Foto: alves.v.s (CC BY-SA) via GBIF
Pacari
Lafoensia pacari
- 5 a 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: dedaleiro, mangaba-brava, dedaleira, dedal, amarelinho, louro-amarelo, candeia-de-caju, copinho, dedal-do-campo, dedaleiro-amarelo, jacarandá-capitão, mirindiba, pacari-verdadeiro, pau-de-dedal, dedal-amarelo, dedal-cabacinha, dedal-cravo, dedal-róseo, dedaleira-amarela, louro-da-serra, falso-dedaleiro, louro, mangabeira-brava, pacari-do-mato, pacuri, pau-de-bicho, pé-de-pinto, pequi-amarelo, tabaco-de-cachorro
Botânica
Pelo Sistema de Classificação de Cronquist, o dedaleiro é uma angiosperma (divisão Magnoliophyta), da classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), pertencente à ordem Myrtales e à família Lythraceae. A espécie foi descrita como Lafoensia pacari Saint-Hilaire, tendo como sinônimo botânico Lafoensia pacari ssp. petiolata Koehne. O nome do gênero homenageia Dom Juan de Lafõens, da Casa de Bragança e membro da Academia de Lisboa, enquanto o epíteto pacari tem raiz tupi.
Trata-se de uma árvore semicaducifólia que costuma medir de 5 a 15 m de altura e ter de 20 a 40 cm de DAP, podendo chegar a 25 m e 60 cm de DAP quando adulta na Floresta com Araucária. Já no Cerrado, comporta-se como arvoreta de 1 a 10 m. O tronco é cilíndrico, reto ou um pouco tortuoso, com fuste de até 10 m. A copa é arredondada, em forma de umbela, larga e densa, resultado de uma ramificação cimosa em forquilha. A casca chega a 20 mm de espessura: por fora é cinzenta e rugosa, com cicatrizes e sulcos longitudinais rasos que se aprofundam nos exemplares mais velhos, e por dentro é amarelada. As folhas são compostas, opostas, inteiras, lisas, brilhantes e coriáceas, de pecíolo curto e ápice obtuso dotado de uma glândula (um hidatódio, característico de todas as Lafoensia); a lâmina mede até 15 cm, é verde-amarelo-clara e tem nervuras salientes na face inferior. As flores, de cor branco-amarelada a bege, alcançam 22 mm e se agrupam em panículas terminais umbeliformes de até 30 cm, surgindo de botões grandes e avermelhados; o cálice é campanulado (1,8 a 2,0 cm de comprimento por 1,2 a 1,5 cm de largura), afunilado, avermelhado por fora e com 12 dentes fortes em forma de dedal. O odor das flores é desagradável e varia conforme o estágio de abertura. O fruto é uma cápsula semilenhosa e indeiscente, semiglobosa, de 4 a 8 cm de comprimento por 2,3 a 5,3 cm de diâmetro, com ápice arredondado em ponta de cone; na maturação suas paredes se rompem de forma irregular pela base, liberando de 15 a 190 sementes. Em forma de pião, o fruto pesa de 6,1 a 40,6 g (frutos imaturos chegaram a 105,77 g). As sementes são aladas (duas asas laterais), de cor amarela a parda-avermelhada, planas, com até 37 mm de comprimento por 13 mm de largura, sem endosperma, pesando entre 1 e 9,4 g.
Uso e ecologia
A madeira do dedaleiro é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,72 a 0,83 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno e cerne de tom amarelo-claro-pálido, às vezes com manchas róseas; a superfície é lisa, de brilho irregular, textura fina e grã direita, sem cheiro nem gosto marcantes, e apresenta grande durabilidade natural em contato com o solo. Serrada ou em forma roliça, é empregada localmente em construção civil (obras internas e externas), marcenaria, tacos de assoalho, tabuados, cabos de ferramentas e mourões, além de servir como boa lenha — embora não preste para celulose e papel. A forragem, com 8% de proteína bruta e 20% de tanino, é imprópria para o gado. A espécie também tem valor apícola (flores melíferas, com néctar e pólen) e foi usada pelos índios guaranis na fabricação de flechas. No campo medicinal, as folhas em infusão têm ação diaforética para uso interno, e em Poxoréo (MT) a planta é muito empregada contra úlcera.
É uma espécie secundária inicial, comum nas associações secundárias. Ocorre na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), na formação Montana, e na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), na formação Submontana, onde aparece de modo amplo, porém descontínuo e pouco expressivo. Está presente ainda na Floresta Estacional Semidecidual Montana, no Campo Cerrado, no Cerrado e no Cerradão (Savana Florestada), onde é abundante, no Chaco Sul-Mato-Grossense e nos campos rupestres ou de altitude, como nas serras da Bocaina e do Cipó, em Minas Gerais, onde sua ocorrência é ocasional. Em levantamentos fitossociológicos no Cerrado do Maranhão e de São Paulo, registraram-se de 1 a 3 árvores por hectare; em matas ciliares de Minas Gerais e São Paulo, de 1 a 23 por hectare; e em área de Floresta Atlântica paulista, 8 árvores. Fora do Brasil, habita o bosque semidecíduo e a savana arbórea na Bolívia e no Paraguai.
