaceae (chamada Leguminosae em Cronquist), à subfamília Cercideae (Caesalpinioideae em Cronquist) e à ordem Fabales. O nome científico válido é Bauhinia ungulata L., publicado pela primeira vez em 1753 (Sp. Pl. 1: 374). São sinônimos botânicos Bauhinia macrostachya Wallich ex Baker e Pauletia ungulata (L.) A. Schmitz. O gênero Bauhinia foi batizado por Linnaeus em homenagem aos irmãos Jean e Gaspard Bauhin, médicos e botânicos suíços do século 16, enquanto o epíteto ungulata faz referência à folha lembrar o casco de uma vaca — adequado, já que cada folha é formada por dois folíolos unidos pela base. O nome popular mororó deriva de moró (alimentar) e rô (produzir), em alusão às folhas comestíveis.
Espécie de comportamento decíduo e hábito que vai do arbustivo ao arbóreo; os exemplares maiores chegam a cerca de 10 m de altura e 30 cm de DAP na fase adulta. O tronco é tortuoso e costuma ter fuste curto, com ramificação dicotômica formando copa densa, baixa e sem espinhos. A casca atinge até 5 mm de espessura, com ritidoma fibroso e pardacento que se desprende em tiras finas, revelando uma coloração marrom-avermelhada na porção interna. As folhas são simples, alternas e bilobadas em formato de pata de vaca, de consistência cartácea, com 4 cm a 14 cm de comprimento por 3 cm a 8 cm de largura; têm pecíolo de menos de 1 cm, face superior opaca e glabra, face inferior vilosa, ápice agudo a longamente acuminado e seis nervuras principais partindo da base. As inflorescências surgem em racemos terminais e as flores são andróginas, com sépalas fendidas e onduladas a retorcidas e pétalas linear-lanceoladas e brancas; os estames começam brancos e depois tornam-se vináceos. O fruto é um legume achatado de deiscência explosiva, com 12 a 16 sementes obovadas a oblongas, planas a levemente convexas, de tegumento castanho-escuro, levemente brilhante e córneo, medindo 3 mm a 8,2 mm de comprimento, 4,3 mm a 5,9 mm de largura e 1,6 mm a 2,5 mm de espessura.
Uso e ecologia
A madeira é densa (massa específica aparente de 0,94 g/cm³), com cerne e alburno indistintos de tom esbranquiçado, textura grossa, grã revessa e alta resistência ao apodrecimento. Tem uso restrito na serraria, empregada sobretudo em cercas, currais, apriscos e pequenas construções rurais, além de render lenha de boa qualidade; não serve, porém, para celulose e papel. As folhas são uma forrageira de excelente qualidade para o gado, e a espécie tem grande potencial melífero, produzindo néctar e pólen. No campo medicinal popular, a casca é tida como adstringente e anti-inflamatória e usada como peitoral, o chá das folhas como diurético, a infusão das flores como purgativo e o xarope da entrecasca como expectorante, havendo também emprego no tratamento de diabetes e no controle do colesterol. Essas informações medicinais são apenas registro de pesquisa e não devem orientar tratamentos nem substituir o acompanhamento médico.
Trata-se de uma espécie pioneira, típica das restingas arbóreas do litoral. Ocorre em diversos ambientes, como a Floresta Ombrófila Densa no Maranhão e no Nordeste (formações de terras baixas), a Floresta Estacional Semidecidual submontana em Minas Gerais, a Floresta Estacional Decidual montana no Ceará e o Cerrado stricto sensu e cerradão em Mato Grosso. Aparece ainda em matas ciliares em Goiás, no carrasco e nas restingas litorâneas do Ceará, em encraves vegetacionais do Nordeste e em ecótono savânico-florestal em Bauru, SP.
A floração vai de fevereiro a março no Maranhão e de julho a outubro no Ceará. Os frutos amadurecem de janeiro a março no Ceará e de março a julho no Maranhão.
Espécie hermafrodita, tem as flores visitadas por beija-flores e morcegos, que atuam na polinização. A dispersão se dá principalmente por barocoria: a deiscência explosiva e violenta do fruto arremessa as sementes a distância.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde para o marrom-acinzentado, acompanhando-se a maturação fisiológica para evitar perdas — como a deiscência é explosiva, no ponto ideal as sementes são lançadas a grandes distâncias. Uma leve pressão dos dedos já abre a vagem para retirar as sementes manualmente; alternativamente, os frutos colhidos podem ser expostos ao sol para abrirem sozinhos. Cada quilo reúne cerca de 2.300 sementes. Embora o tegumento não seja impermeável e a germinação ocorra sem tratamento prévio, sementes recém-colhidas apresentam dormência tegumentar que pode ser superada por escarificação mecânica com lixa d'água ou química, com imersão em ácido sulfúrico concentrado. O comportamento fisiológico é ortodoxo, conservando a viabilidade por mais de um ano mesmo em ambiente não controlado.
Recomenda-se semear duas sementes por saco de polietileno de no mínimo 11 cm de altura por 4,5 cm de diâmetro, ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio; quando necessária, a repicagem é feita de 2 a 4 semanas após o início da germinação, e as plântulas formam um sistema radicial vigoroso. A germinação é epígeo-foliácea, com emergência entre 5 e 35 dias após a semeadura e poder germinativo alto, chegando a 91%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 5 meses após a semeadura. As raízes não formam nódulos em associação com bactérias do gênero Rhizobium — na Amazônia, não se observou nodulação nem em campo nem em viveiro.
O mororó tem hábito irregular, bastante bifurcado, com ramificação pesada e sem dominância apical definida; como não faz desrama natural, exige podas de condução e dos galhos. Pode ser cultivado a pleno sol em plantio misto e apresenta brotação vigorosa da touça.
Há poucos dados sobre o desempenho da espécie em plantios, mas o crescimento é considerado lento.
A precipitação anual média varia de 800 mm, no Ceará, a 1.800 mm, no Maranhão, com chuvas periódicas e deficiência hídrica moderada nas áreas litorâneas. A temperatura média anual fica entre 20 °C (Alto Paraíso de Goiás, GO) e 26 °C (São Gonçalo do Amarante, CE); a média do mês mais frio vai de 18,4 °C (Bauru, SP) a 23,9 °C (Crateús, CE) e a do mês mais quente de 22,5 °C (Brasília, DF) a 29 °C (Crateús, CE), com mínima absoluta registrada de 1,6 °C em Brasília. Não há ocorrência de geadas. Pela classificação de Köppen, predomina o clima Aw (tropical com inverno seco, tipo savana) em vários estados, e Cwa (subtropical com inverno seco e verão quente) em Campo Maior, PI.
Por ser higrófila, a espécie tolera solos pedregosos de textura tanto argilosa quanto arenosa, mas se desenvolve melhor em solos férteis e argilosos, ainda que com pedras. No carrasco de Novo Oriente, CE, vegeta sobre Areias Quartzosas. O pH desses solos situa-se entre 4,8 e 5,5.