Passuaré
Sclerolobium denudatum Vogel
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: angá, cacheta-amarela, cacheta-preta, passariúva, passariúba, passariúva-preta, arapacu, bascuaré, ingá-da-mata, tachi, tapassuaré
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), o passuaré pertence à divisão Angiospermae, clado das Eurosídeas I, ordem Fabales (tratada como Rosales no sistema de Cronquist) e família Fabaceae (denominada Leguminosae em Cronquist), dentro da subfamília Caesalpinioideae. A espécie foi descrita por Vogel como Sclerolobium denudatum, com publicação em Linnaea 11: 396, no ano de 1837. O nome do gênero une os termos gregos scleros (duro, seco) e lobos (lobo), enquanto o epíteto denudatum deriva do latim para "desnudo", referência aos lobos duros e sem pelos do fruto.
Trata-se de uma árvore semidecídua que, na fase adulta, pode alcançar cerca de 30 m de altura e até 80 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo). O tronco varia de reto a um pouco tortuoso, com fuste de até 14 m. A ramificação é dicotômica e os ramos adultos não apresentam pelos. A casca chega a 10 mm de espessura; a porção externa (ritidoma) tem cor cinza-escura e fissuras verticais de finas a médias. As folhas são compostas, pinadas e alternas, com 2 a 5 jugos de folíolos opostos e glabros, que medem de 2 a 14 cm de comprimento por 1 a 5 cm de largura. Esses folíolos são coriáceos, concolores, de formato obovado-oblongo a lanceolado-oblongo, com ápice obtuso a ligeiramente agudo, base cuneada simétrica ou subsimétrica e margem inteira; a face superior é glabra e brilhante, com nervuras impressas, e a inferior varia de tomentela a glabra, com a nervura central saliente. Quando presentes, as estípulas são foliáceas; o peciólulo é engrossado, com 3 a 4 mm, e o pecíolo mede de 1 a 3 cm. A inflorescência é uma panícula de espigas terminal, multiflora e levemente tomentosa. As flores são hermafroditas, sésseis e dispostas comprimidas ao longo dos ramos, com cálice dourado e adpresso-piloso por fora e pétalas longamente pilosas. O fruto é um legume fibroso, de formato subfalcado a elíptico, com 6 a 9,5 cm de comprimento por 2 a 3,6 cm de largura, geralmente com uma única semente, raramente duas. A semente é sublosangular e comprimida, medindo 1,5 cm por 1,2 cm, com testa rígida e parda e hilo na base.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,55 a 0,63 g/cm³), com cerne de coloração bastante irregular, que vai do róseo-claro ao castanho-claro-rosado e do bege-pardacento ao pardo-claro-amarelado ou acinzentado, exibindo reflexos róseos ou arroxeados. Apresenta superfície de brilho irregular, cheiro e gosto pouco perceptíveis, textura média e grã tipicamente reversa. É medianamente resistente aos esforços mecânicos, pouco resistente ao apodrecimento, porém com boa resistência ao ataque de cupins de madeira seca. Localmente, a madeira serrada e roliça é aproveitada em construção civil, tábuas em geral, sapatas de freio de carroça, barcos leves e caixotaria rústica, destacando-se especialmente na confecção de mourões, esteios e tabuados. A espécie também é considerada apta para a produção de celulose e papel e fornece lenha de qualidade razoável.
É classificada no grupo sucessional como secundária inicial a secundária tardia. Costuma se estabelecer em clareiras grandes, com mais de 100 m². No bioma Mata Atlântica, ocorre na Floresta Estacional Semidecidual (Floresta Tropical Subcaducifólia), na formação Submontana de São Paulo, e na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Pluvial Atlântica), nas formações Submontana e Montana do Paraná e de São Paulo.
A floração ocorre de julho a novembro em São Paulo, de agosto a novembro no Rio de Janeiro e em setembro no Paraná. Os frutos maduros surgem a partir de março no Rio de Janeiro, onde permanecem por vários meses, e de maio a junho em São Paulo.
A polinização é feita principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão de frutos e sementes é tanto anemocórica (pelo vento) quanto zoocórica, com destaque para o muriqui (Brachyteles arachnoides).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser coletados diretamente da árvore assim que começa a queda espontânea, ou recolhidos do chão logo após caírem; em ambos os casos, convém expô-los ao sol para secar e facilitar a quebra manual e a retirada das sementes. Cada quilo contém cerca de 1.700 sementes. Como apresentam dormência tegumentar, recomenda-se superá-la com escarificação em ácido sulfúrico concentrado por 10 minutos. O comportamento no armazenamento é ortodoxo, mantendo a viabilidade por mais de 100 dias.
Indica-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 a 10 cm de diâmetro, ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. Caso seja necessária a repicagem, ela deve ser feita 2 a 3 semanas após a germinação, quando as plântulas atingirem cerca de 4 cm de altura. A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 13 e 80 dias após a semeadura e taxa de até 40%. Em viveiro, as raízes formam nódulos devido à associação com bactérias do gênero Rhizobium, recomendando-se ainda investigar a presença de fungos micorrízicos arbusculares.
A espécie tem dominância apical bem definida, ótimo vigor e boa derrama natural em plantios densos; já em espaçamentos amplos (3 m x 3 m) requer desrama dos galhos. O ideal é plantá-la a pleno sol, em plantios puros e densos, podendo também integrar plantios mistos como tutora de espécies secundárias tardias ou clímax. Vale registrar que consta na lista de espécies ameaçadas da União Mundial para a Natureza (UICN), na categoria vulnerável.
Não existem dados sobre o crescimento da espécie em plantios. Conforme observado por Lorenzi, o desenvolvimento das plantas em campo é lento.
A precipitação média anual varia de 800 mm, no Rio de Janeiro, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas distribuem-se de forma uniforme desde parte do litoral fluminense até Santa Catarina e são periódicas nas demais áreas. A deficiência hídrica é nula nessa faixa litorânea, e de pequena a moderada no inverno do sul de Minas Gerais e do leste paulista. A temperatura média anual fica entre 19,3 ºC (Juiz de Fora-MG e São Paulo-SP) e 23,7 ºC (Rio de Janeiro-RJ); a média do mês mais frio vai de 15,3 ºC (Cerro Azul-PR) a 21,3 ºC (Rio de Janeiro-RJ) e a do mês mais quente de 22,4 ºC (São Paulo-SP) a 26,7 ºC (Ubatuba-RJ), com mínima absoluta de -4 ºC (Cerro Azul-PR). As geadas, em média de 0 a 3,7 por ano (máximo de sete no Paraná), são raras ou pouco frequentes. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre nos tipos Af (tropical superúmido) no litoral do Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo; Cfa (subtropical úmido com verão quente) no nordeste paranaense, em Santa Catarina e em São Paulo; e Cwb (subtropical de altitude, com verões chuvosos e invernos frios e secos) no sul de Minas Gerais.
Desenvolve-se em solos de fertilidade química média, profundos, de textura argilosa a argilo-arenosa, bem drenados e com pH baixo.