A floração varia bastante conforme a região: ocorre em abril no Distrito Federal; de abril a junho em Mato Grosso; de abril a agosto em Mato Grosso do Sul; de junho a setembro em Minas Gerais; de outubro a janeiro em Santa Catarina; de outubro a março no Paraná; de novembro a janeiro no Rio Grande do Sul; e de fevereiro a julho em São Paulo. Os frutos amadurecem de fevereiro a junho no Rio Grande do Sul, de abril a outubro no Paraná e em São Paulo, em agosto no Distrito Federal e em setembro em Mato Grosso. Em plantio, a reprodução começa a partir dos 3 anos de idade.
Planta hermafrodita, é polinizada sobretudo por morcegos da família Phyllostomidae (Vampyrops lineatus, Artibeus jamaicensis planirostris e Anoura geoffroyi geoffroyi), além de mariposas da família Sphingidae e abelhas, em especial a Trigona spinipes. A dispersão das sementes é autocórica, predominantemente barocórica (por gravidade) e também anemocórica (pelo vento).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando passam do verde para o castanho-escuro, e as sementes podem ser extraídas manualmente, quebrando-se o fruto com um cacetete. Cada quilo reúne de 22.224 a 64 mil sementes, que não apresentam dormência, dispensando tratamento de superação. A longevidade é boa: lotes com 80% de germinação inicial, guardados em saco plástico tanto em sala quanto em câmara fria, mantiveram 74% e 76% de germinação após 12 meses; outro lote conservado por 20 meses em câmara fria ainda germinou a 60%.
Recomenda-se semear em sementeiras e repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 18 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio. A repicagem deve ser feita quando surgem as primeiras folhas definitivas, de 2 a 4 semanas após a germinação, com a raiz principal já com cerca de 5 cm. A germinação é epígea; cerca de uma semana após a semeadura as sementes incham bastante e ficam recobertas por um gel mucilaginoso. A germinação tem início entre 9 e 60 dias após a semeadura, sendo alta (até 90%, em média 70%). Aos 5 meses no viveiro, as mudas já atingem 20 cm — tamanho adequado para o plantio —, e exemplares de 20 a 60 cm apresentam bom pegamento.
O dedaleiro é uma espécie heliófila que suporta sombreamento de média intensidade na fase juvenil, mas é sensível ao frio, sobretudo nos três primeiros anos após a implantação. Seu hábito é variável, geralmente bifurcado, com tronco curto e sem dominância apical bem definida; como não faz desrama natural, exige podas periódicas de condução e de galhos para ganhar altura comercial. O plantio puro a pleno sol deve ser evitado em áreas sujeitas a geadas severas, sendo preferível o plantio misto a pleno sol em consórcio com espécies pioneiras. A árvore rebrota da touça após o corte. Em Mato Grosso, está classificada na categoria de espécie vulnerável quanto à conservação de seus recursos genéticos.
O crescimento vai de lento a moderado. Em Telêmaco Borba (PR), a espécie alcançou incremento volumétrico máximo de 7,10 m³/ha/ano, com casca, aos 8 anos de idade.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 750 mm, na Bahia, a 2.600 mm, no Amapá, com chuvas bem distribuídas no Sul e no sul da Bahia e concentradas no verão (ou inverno, conforme a região) nas demais áreas, que têm estação seca marcada. A deficiência hídrica varia de nula, no Sul, a forte, com até 6 meses de seca, no centro-norte de Minas Gerais, em Mato Grosso e na Bahia. A temperatura média anual oscila entre 16,2 ºC (Castro, PR) e 26 ºC (Santarém, PA); a média do mês mais frio fica entre 12,2 ºC (Curitiba, PR) e 25,4 ºC (Santarém, PA), e a do mês mais quente entre 19,9 ºC (Curitiba, PR) e 27,4 ºC (Cuiabá, MT). A mínima absoluta registrada foi de -8,4 ºC (Castro, PR). O número de geadas varia de 0 a 13 por ano, podendo chegar a 35 no Sul. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (Af, Am e Aw), o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e o temperado úmido (Cfb).
Naturalmente, o dedaleiro vegeta em solos ácidos, pedregosos, de baixa fertilidade química, com textura de franco-argilosa a argilosa e drenagem que vai de boa a lenta, sobretudo nas depressões. Em experimentos, porém, desenvolve-se melhor em solos de fertilidade elevada, bem drenados e de textura argilosa.