Foto: Cecilia Fer Díaz (CC BY) via GBIF
Paineira
Chorisia speciosa
- 10 a 15 m, podendo chegar a 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: árvore-de-paina, árvore-de-lã, paineira-de-espinho, barriga-d'água, bomba-d'água, barriguda, paina, paina-de-seda, paineira-branca, paineira-fêmea, paineira-rosa, paineira-de-seda
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a paineira pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Malvales, na família Bombacaceae. A espécie foi descrita por Saint-Hilaire em 1828 e tem como sinônimo botânico Bombax aculeatum Vellozo. O nome do gênero, Chorisia, homenageia Luis J. Choris, ilustrador que registrou a Viagem Pitoresca ao Redor do Mundo durante a expedição do navegador russo Otto von Kotzebue; já o epíteto speciosa faz alusão à beleza marcante de suas flores.
Árvore caducifólia que normalmente alcança de 10 a 15 m de altura e 30 a 60 cm de DAP, mas que pode atingir 30 m de altura e 120 cm ou mais de diâmetro quando adulta. O tronco é cilíndrico, reto e bastante grosso, por vezes dilatado em forma de garrafa (barriga), com base reforçada e coberto por fortes acúleos espalhados; o fuste chega a 16 m em ambiente de floresta e a cerca de 8 m em áreas abertas, e exemplares velhos costumam apresentar ocos na base que servem de abrigo para animais. A ramificação é dicotômica, racemosa e irregular, formando copa ampla, arredondada, frondosa e pouco densa em folhas. A casca tem até 10 mm de espessura: a externa é verde nas árvores jovens e cinza-clara com estrias verdes nas adultas, lisa ou levemente fissurada, e a interna é cor de marfim com estrias longas e rosadas. As folhas são compostas, alternas e digitadas, com 4 a 7 folíolos glabros e lanceolados de 10 a 15 cm de comprimento por 4 a 5 cm de largura, de margem serrilhada e pecíolo de 5 a 17 cm. As flores são vistosas e aveludadas, de até 9 cm de comprimento por 3 cm de largura, reunidas em racemos axilares e terminais, com grande variação de cor — do rosa-intenso com estrias escuras até tons claros, quase brancos. O fruto é uma cápsula loculicida lisa, coriácea e brilhante, de forma variável (redonda a oblonga), com 12 a 22 cm de comprimento e 4 a 8 cm de diâmetro, cinco lóculos deiscentes e fibras brancas, produzindo em média 120 sementes cada. As sementes são pequenas, achatadas e arredondadas, de cor marrom-escura a preta, envoltas por pêlos branco-amarelados (a paina), muito leves e lustrosos, dispostos em cinco fileiras, e contêm óleo.
Uso e ecologia
A madeira da paineira é muito leve (massa específica aparente de 0,22 a 0,34 g/cm³ a 15% de umidade), de textura grossa e grã direita, com cerne branco-amarelado levemente rosado e manchas irregulares deixadas pela resina, pouco diferenciado do alburno. Tem baixa durabilidade natural, apodrecendo com rapidez, e é comparada à balsa (Ochroma lagopus); pelo processo de cozimento a vapor por 12 a 24 horas, dissolve-se a resina e a madeira fica uniformemente branca. De uso restrito, presta-se ao aeromodelismo, a material isolante, flutuadores, enchimento de portas, embalagens leves, caixas, forro de móveis, cochos, gamelas, tamancos, canoas, divisórias e outras aplicações que não exijam resistência; como lenha tem qualidade muito ruim, mas fornece pasta para cartão e papel (fibras de 1,15 mm e lignina com cinza de 24,93%). A casca, na parte interna, possui fibras longas e resistentes, tradicionalmente usadas por povos indígenas para fazer sacos, bolsas e utensílios domésticos. As sementes contêm de 15% a 20% de óleo, semelhante ao de algodão e aproveitável para fins industriais e alimentares. Seu produto mais valioso é a paina — não uma fibra propriamente dita, mas pêlos que se formam nas células epidérmicas internas do fruto e se soltam na maturação, envolvendo as sementes; já chegou a ser exportada, substitui o kapok da sumaúma (Ceiba pentandra) e serve como isolante acústico e térmico, além de enchimento de travesseiros, almofadas, acolchoados, cobertas, colchões, agasalhos e estofados, e na fabricação de boias e equipamentos de salvamento. Na medicina popular, a resina e a casca cozidas juntas viram um emplastro empregado contra hérnia, ínguas e queimaduras, enquanto as flores são usadas no combate à asma e, por etnias indígenas do Paraná e de Santa Catarina, no tratamento da coqueluche e como calmante da tosse.
Trata-se de espécie secundária, do estágio inicial ao tardio. Não é muito longeva e raramente aparece em grande abundância, embora tenha distribuição ampla; é frequente encontrá-la em indivíduos isolados, fora da mata. Em termos fitoecológicos, ocorre naturalmente na Floresta Ombrófila Mista (com araucária), onde é rara, na Floresta Estacional Semidecidual e na Decidual, na bacia do Rio Uruguai, no domínio da Caatinga em Minas Gerais e nos afloramentos calcários mineiros. Em Perdizes (MG) foram registrados de 2 a 4 indivíduos por hectare.
