Foto: filipeprates (CC BY) via GBIF
Paricá
Schizolobium amazonicum
- até 40 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: canafista, canafístula, fava-canafístula, guapuruvu-da-amazônia, paricá-da-amazônia, paricá-da-terra-firme, pinho-cuiabano, faveira, paricá-grande, bandarra
Botânica
O nome científico aceito é Schizolobium amazonicum Huber ex Ducke, da família Caesalpiniaceae (subfamília Caesalpinioideae das leguminosas), inserida na ordem Fabales. A espécie já recebeu o sinônimo Schizolobium excelsum Vogel var. amazonicum Ducke ex Williams. O nome do gênero, Schizolobium, remete à ideia de "legume partido", enquanto o epíteto amazonicum faz referência à origem do material-tipo, coletado na Amazônia brasileira. Fora do país a árvore é conhecida por nomes como cerebó (Bolívia), tambor (Colômbia), gavilán (Costa Rica), pachaco (Equador), pashaco (Peru) e palo de judío ou palo de picho (México), e no comércio internacional pelo nome quamwood.
Árvore de folhas caducas que, quando adulta, pode chegar a cerca de 40 m de altura e 100 cm de diâmetro a 1,30 m do solo. O tronco é reto e bem conformado, com fuste de até 25 m; nos exemplares jovens tem coloração verde marcante e cicatrizes transversais deixadas pela queda das folhas, podendo apresentar sapopemas na base. A ramificação é dicotômica, e a copa, galhosa, aberta e obovoide, forma uma abóbada regular. A casca chega a 15 mm de espessura: por fora é lisa a levemente fissurada, cinza-clara, com muitas lenticelas salientes dispostas em fileiras longitudinais, ficando esbranquiçada e esfoliando-se em placas retangulares nos indivíduos mais velhos; por dentro é creme-rosada, granulosa, de sabor amargo e odor desagradável de almíscar. As folhas são grandes, bipinadas e de longo pecíolo, medindo de 60 a 150 cm, com raque lenhosa; nas árvores velhas reduzem-se bastante de tamanho, com 15 a 20 pares de folíolos oblongos de 2 a 3,5 cm. As inflorescências surgem em panículas terminais vistosas e eretas, de 15 a 30 cm, na ponta dos ramos. As flores são amarelo-claras, zigomorfas, de aroma doce e 2 a 2,2 cm de comprimento. O fruto é uma criptosâmara espatulada e oblanceolada, aberta até o ápice, de 6 a 10 cm por 1,5 a 3 cm, contendo 1 a 2 sementes. A semente, achatada, ovalada e de cor café com bordo mais escuro, mede de 16 a 21 mm por 11 a 14 mm, tem testa lisa, brilhante e dura e endosperma esbranquiçado rico em galactomananas; quimicamente é composta sobretudo por proteínas (21,19%), ácido palmítico (6,46%) e lipídios (3,86%).
Uso e ecologia
A madeira do paricá é leve a moderadamente densa (0,30 a 0,62 g/cm³), com alburno creme-amarelado bem distinto do cerne marrom-claro, brilho mediano, grã algo entrecruzada e textura de média a grossa. É fácil de trabalhar, porém pouco durável e suscetível ao ataque biológico, exigindo preservação. É bastante empregada na produção de lâminas e miolo de compensados, brinquedos, caixotaria leve, portas e parquete; no Pará são fabricadas chapas de compensado de alta qualidade, muito procuradas para exportação, sobretudo aos Estados Unidos. Fornece ainda lenha de qualidade razoável e é promissora para a fabricação de celulose, pois, apesar do alto teor de lignina (34,70%), deslignifica-se com facilidade e proporciona papel branqueado de excelente resistência e fácil branqueamento. Na medicina popular, é usada contra disenteria e hemorragia uterina, e em Barcarena (PA) o chá da casca batida do tronco é indicado para diarreia.
Trata-se de uma espécie pioneira. Habita a Amazônia tanto em floresta primária quanto, principalmente, nas florestas secundárias de terra firme e de várzea alta, formando capoeiras praticamente monoespecíficas no estrato dominante até cerca de 6 anos de idade. No bioma Amazônia aparece na Floresta Ombrófila Densa de terra firme, onde se comporta como árvore emergente; no bioma Mata Atlântica ocorre na Floresta Estacional Semidecidual, formação submontana, em Mato Grosso. Fora do Brasil, é registrada na Bolívia (bosque montano úmido) e na Amazônia equatoriana.
Espécie monoica. Floresce de maio a junho em Mato Grosso e de junho a julho no Pará. Os frutos amadurecem de agosto a setembro em Rondônia e de agosto a outubro no Pará.
A polinização é feita essencialmente por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão é autocórica, ocorrendo tanto por gravidade (barocórica) quanto pelo vento (anemocórica).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando assumem tom café-claro e começam a abrir. Cada quilo reúne de 980 a 1.400 sementes. A dormência precisa ser quebrada: recomenda-se escarificação ácida com ácido sulfúrico (H2SO4 a 70%, ou imersão por 60 minutos) ou imersão em água a 80 ºC, sendo a escarificação mecânica com lixa nos dois lados maiores um método prático e eficiente. A imersão em água a 100 ºC deve ser evitada, pois mata boa parte das sementes. Quando colhida ainda verde, com tegumento tenro, a germinação chega a 90% já no quarto dia, mas o manejo é difícil pelo alto teor de umidade e pela suscetibilidade a microrganismos. A semente é ortodoxa: por ter exocarpo resistente e impermeável, pode ser armazenada por até 2 anos sem perda do poder germinativo.
Semeiam-se 1 a 2 sementes diretamente em sacos de polietileno de 18 x 25 cm ou em tubetes grandes; havendo necessidade de repicagem, ela é feita quando as plantas alcançam 9 cm, entre 1 semana e 71 dias após a germinação. O sistema radicular é superficial. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência se dá entre 6 e 45 dias após a semeadura; com a dormência bem superada, a germinação pode passar de 85%, ao passo que sem esse tratamento fica baixa, em torno de 16%. As mudas atingem o porte ideal para o plantio (20 a 35 cm) por volta de 60 dias após a semeadura. A propagação vegetativa por estaquia de material juvenil é viável, usando estacas das porções mediana e basal tratadas com AIB em concentrações de 2.000 a 4.000 ppm. Embora não fixe nitrogênio, a espécie forma associação simbiótica com micorrizas.
Espécie marcadamente heliófila e intolerante a temperaturas baixas, apresenta crescimento monopodial, com fuste reto e limpo graças à boa desrama natural. Há ainda poucos estudos silviculturais, mas recomenda-se o plantio a pleno sol nos espaçamentos de 4 x 3 m ou 4 x 4 m, que favorecem o crescimento. Como é bastante sensível ao vento, que pode inclinar os fustes, sugere-se o uso de cortinas de abrigo ou consórcios com espécies de ritmo de crescimento semelhante para dar equilíbrio ao povoamento. Rebrota vigorosamente da touça. Em Mato Grosso, o custo médio de implantação e condução de 1 ha durante 4 anos, no espaçamento 3,5 x 3,5 m, na Microrregião Guamá (PA), foi de R$ 3.191,15. É também aproveitada em sistemas agroflorestais: em Rondônia sombreia café e cacau; em Paragominas (PA) foi consorciada com milho nos três primeiros anos; e na Bolívia é indicada para compor as fileiras centrais de quebra-ventos e enriquecer cortinas naturais.
O paricá tem crescimento muito rápido. Aos 18 meses já apresenta cerca de 4 m de altura e 10 cm de diâmetro, superando até o morototó (Schefflera morototoni) em velocidade. Pode alcançar produção volumétrica de até 38 m³/ha/ano aos 6 anos, como observado em Dom Eliseu (PA), e permite exploração já aos 15 anos. É cultivado comercialmente em cerca de 20.000 ha de terra firme no Acre, em Mato Grosso, no Pará e em Rondônia, com forte expansão em Mato Grosso a partir da década de 1990 para abastecer a indústria de compensados. Nos projetos de reposição florestal registrados no Ibama no Pará entre 1976 e 1996, foi a espécie mais plantada, presente em 38% das empresas.
A precipitação média anual vai de 1.600 a 3.000 mm no Pará, podendo chegar a 5.850 mm na Bolívia, com chuvas bem distribuídas em Belém (PA) e periódicas nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula em Belém e de pequena a moderada no Amazonas, no Acre, em Rondônia e em Mato Grosso. A temperatura média anual situa-se entre 24,8 ºC (Belterra, PA) e 26,6 ºC (Óbidos, PA); a mínima absoluta registrada foi de 6 ºC em Rio Branco (AC). Não tolera geadas em sua área natural, mas em plantio misto em Rolândia, norte do Paraná, suportou mínimas de até -2 ºC sem danos aparentes. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af (tropical superúmido) perto de Belém, Am (tropical chuvoso de monção) no Acre e no Pará, e Aw (tropical com verão chuvoso e inverno seco) no Acre, em Mato Grosso e em Rondônia.
No Pará, restringe-se a regiões de solos argilosos de alta fertilidade química, porém sujeitos a compactação. Em Mato Grosso, ocorre em solos de baixa fertilidade química, com pH em água de 4,5 e teores reduzidos de potássio e fósforo. Na Bolívia, cresce em solos jovens de origem aluvial, de baixa fertilidade natural e pouca matéria orgânica, pH entre 3,7 e 5,5 e alta saturação de alumínio (70% a 80%). Quanto à nutrição, a espécie é sensível ao boro: tanto a falta quanto o excesso inibem o crescimento (a toxidez é mais prejudicial e se manifesta nas folhas velhas, enquanto a deficiência aparece nas folhas novas e raízes), tendo a dose de cerca de 0,15 mg/dm³ proporcionado o melhor desempenho.