A floração se estende de outubro a junho no Rio Grande do Sul, de dezembro a maio em São Paulo, de janeiro a maio em Santa Catarina, de janeiro a junho no Paraná, de março a maio em Minas Gerais e de março a julho no Rio de Janeiro. Os frutos amadurecem de junho a setembro no Rio Grande do Sul, de junho a outubro em São Paulo, de julho a agosto em Minas Gerais, de julho a setembro no Paraná e em setembro no Rio de Janeiro. Cada árvore produz, em média, de 300 a 700 frutos, com cerca de 12 g de paina por fruto, e a reprodução começa entre os 5 e 8 anos de idade quando em plantio.
A planta é hermafrodita e de fecundação cruzada. A polinização é feita sobretudo por borboletas, com participação também de beija-flores e morcegos. A dispersão é anemocórica: as sementes leves são levadas pelo vento, atingindo com frequência 160 m de distância da árvore-mãe e, eventualmente, distâncias bem maiores. As folhas integram a dieta do macaco-bugio (Alouatta fusca) e a espécie atrai muitas aves, em especial periquitos, que visitam as cápsulas ainda imaturas em busca das sementes sob a paina úmida.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando atingem coloração parda e ainda fechados, sendo postos para secar em local limpo até abrirem sozinhos. Cada quilo reúne de 4.060 a 16.500 sementes, que não apresentam dormência; mesmo assim, recomenda-se mantê-las imersas em água fria por 2 horas antes da semeadura. De 3 a 4 dias após o início da embebição, rompem o tegumento, emitem a radícula e ficam recobertas por um gel mucilaginoso. Apesar da alta umidade inicial, não têm comportamento recalcitrante: conservam-se por até 16 meses em câmara fria e seca (12ºC e 50% de UR) sem perder viabilidade, e um lote guardado por 21 meses em câmara fria ainda apresentou 60% de germinação. Em laboratório, Fanti & Perez obtiveram germinação mais rápida e uniforme com a punção do tegumento.
A semeadura pode ser feita em sementeiras, para repicagem posterior, ou colocando-se duas sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno de tamanho médio; a repicagem ocorre de 2 a 3 semanas após a germinação. A espécie tem raiz pivotante forte, e a semeadura direta no campo é viável. A germinação é epígea e tem aspecto curioso: o embrião é grande, com cotilédones dobrados ou enrolados e endosperma fraco ou ausente, folhas cotiledonares grandes e cordiformes e hipocótilo vermelho. A emergência começa entre 8 e 30 dias após a semeadura, de forma irregular, com taxas que vão de 30% a 100%, e as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 3 meses depois. A propagação por estacas é difícil por causa do dimorfismo axial, viável apenas a partir do caule principal ou de ramos ladrões, com pegamento de no máximo 50%; a enxertia de borbulha supera 70% de pegamento. A presença ou ausência da auxina 2,4-D parece influenciar a friabilidade dos calos em folhas jovens, e, sem reguladores, observa-se pouca formação de calos e escurecimento das bordas dos explantes por oxidação.
Heliófila, a paineira tolera sombreamento na fase inicial, é medianamente resistente a baixas temperaturas e sofre bastante com geadas nos primeiros anos. Tem crescimento monopodial, com galhos inseridos em pseudoverticilos, e não faz desrama natural. Pode ser plantada a pleno sol em pequenos plantios puros, em consórcio com pioneiras, ou em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas em capoeiras jovens e dispostas em linhas; rebrota da touça após o corte. Mudas altas, com mais de 5 m, apresentam bom pegamento em campo. A espécie consta na lista das plantas raras ou ameaçadas de extinção no Distrito Federal.
O crescimento é de moderado a rápido. O melhor desempenho registrado em plantios foi de 37 m³/ha/ano aos 10 anos, em Santa Helena, no Paraná.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 750 mm (Bahia) a 2.300 mm (Santa Catarina). As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (exceto o norte do Paraná) e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul e moderada nas outras áreas, com estação seca que vai de pouco pronunciada no sul da Bahia a até 3 meses no norte do Espírito Santo e 5 meses no centro-norte e sudeste de Minas Gerais e no centro da Bahia; em cultivo, a planta suporta longos períodos de estiagem. A temperatura média anual fica entre 16,7ºC (Xanxerê, SC) e 23,7ºC (Rio de Janeiro, RJ), com média do mês mais frio de 12,1ºC a 21,3ºC e do mais quente de 20,8ºC a 26,5ºC; a mínima absoluta registrada foi de -11,6ºC (Xanxerê, SC). O número de geadas por ano vai de 0 a 10 em média, chegando a 34 no extremo, na Região Sul. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Aw), o subtropical úmido (Cfa), o temperado úmido (Cfb) e o subtropical de altitude (Cwa e Cwb).
Pouco exigente quanto ao solo, a paineira chega a se desenvolver de forma satisfatória mesmo em terrenos de baixa fertilidade química, secos e arenosos. Também vegeta bem em solos férteis, profundos e ricos em matéria orgânica, de textura arenosa, franca ou argilosa. Prefere solos bem drenados e não tolera lençol freático superficial, áreas sujeitas a inundação nem várzeas.